Devo a mim largar um pouco a dureza das tábuas burocráticas e me largar em molhadas ladainhas futebolísticas. Devo a mim. Devo a minha cabeça cansada.
Devo a nós outros, que meus tijolos nesta confraria estão raros.
Mas, credor e devedor, prometo novas linhas em breve. Linhas que buscarão resgatar a delícia de escrever que marcava nosso diário quando a seleção brasileira ainda existia. Quando não estávamos tão cansados.
Estivéssemos numa estação ferroviária, daquelas de filmes antigos, a constatação inevitável é que um expresso de três cores está chegando à estação, ainda que sem muito alarde, ainda que com pouca fumaça e com o carvão um tanto úmido pela inépcia. Mas o Expresso é uma locomotiva especializada em retas finais e com grandes chances de apitar e avançar pela estação como um trem bala de última geração. Tenho cá para mim que quatro pontos são poucos pontos, muito poucos.
Tem meu tio Celso e meus primos, Ivo, Charles e Djalma. E por causa deles, principalmente, gosto de futebol. Desde menino. Era a brincadeira mais legal de todas. Talvez só tivesse comparação com as brincadeiras de velho oeste com meu irmão, o Edu. Tem o Seu Nilton, meu pai. E por causa das palavras dele virei tricolor, bem mais fanático que ele, evidentemente. Tão fanático que o São Paulo me faz ficar em estados passionais e figadais extremos. Por causa do São Paulo já chorei, já quebrei mesa, já joguei radinho de pilha para dentro do campo e deixei de brincar de xerife e vilão com o Edu, o que é lamentável. Tem o Zé Sérgio. E por causa do camisa onze do Tricolor que eu quis ser jogador de futebol e quis ser canhoto, reverter a natureza. Desconfio que nas brincadeiras eu era um feliz ponta esquerda, tão feliz quanto eu era aquele vilão-mocinho bom de gatilho daquele filme de “bang bang”.
O tempo passa. O futebol é paixão. Mas tem a política, a conversa fiada com os amigos, os girassóis, um bom copo de vinho, o cinema, a cerveja e o torresmo. E assim vamos mudando um pouco e escolhendo outras coisas para gastar nossas encucações e paixões desmedidas. O tempo passa e os jogos do Tricolor ainda dão náuseas, vertigens, aborrecimentos na bílis. Mas há sempre espaço para as gargalhadas dos meus pequenos, o riso das moças, a porção de jiló e uma boa dose de Deep Purple, sem gelo. E depois do Zé Sérgio, tem o Raí, o Rogério, o Mineiro. Conheci também pelos livros o Roberto Dias, o Canhoteiro, o Sastre, o Leônidas, Poy e Pedro Rocha. Enfim, fui vários jogadores.
Mas, sinceramente, tem aquela coisa que ficou em alguma prateleira da nossa enorme biblioteca e é de difícil resgate. Numa prateleira que ficou na saudade, mas que ao mesmo tempo serve de base, estrutura e fundamento para outras e outras e outras prateleiras. É lá que encontro o riso fácil do meu irmão, a rodar pela casa atirando revólveres de plásticos em cavalos de vassouras. E é lá que aprendi a assoviar.
Sempre quis ser o Sundance. O Kid era rabugento, indócil e bom na artilharia. E namorava uma das morenas mais espetaculares de todos os filmes de todos os tempos imemoriais. Mas é inegável que era o sorriso de Butch que fazia o mundo girar, numa mistura de galanteio, lisonjas e coragem. Um bandido afável, incapaz de ser vilão.
Butch se foi. Deve estar a estourar locomotivas pelos trilhos de algum lugar... E a animar alguma brincadeira de western de anjos guris descalços. Eu tenho que lembrar de devolver o "dvd" para o meu irmão, porque o filme que está lá casa não é meu...
Bom, ele que venha buscar. Vou recepcioná-lo a balas!!!!
Única equipe a vencer todos os seus jogos na Copa do Mundo, a Holanda ensaiava um começo arrasador. O técnico Van Basten avançou os laterais, escalou três atacantes de ponta e com menos de um minuto já havia chutado duas vezes ao gol. Foi quando veio o terceiro chute, depois, chamado por Van Basten de “O fatídico”. Van deer Vart, deu um corta luz no volante Ba e bateu forte, no meio do gol. A bola bateu furiosamente no goleiro Sylva e atravessou todo o campo. Caiu em direção à área holandesa, quando pegou um efeito vertiginoso e morreu dentro do gol. Delírio total entre os senegaleses! 1x0 contra os favoritos ao título.
A Holanda não se abateu. Voltou mais disposta a atacar do que nunca. Mas, outro lance inesperado acabou com os brios dos pupilos de Van Basten. Uma farpa de 2 cm entrou na palma da mão, logo embaixo do dedo mindinho. O jogo foi suspenso por meia hora. Seguiu-se a busca incessante por uma pinça. O banheiro da patroa foi revirado. Pente, elásticos, escovas, grampos de cabelo... Nada de pinça! Jogadores holandeses reclamaram com os árbitros da Fiba (a Federation International of Botão Association). Sem pinça, a farpa foi retirada a unha mesmo. Um processo doloroso. Sangue no campo de madeira. Mais cinco minutos para água oxigenada e o jogo recomeçou com os holandeses totalmente desconcentrados. Gol de goleiro e paralisação é demais para um início de jogo!
E veio o pior. Henri Camará acertou mais um de seus chutes impossíveis de cobertura. 2x0 para Senegal. Van deer Saar ficou com os dois pés no chão. A partir daí o time se perdeu. Van Basten desesperado no banco. No final da primeira etapa, contra-ataque. Diop lança Diouf que toca para o gol aberto. 3x0.
Os laranjas tentaram reunir os brios para o segundo tempo. Mas Diao foi logo fazendo o quarto: um chutaço de fora da área no cantinho. A partir daí, Senegal só administrou. A Holanda ainda arrumou um pênalti, numa falta sobre Gio. Nisteelroy, que até então fazia campanha impecável, perdeu. Depois, para se redimir, Nisteelroy fez o gol de honra, após escanteio. 4x1 para o Senegal. Será que Pelé vai acertar uma?!
Na outra semifinal, o choque do futebol força europeu. A Alemanha saiu na frente com Podolski driblando o goleiro Buffon. Belo gol! A Itália empatou com escanteio cobrado por Del Piero e cabeçada de Gilardino. A Alemanha passou novamente à frente com Klose, recebendo lindo passe de Podolski, tocando par ao gol livre. E a Itália empatou com gol de Gilardino após escanteio cobrado por Del Piero (Um gol foi literalmente a réplica do outro). Fim de primeiro tempo. 2x2.
Logo no começo do segundo, Gilardino divide com o goleiro e a bola sobra para o lateral Grosso que só completa. 3x2. A Alemanha empata com um golaço de Ballack. A bola voou sobre Buffon, bateu na trave, nas costas do goleiro, na trave, nas costas do goleiro e, finalmente, entrou. (Como é que não filmei esse lance!)
Aos 25 minutos, Totti recebeu passe de Del Piero e tocou no único cantinho disponível, fazendo 4x3. A partir daí, o jogo ficou tenso. Marcelo Lippi colocou De Rossi que, violento, tomou cartão amarelo no primeiro lance. No segundo, De Rossi deu uma sorte sem tamanho. Num chute despretensioso, Lehman defendeu e a bola sobrou livre para o próprio De Rossi fazer 5x3. Já era 42 do segundo tempo.
O juiz apita e Itália e Senegal estão na final!
O Tostão ficou triste pela eliminação da Holanda. Para ele, se jogassem dez vezes, Senegal ganharia apenas três partidas e perderia outras sete. Mas um gol de goleiro seguida de uma farpa localizada em ponto estratégico para o bom toque de bola acabaram com as esperanças laranjas. Já o Flávio Prado disse que não tem desculpa, pois a farpa prejudicou os dois times. Carsughi acha que a Itália ganha de 1x0. Pelé apostou 4x1 para o Senegal.
Estava escrito. Só não percebeu quem é cego ou aqueles que não queriam ver. Um time tinhoso que busca resultados misturando garra e retranca. Sem criatividade. Tocando de lado, encerando o jogo, irritando a torcida. Já a “laranja” joga bonito. Toques refinados, sempre pra frente. Logo aos 10 minutos, Robben fez o primeiro gol. Após bom passe de Van Persie, ele fuzilou de dentro da área. Júlio César nem se mexeu. 1 a 0. Dunga pedia calma no banco de reservas. Mandava tocar a bola. Mas os jogadores do Brasil foram literalmente tirados para dançar. A Holanda poderia ter feito mais gols no primeiro tempo. Pecou nas finalizações e sofreu um castigo. Antes dos 45 iniciais, Robinho tirou um “achado” da cartola. Deu dois dribles curtos num zagueiro e bateu por cima de Van deer Saar. A bola entrou em cheio. 1 a 1.
Dunga voltou esperançoso para o segundo tempo. Queria segurar o jogo e vencer no contra-ataque. Para tanto, tirou Luis Fabiano e pôs Julio Baptista. A esperança durou cinco minutos, quando Van deer Vart acertou um sem-pulo, bola a meia altura: 2 a 1. Atrás no placar, Dunga, ao invés de adiantar o time, continuava pedindo calma. Ele colocou o Gaúcho como assessor do lateral Gilberto. E Kaká ficou isolado tentando arrancadas rumo ao gol, sempre desarmado, ora por Van Bomel, ora por Gio. Após um desses desarmes, lançamento para Nistelrooy. Ele adiantou a bola entre Gilberto Silva e Lúcio e bateu no ângulo. 3 a 1. Aos 40, quando a derrota era certa, Nistelrooy tocou para o desconhecido Kromkamp bater de primeira. Bola alta, indefensável. 4 a 1. O Brasil ainda achou outro gol: um chute improvável de Julio Baptista, a bola relou os dedos de Van deer Saar e as duas traves antes de morrer no ângulo. Já nos descontos, o tiro final. Nistelrooy adianta novamente a bola no meio dos zagueiros e toca no cantinho de Júlio César: 5 a 2. O juiz apita fim de jogo. Humilhante!
Seguem os resultados das quartas-de-final:
Holanda 5x2 Brasil (Um baile!)
Alemanha 3x1 Ucrânia (Sheva chegou a empatar o jogo, mas Klose fez um gol e uma assistência)
Senegal 3x2 Camarões (Henri Camará fez dois golaços, enquanto Samuel Eto´o perdeu lances incríveis)
Grécia 3x5 Itália (os gregos venciam até os 25 do segundo tempo, quando Pirlo acertou um pombo-sem-asa. Depois, Gilardino e Luca Toni enterraram a retranca grega)
As semifinais ficaram assim:
Holanda x Senegal
Alemanha x Itália
O Pelé apostou no título de Senegal. Flávio Prado acha que Alemanha e Holanda vão repetir a final de 1974. Já Claudio Carsughi apostou que a Itália irá ganhar os dois jogos de 1 a 0.
Torcer pelo técnico que foi um dos maiores atacantes do futebol mundial, ou pelo volante que levantou a Taça gritando "Tá aqui, porra!"? Pela seleção que, no contrato, deve jogar para o ataque, ou pelo time que, cheio de craques, segura o jogo?
Brasil e Holanda irão se enfrentar pelas quartas-de-final da Copa do Mundo da Fiba (Federation International of Botão Association). A Holanda é a favorita pelo futebol que vem apresentando na Copa. Mas o Brasil nunca perdeu para os holandeses nos campos de madeira. Os arquivos da Fiba revelam três embates, com três vitórias incríveis para o Brasil: 4x2, em 1993, quando Careca e Bebeto superaram o time de Van Basten; 3x0, na final da Copa de 1995, quando Romário tripudiou sobre o time de Gullit; e um surpreendente 6x2, com Rivaldo e Ronaldo humilhando o time de Bergkamp e Kluivert, em 1999.
Seguem os resultados das oitavas-de-final:
Holanda 2x1 Uruguai (os platinos seguravam o 1x0 até os 30 do segundo tempo, quando Babel driblou o goleiro e empatou. Depois, Van Persie fez um golaço de fora da área e virou o jogo. Lugano ficou desolado)
Alemanha 3x1 Japão (Ballack fez dois gols e a Alemanha só administrou)
Tunísia 2x3 Brasil (0x0 no primeito tempo. 2x0 para a Tunísia até os 25 minutos do segundo, quando Robinho desencantou. O Gaúcho empatou aos 41 e Gilberto Silva fez o da vitória aos 50 do segundo tempo para o delírio de Dunga. Na verdade, Gilberto tentou um passe para Kaká, mas a bola acabou entrando)
Ucrânia 1x0 Irã (Voronin aos 44 do segundo tempo)
Dinamarca 1x2 Grécia (Zebra! A Dinamáquina vinha fazendo bela campanha e caiu na retranca grega)
Inglaterra 2x3 Senegal (O melhor jogo das oitavas! Começou em 2x0 para os ingleses, com Gerrard fazendo gol de placa. Mas Diop, Diouf e Diao viraram no segundo tempo)
Camarões 4x1 Nigéria (Os leões indomáveis venceram com facilidade o clássico africano)
Valdir Peres, Getúlio, Oscar, Dario e Marinho. Almir, Renato e Everton. Paulo César, Serginho e Zé Sérgio. Mário Sérgio, Assis, Gassem, Jaiminho, Heriberto, Tatu, Toinho. Para quem não sabe, não se recorda ou age de má-fé, estes nomes fazem parte de uma das mais deliciosas páginas de certo clube brasileiro, de três cores, três vezes campeão do globo, com nome de santo e com tantos triunfos que reverberam até o distante planeta Plutão, no fim do Sistema Solar.
Eram os anos oitenta. Início daqueles anos em que ficaríamos roucos de tanto gritar que o nosso time era campeão. Ganhamos os Piratiningas de 80 e 81. E os Piratiningas eram torneios saborosos e repletos de fórmulas malucas, de turno, returno, terceira fase, repescagem, seletiva e o sabe se lá quais outras regras indecifráveis. Serginho Chulapa marcava goles em todos os jogos e Zé Sérgio era um Raí supremo pela ponta esquerda. Valdir Peres era um santo, pegava penalidades como se fosse a coisa mais óbvia do universo, que fechava a meta em jogos impossíveis e tomava goles absolutamente bisonhos, para nosso divertimento. Oscar e Dario Pereira formavam uma dupla de zaga inigualável, combinavam com estilo: arroz com feijão, Mineiro com Josué, linha e agulha, papel e lápis, macarrão com queijo.
Lá pelas tantas, nessa nostálgica conversa, percebemos que a noite ganhava de goleada do dia. Dizem que a nostalgia, por vezes, nos paralisa. Equivaleria a uma enfermidade crônica. Como se nada valesse a pena depois daqueles tempos perdidos, vividos, passado. Sabemos todos que não é assim, entretanto. A nostalgia, por vezes, tem o gosto da tubaína, do Speed Racer e de aula de matemática. E que é bom, muito bom, poder recordar essas coisas sem pressa, no papo de boteco, de varanda ou num diário eletrônico de onze malucos.
Acabou o jogo. A estranha sensação de que o time dera, definitivamente, adeus ao campeonato. No caso, ao terceiro campeonato seguido. Coisa rara e para o time, inédita. E também não há na série recente dos Campeonatos Brasileiros, desde 1971, um tri campeão legítimo, daquele tri que acontece quando o time embala três na seqüência.
Estranha a sensação, pois nos últimos anos nos acostumamos a disputar o caneco. E a ganhar. Construímos na nossa imaginação infantil uma superioridade cósmica. Inauguraríamos a nova era no ludopédio tupiniquim: a hegemonia absoluta. Sensação estranha esta de não mais disputar o caneco. Sei lá... um gosto acre.
Acabou o jogo com empate. E há empates com alma, vividos, intensos, loucos. Mas os empates do time tem sido insossos, lentos, modorrentos, chatos e moribundos. E o time que ganhou canecos jogando um futebol pragmático e eficiente se transformou no time burocrático e de previsibilidade lunar. Sensação estranha esta. Como a falta de apetite diante do prato de macarrão com molho de tomate.
Estranheza. De quem é a culpa? Seria do treinador cansado? Do elenco fatigado? Da falta de interesse ou ambição? Seria culpa da diretoria, que arrogante e prepotente se esqueceu de montar um time real? Ou seria minha a culpa por esquecer que as coisas na brincadeira com os pés são cíclicas? E que os grandes times se alternam?
Como é bonita a camisa do meu time. E toda esta estranheza dá lugar a sensações contraditórias e irreais, de esperanças inúteis de redenção e de alcançar o outro tricolor, lá no topo, com dez pontos na dianteira. Como são bonitas as cores do meu time. E acabado o jogo me dá vontade de andar pela rua com a camiseta e o escudo, de andar por aí só de orgulho e para fazer galhofa. E sofrer com as brincadeiras dos outros times, pobres times, que não sabem o significado da imortalidade.
Acabou o jogo. E a sensação que era estranha ficou assim... Ainda com o estômago virado olho a tabela e desconfiado acredito: Dá. No fundo sabemos que não. E daí?
Matilde, Adele, Aldine, Hansen e Brondi; Maria Lúcia, Vera e Maitê; Nicole, Helena e Zezé.
Bolonistas na espreita da sessão proibida das noites de sexta feira...
Inevitável. A edição de aniversário da revista trazia na capa ela, sim, simplesmente ela. Xuxa Meneguel. A namorada do Pelé. E curvas absurdamente impróprias para menores. Era uma coqueluche, a menina. Brasileira toda. Cara, bunda, peito. Cheinha, rechonchuda. Na medida. Eram os dias mais felizes daqueles anos. Que começavam nos minutos antes de entrar na sala de aula, com um futebol descompromissado jogado com latinhas de refrigerante amassadas. Depois, ainda antes de entrar na classe, ainda que já dispostos nas carteiras escolares, um breve trocar de figurinhas do álbum da copa: “Troco o Pantelic pelo Rocheteau”.
As aulas eram boas. Eram sobre a crase, a revolução praieira, o cloreto de sódio, Pitágoras e talvez um pouco de solfejos, na aula de música. Flauta doce. E nesse ritual, o recreio. O lanche. As meninas. Sim, as meninas. E por causa delas era que alguns já não sabiam mais se era o Perivaldo ou o Edvaldo o lateral reserva do Leandro. Em outros tempos esta incerteza poderia carregar o incauto para a forca.
E das meninas, às mulheres. As peripécias para surrupiar a edição de luxo da revista da coelhinha. A sorte de ter a vizinha ingênua que deixava a janela aberta. O vestiário e aquela entrada secreta, que ninguém conhecia de fato, mas todos reconheciam os detalhes. Os mais sórdidos, para aquelas mentes de “prestobarba”. Para as mãos, evidentemente.
No fim, porém, o assunto corriqueiro voltava, triunfante. Eram Artur Nunes, Paulo Roberto, Antônio Oliveira, Roberto, Sérgio Bernardino, José Sérgio Presti, Sócrates Brasileiro. Era Telê. Era o falso ponta. O volante cabeção e o volante bom de jogo. Era a goleada no Morumbi, a sova na Vila, a desfeita no Mário Filho. O Grenal. A seleção da Itália e o esquema tático da Holanda. Era a seleção brasileira de futebol, orgulho, sonho, samba e razão de tudo. Ou quase tudo.
Sem contar um ou outro, que numa pausa ao monotema e às meninas, ainda achava um tempo para falar da Campanha das Diretas, da cor amarela na janela, na moratória da dívida externa pornográfica. Lembro de um defendendo uma tal auditoria nas contas, para ver onde de fato foi parar a dinheirama toda. Outro falava de greves. De votar para presidente. E todos, ao fim, gargalhavam solenemente: “Eu votaria na Xuxa”.
Ta aí. A nossa Deusa virou pó. Esquálida, sem sal, sem traços, sem abundâncias. Uma tez tão límpida quanto intocável. A seleção nacional virou seleção de nada ou de empresa de material esportivo. Já não queremos mais auditorias, moratórias e nem roupas amarelas vestimos mais. Nem vermelhas. Somos todos uns chatos e pragmáticos. Talvez, até, mesquinhos.
Assim, ainda nos restam as meninas. Todas elas. As que ainda queremos enamorar, paquerar, desfrutar, admirar. E todas elas que nossas namoradas, amantes, confidentes, amigas, todas bonitas na essência. As meninas. E este diário se recusa a delas esquecer. Porque é perder mais um pouco da gente, mais um pedaço. Talvez o mais caro, depois, é óbvio, da memória daquele gol do Pita na União Soviética, num amistoso no Morumbi.
Meu caro amigo Pedrão, bolonista de estirpe, Líbio ocasional, piadista irrecuperável, me enviou por email essa pérola futebolistíca: o meliante, após captura por delito desconhecido por nós, mas certamente merecedor da peia, é flagrado pelos oficiais da lei escondendo tatuagem reveladora. Perguntas: era o moço apenas um vira-casaca que, sem dinheiro, teve que manter a antiga marca da paixão em seus braços, ou achou que salvar-se-ia da perseguição policial aparentando ser de um time, digamos, mais abastado, em seu modo de ver, é claro!
O pessoal do site que defende os bronzes que me desculpe, mas vou torcer para perdermos para os belgas e, quem sabe, assim, o Dunga vai embora.
Não assisti a nenhum jogo dessa seleção simplesmente porque a ordem do time é evitar o jogo. Então, se o objetivo é matar o jogo por que devemos assisti-lo? Não acordei às 6h para ver jogo nenhum. E hoje não vi o primeiro tempo. É propaganda enganosa dizer que vai ter jogo do Brasil. Com Dunga, não vai! Vai ter é anti-jogo.
A frase do Maradona é reveladora. Mostra como a seleção jogou de maneira medíocre. Mas ainda pior foi uma frase do Rafinha após o primeiro jogo contra os belgas. Ele falou que foi difícil jogar porque não podia passar do meio-campo. Isso mesmo: o próprio jogador do Brasil falou que estava proibido de passar do meio-campo. Daí, a dificuldade de chegar ao gol adversário. Faz toda a lógica: se não podemos passar para o campo adversário, imagine a área, o gol.
O gol virou um acidente com esse time do Brasil. Só acontece por acaso. O gol não é desejado, nem planejado. É um quem sabe, um talvez. Um lançamento de um volante, de seu campo, para a corrida de um eventual atacante.
O Dunga elegeu a Copa de 1994 como o seu modelo, o seu lema, o seu destino. Acontece que em 94 jogamos mal. Jogamos de lado e para trás. Na estréia, batemos uma combalida Rússia. Eles ainda se ressentiam de não ser União Soviética e vieram com um time pobrinho. Perderam da Suécia. Não tinham nenhum jogador brilhante. Depois, batemos Camarões, o time mais envelhecido daquela Copa. O centroavante tinha 42 anos. Suamos para empatar com a Suécia e para ganhar de 1x0 dos EUA. Se não fosse o Romário pegar a bola e resolver sozinho, não teríamos passado nesses jogos. Contra a Holanda ganhamos graças ao baixinho (com aquele gol espetacular) e ao sobrenatural de Almeida (naquele gol do Branco). Depois, novo suor contra a Suécia. E, na final, sofremos para vencer a Itália com Baggio e Baresi contundidos, aos frangalhos. Aquela Copa foi ridícula. E é o modelo do Dunga.
Hoje, torci para a Argentina fazer uns 5 ou 6 gols. Achei que, assim, quem sabe, o Dunga cairia. Não caiu.
O Dunga está me atrapalhando muito. Na Copa de Botão, o seu esquema tem se mostrado totalmente incapaz e há o risco claro de o Brasil perder para a Tunísia.
Agora, vamos de Bélgica para ver se nos livramos do sujeito ao menos nas Eliminatórias. Como diria Sílvio Luiz, que venham os belgicanos!!