Os Bolonistas


 
 

Comentários Imparciais de Uma Final de Mundial

 

 

O bom de ser um cronista que todos saibam imparcial é que qualquer abobrinha que escrevamos não vem com a nódoa da paixão clubística. Assim, posso dizer, sem medo que me crucifiquem num altar de oferendas, que o que faltou ao Santos no jogo contra o Barcelona foi a presença, ao menos no banco de suplentes, de um jogador como Marlos: objetivo, retilíneo, com faro de gol. Ou alguém com a raça e a entrega de um Juan, ou, quem sabe, de um Dagoberto.


Pataquadas a parte, o que mais assusta num jogo como esses, não é o resultado ou a forma como o Barcelona jogou. É como a grande parte da crônica esportiva "especializada" reage ao óbvio... De uma hora para outra o Santos de Neimar passou a ser um timeco de quinta série e o Barcelona uma espécime de glorificado seja o vosso nome. Nem tanto ao chão nem tanto ao nariz no chão.


O Barcelona é o que é. Todo final de semana tem jogo dos caras na televisão. Incluindo na TV aberta. Até a areia do José Menino reconhece que a posse de bola é para o Barcelona como os dinheiros extras são para as privatizações. Messi é um demônio e todos, exceto os argentinos que, pasmem, ainda creem que Carlos Gardel não era uruguaio, sabem que parar o cara é tarefa para um ordem inteira de cavaleiros do Graal. Não se trata Messi como mortal quando este está acompanhado pelos arcanjos Iniesta e Xavi. Portanto, a luz solar embasaria o definitivo prognóstico da peleja do último domingo: O Barça ganha, e fácil.


Além do trio do capeta, o time catalão ainda tem o Daniel Alves jogando na posição certa (cousa que somente o Dunga ousou escalar na seleça nacional) e o tal Fábregas, que dizem errou o último passe numa partida da sétima série C. Enfim, na lógica, era caixa, caixíssima, batata, batatíssima.


Mas o esporte em questão não é, ou não deveria ser, somente um jogo de onze contra onze. O futebol é outra coisa. Somente no futebol, e só no futebol, o Olaria da Bariri e o temível Juventus da Moóca podem sonhar, num único jogo, aprontar para cima de qualquer time: Do Santos de Pelé, do Flamengo de Zico, do Brasil de 58 ou do Barcelona, desde Evaristo até o time treinado por Guardiola. É exatamente esta possibilidade - remota, ínfima, patética, sobrenatural, sacrilégio, pecado, feitiço, macumba das boas - que embalou os sonhos dos santistas no embate do mundial. Mas só os santistas, repito para frisar e ser chato, só os santistas, tinham este direito. Os demais, façam-me o favor, que se “surpreenderam” com o resultado, só podem estar motivados por má-fé ou desabrigada ignorância de conveniência, aqueles que fingem não saber para tentar seduzir a patuléia a comprar mais um engradado ou um tênis de marca.


E mais, o Santos que “encantou” a nação nunca foi o Santos de Muricy. O Santos de Dorival Junior que tinha Robinho, André e Marquinhos como volante (!!!) era o Santástico. Muricy chegou exatamente para freiar aquela maravilha cósmica, para dar aquele time um pouco de pragmatismo, de razão prática, por saber que a torcida gosta do jogo bem jogado, mas aprecia mesmo um bom caneco. O time de Muricy era o do jogo com o Cerro, no Paraguai, ou o da final com o Peñarol. Aquele que encantou, e perdeu, no jogo contra o Flamengo foi a exceção. Portanto, nem o bom Muriça foi “surpreendido” com o Barcelona. Muricy apostou na jogada única de Neimar – ou até do Ganso – e que não veio. E errou ao mentir quando disse que o Santos ia ao Japão para se “divertir”. O semblante de desespero do time, e do treinador, passados os primeiros quinze minutos de jogo, diziam que o Santos não queria era fazer feio. Dançou.


A pergunta dos plantonistas das obviedades solares é: como vencer este time mágico do Barcelona? Ora, ninguém tem a receita pronta para todos os jogos e é por isso que o time catalão é o melhor. Mas outro dia mesmo o bravo Levante* deu uma de Paulista de Jundiaí e sapecou um a zero nos rapazes. E noutro dia ainda, o tão apupado – e charlatão, imodesto e chato como unha encravada – José Mourinho ganhou de 3x1 com uma Internazionale jogando numa retranca mágica, de dar gosto. E posso dizer mais uns outros jogos onde o time adversário tomou uma sonora goleada mas não se portou sem fidalguia.


Em resumo, o Barcelona de Guardiola é um timaço. E se o Rogério Ceni fosse o goleiro adversário e jogasse o que jogou naquela partida contra o Liverpool, o caneco poderia até ficar com outro dono. O resto é chuva.

 

19.12.2011

 * Como bem lembrado pelo incansável Chico Bicudo, santista, o Barça perdeu foi do Getafe.... Getafe, meus caros. Em dia de Norusca!



Categoria: Coluna do Amaral
Escrito por Amaral às 23h30
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Faço uma promessa: Se a emenda das Diretas passar eu não vou jogar na Itália e fico no Brasil

 

 

 

Puta dia triste. No meu Estrelão, sempre um espaço para gastar nostalgias, saudades, tristezas, alegrias, memórias, criancices, narrar jogos sozinho, gritar euforias de time, ser torcida e arquibancada, um refletor desligou. E um baita refletor. Daqueles que só de lembrar, da luz, da cor, da felicidade, dói tudo nas entranhas. O melhor do futebol é aquilo que guardamos de criança. E é sempre ruim, muito ruim, quando um pedaço deste infante se vai. Já não existe Papai Noel, já não existe mundo colorido, já não há andar descalço... e agora acabou-se 1982, acabou a única copa do mundo de futebol que, de fato, existiu.


Sócrates era corintiano. Era brasileiro. Era uma sumidade. Mas era palpável, próximo, do caderno de anotações. Era incongruente como nós, falava de política com os mesmos desatinos, acertos, erros miseráveis, sonhos e a doce utopia, a única que nos faz realmente gente, de querer um mundo diferente, menos macambúzio, menos marquetinque, menos comércio, mais papo de bar, mesa de ferro, futebol de botão. Sócrates não se acomodava na política do possível e por isso Sócrates nunca engoliu 94. Porque 94 é vitória, conquista, maravilha. Mas é a política do possível, é o governo sem reforma agrária, a inexpugnável vitória da real politik, da arena multiuso, da arquibancada com cadeirinha de espuma para a bunda.


1982 acabou. Zoff não vai mais me acordar durante o pesadelo. A cabeçada de Oscar no final do jogo nunca mais vai passar a linha. José Silvério nunca mais gritará “é campeão”. Zico nunca mais terá a chance de cobrar a penalidade que Gentile fez, a camisa do galinho nunca mais será remendada. Serginho não dará uns safanões naqueles italianos de ternos armani. Paolo Rossi não será alvejado por uma bazuca quântica de oito mil polegadas. Mestre Telê nunca mais fará a coletiva ao lado da taça FIFA, talvez a taça que mais bonita ficasse na sua coleção. 1982 ficará naquele gol espetacular, mágico, inenarrável, estupidamente soberbo do Doutor contra o maldito Dino Zoff, onde a pelota foi entrar cantinho da meta, no único lugar do mundo que deus pode ajudar.


Que os Deuses, na peleja de hoje a tarde, coloquem o Sócrates no time dos sonhos. É dele a braçadeira. É nossa a saudade. Que o Corínthians de hoje jogue por ele, menos pelo título, menos pelo campeonato, que o time do povo, sem demagogia alguma, possa, ao menos hoje, ser o time do povo. Sem o possível. De coisas possíveis estamos todos com o saco repleto, absolutamente farto.


Sócrates, peço benção Doutor. Te cuida.

 

04.12.2011

 



Categoria: Coluna do Amaral
Escrito por Amaral às 13h18
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Chuchu Beleza

 

"Pai, que ano... um time que a gente não gosta vai ser campeão e o time que a gente menos gosta ainda ganha da gente..." 

 

Cena do fim de domingo, depois que eu destilei o veneno habitual das derrotas e pequenos impropérios de bolso, Marco Antônio solta estas, um tanto desolado: "Pai, se o campeonato fosse por merecimento o São Paulo merecia ficar em décimo sexto lugar." É filho... tens muita razão...

 

Escrevi esta coluna pensando neste colóquio de final de domingo - plena véspera de segundite...

 

_____________________

 

 

 

Dito que o campeonato brasileiro de futebol se tornou uma torturante aventura ao fígado, de azia imensa perfurante no estômago, laringe e esôfago, dessas dores de goteira que a gente não encontra durante a madrugada, começo pelo óbvio: O São Paulo Futebol Clube fez uma campanha ridícula, patética, grosseira, nojenta, asquerosa, pusilânime, sem brios, nefasta, incondizente com a história do clube e, pior, contrariou a lógica infante de que todo campeonato é feito para o nosso time ganhar.

 

É inacreditável o que fizemos com nosso time. Digo fizemos porque os maiores responsáveis somos nós, os torcedores. Deixamos alguém se achar maior e mais importante que o próprio time e ainda incentivamos um tipo de comportamento que confundiu nossa tradicional e sublime arrogância, em razão do destino que nos foi traçado desde os tempos imemoriais de Fried e da Floresta, com uma soberba estúpida de menino tonto que tem tênis importado de marca. Eis Juvenal Juvêncio: um torcedor como todos nós, mas acometido pela síndrome da última bolacha do pacote.

 

Juvenal é parte importante de nossa história. Sim, foi um dos responsáveis pelo time de 2005 que trouxe o Mundial e que conquistou os três títulos consecutivos do campeonato nacional, uma façanha épica, indizível para os mortais. Mas, inebriado, se perdeu em bobagens, em picuinhas ridículas e esqueceu o arroz feijão para priorizar a bala de goma. Dois episódios recentes na história do Tricolor retratam os equívocos: a briga pela “taça das bolinhas” – um objeto de desejo inexplicável e absolutamente dispensável para um time que é campeão planetário por três vezes – e a alteração estatutária para mais uma reeleição. Enfim, equívocos que acabam por marcar a alma e, todos sabemos, a alma é nosso maior patrimônio.

 

Futebol pode não ser ciência exata. Nem sempre a técnica prevalece. Nem sempre a raça é suficiente. Mas é, sobretudo, o jogo onde o “merecimento”, que se traduz como a arte da dedicação, do apego, da técnica, da raça e do desejo, tem força motriz e decisiva para se portar como digno de um caneco. O São Paulo de 2011 não tem merecimento para nada além do oitavo lugar no campeonato. E este é o fato inexorável, para além da minha paixão e da minha parca razão.

 

Nunca fui, e talvez nunca serei, razoável ao tratar do meu time de coração: meus níveis de colesterol e triglicérides têm três cores em exagero. Este time de 2011 só proporcionou duas efêmeras - mas históricas, homéricas, memoráveis, dionisíacas - linhas: o centésimo gol e o milésimo jogo do nosso arqueiro e capitão. Mas Rogério também sabe que estas linhas só podem existir, e ter a importância devida, em razão do nosso livro vasto e repleto de memórias. Para tanto é preciso recuperar nossa biografia e é por isso que peço, com todo respeito e réstia de admiração, ao nosso presidente para deixar o cargo, antes que os fatos e a bola nos punam ainda com mais severidade.

 

E se chegarmos a Libertadores – o que somente um time com a alma da moeda em pé, de Rui, Bauer, Noronha, Roberto Dias, Renganeshi, King, Poy, Sastre e tantos outros pode explicar e sonhar- que não nos esqueçamos do pífio, do desamor, do desapego, da anemia, da inapetência que nos consumiram neste ano. Não se pode, evidentemente, ganhar sempre. Mas é inadmissível não querer, não cobiçar, não sofrer, não desejar. Sem desejos somos purê de batata, e só. E sem sal.

 

29.11.2011 



Categoria: Coluna do Amaral
Escrito por Amaral às 13h31
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Dois Mil e Doze: O ano do Octa!!!

 

 

 


Que pesadelo! Sonhei que o time não ganhava o caneco deste ano. Foi das experiências mais terríveis que já vivi. Só comparável, talvez, àquela primeira vez que tomei cerveja absolutamente quente, in natura. Nas piores visões do sonho ruim, o time não engrenava. O périplo do nauseabundo continuava, rodada a rodada, e ao término do campeonato figuraríamos lá pelo oitavo, nono, décimo lugares. Algo assombroso, senhoures e estimadas senhouras. Tive engulhos.


Mas foi só um momento triste. Logo depois, veio a bomba: Émerson Leão, o Judas que nos traiu em 2005, e quebrou a cara bem bonito ao final daquele ano, voltou ao time. Sim, Leão, o autoritário, o fraseador polêmico, o machão, o sargentão, o village people está de volta ao Cícero Pompeu. Taí uma cousa que não entendo no Juvenal Juvêncio: esta sina em querer ser um Vicente Matheus do B que resultou num VM daqueles de garrafas vendidas em fronteiras, para driblar alfândegas em manobras de ortodoxia e gostos duvidáveis.


Leão teve méritos em 2004 e 2005, inegável. Num time que se notabilizara por papelões em retas finais - do popular, pipocadas - Leão conseguiu arrancar ânimo, apetite, garra e vontades. O time passeou no Piratininga de 2005 e a base da Libertadores estava lá, montada e com muita força e conjunto. E foi no tricolor que o treinador deixou de pintar o cabelo de acaju! Este sinal de sabedoria, o de assumir os grisalhos fios e dar uma temperada na vaidade, é sinal de que nem tudo está definitivamente perdido no ser humano. O acaju, este sim, é o sinal mais eloquente do declínio da civilização ocidental.


Mas o técnico foi embora, nos traiu. Ok, não foi uma traição de novela, não foi nem sequer uma traição de folhetim de banca de jornal. Foi um “nem te ligo”, desses das adolescentes em portão de escola, que nos deixam para passear com o guri que tem motoca. E não deixou saudade! O time não suportava mais o “Zé Bronquinha”: Luisão foi decisivo na Libertas só depois dos rugidos terem cessado. Falcão, o futebolês de salão, teve ceifadas todas as oportunidades no time. O time parecia sinceramente aliviado quando da partida do treinador e Autuori, convenhamos, ganhou aquele caneco mágico de pura epifania contra o Liverpool mais na conversinha de boteco, no papo de bilhar e na lousa do que nos 4-4-2, 3-4-3, 3-2-3-1-1, esses esquemas que deixam qualquer PVC louquinho da silva. Autuori é um Joel de grife, sem prancheta e menos chegado num ferrolho – se bem que, contra os ingleses, o SPFC fez das maiores exibições de gala que uma retranca na história da galáxia jamais imaginara.


O fato concreto é que acordei do pesadelo, renovado. Sim, os excessos de leite com pêra estão com seus dias definitivamente contados. Os mimos, a inapetecência crônica, a anemia e a total indiferença à derrota, pelo jeito, vão ter seus dias de ruína solapante. Tudo o que a diretoria se “esforçou” nestes últimos anos de Juvenal vai ser triturado com os berros do nosso treinador boleiro: Saravá, amém, Oxalá. Agora, vai! E do contrário: Os fatos que vão para bem longe. Que eu preciso é dormir.


25.10.2011

 

 



Categoria: Coluna do Amaral
Escrito por Amaral às 01h53
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Papai Noel em novo manto

 

 


Alguns irão perguntar do Amaral. Os chatos, com toda razão do mundo, vão dizer que sou arrogante e que é bem feito que meu time patina feito troncho e vaga mouco pela estação de trem em plena reta final do campeonato. Mas os chatos, esses confusos, esquecem que nem sempre o óbvio caminha por linhas retas. É evidente que estamos prestes a observar a maior série de vitórias seguidas dum time de futebol em terras brasileiras. É de uma clareza solar que serão oito vitórias que nos trarão o caneco, o sétimo na nossa coleção sem asteriscos.


Alguns vão dizer que sou obtuso, que não entendo nada do esporte bretão e, pior, com base no meu desempenho medíocre em um bolão, dirão que sou um palerma. Sou, confesso. Mas tenho a clarividência, o que não é pouco. Anotem, senhoures e senhouras, e depois me cobrem: Dagoberto será eleito o melhor jogador do campeonato. Casemiro tirará a máscara para se tornar enfim um volante digno de nota. Bom, pode ser que vire um armador digno de nota também, quem sabe?


Outros vão clamar: Amaral está louco de grades. Ensandeceu. Pode ser. Mas os loucos são imprescindíveis. E isso me basta. Juan será imortalizado nesta reta final de campeonato, se transformando num lateral moderno, combativo, de raça, capaz de antecipar jogadas e nunca mais ficará sentado depois de um drible. Até Marlos, esse Messi injustiçado, esta alma vagante, irá encontrar os mistérios da objetividade. Fabuloso? Nem conto, mas tivéssemos mais cinco míseros jogos além dos oito que nos faltam ultrapassaria Borges, num átimo. Denílson? Nunca mais será expulso, nunca mais. Nem amarelo. São os fatos, esses inexoráveis.


Os amigos, estes sim, irão compreender a euforia desmesurada. Um campeonato ganho desta forma exige comportamentos extremos. Depois da modorra, da tempestade, da anemia endêmica, o sol. Tricolores deste Universo, que é nosso por vocação, não deixem a peteca cair: Oito jogos. E serão absurdamente suficientes. Milton Cruz será o Rinnus Mitchel renascido, ungido e benzido. E Rivaldo fará o gol do título. E Juvenal Juvêncio terá um retumbante treco, merecido.


Enfim, se nada disso acontecer, se nada, nadinha de nada, se tudo for mera ilusão, um devaneio noturno de uma alma insone, que se lasquem tudo e todos. Tenho o meu Estrelão e minhas memórias: e o conjunto tricolor, aqui, é imbatível. Tenho dito, escrito e blogado.

 

18.10.2011

 

 

 



Categoria: Coluna do Amaral
Escrito por Amaral às 01h51
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Há um sétimo a caminho

 

 

 

 


Todos sabemos o óbvio: O São Paulo Futebol Clube ganhará o sétimo caneco do Brasucão. E será neste ano, antes do fim do mundo. Existiam, pairavam, nublavam dúvidas, é verdade. O time tem jogado um futebol muxoxo, digno de esquecimento. Nenhuma vitória convence por completo. Mas, e é nas exceções que vislumbramos as regras, nenhuma derrota, nem a acachapante vexaminosa contra o Sport Club no primeiro turno, teve aquele sabor de inexorabilidade. Em todas as derrotas o time se comportou com a fome de quem saciado por feijoada, com o ânimo de uma segunda feira de inverno, com a fé de monge hibernado. Esta é a questão: Se o time não convence, também não vitima.

 

E o campeonato vem vindo numa toada de dó e piedade. Sempre ali na ponta, me recordo que a pior colocação do tricolor foi um quinto ou um sexto lugar. Mesmo com o time jogando patavinas, sempre ali. Aquele cavalo na espreita, aquele trem que não chega, mas que todos na estação são capazes de ver. Com Carpegiani vivemos o ciclo do oito ou oitenta e com Adílson consagramos o empate como meio de vida. Mas nesses empates mantivemos a espinha ereta, atados ao topo da tabela. Ninguém desgarrou.

 

O São Paulo, senhoures e senhouras, é o prêmio Nobel do cisca cisca. É capaz de passar oitenta e três minutos ciscando próximo da área adversária com a objetividade de um poeta e tomar um gol no contra ataque. Mas, e é nas entrelinhas que desenhamos o mundo, está chegando a hora do porvir: Luís Fabiano chegou.

 

Não é todo dia que a história se apresenta assim, de hora marcada, de banho tomado e barba feita. O camisa nove pode não ser um santo, ainda não é um Chulapa e mui distante de Antônio Oliveira, mas é o Sundance Kid que faltava ao time. Com ele no time, Rogério pode deixar a chatice de lado e ser só o nosso capitão, deixando a ranhetice e a gana da vitória para o comparsa de ataque. Com ele no time Dagoberto não poderá mais ser a última bala do revólver, o que convenhamos é uma desagonia e tanto para os corações colesterólicos que todo torcedor.

 

Pode acontecer o contrário, o fiasco, a decepção solapante, o golpe de misericórdia na estima, a dor, a sanha do nada. Mas nesta hipótese remota a única vítima será o óbvio. É de clareza solar que se isto acontecer o mundo não servirá para nada, nadica de nada. Bem vindo, Fabuloso. Bem vindo, caneco.


01.10.2011

 

 

 



Categoria: Coluna do Amaral
Escrito por Amaral às 11h46
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Algumas vezes, você. Noutras... és tu.

 

 

 


Neymar, meu caro... é a octagésima vez que leio que você tem outro destino. Deve encher o saco, né? Se for verdade, torra a paciência porque ficam falando de valores absurdos para qualquer ser humano normal, o que deve acarretar numa malta de corriolas, chupins, sabujos de todas as espécimes e sexos dando o ar da “amizade”. E se for mentira, carambola, deve causar engulhos. Enfim, imagino que tua paciência deve ser de ouro, de um palestino.


Não te conheço e dificilmente irei te encontrar, exceto quando aposentares, daqui há uns trinta anos com todos os meus saravás torcendo por plena saúde e gana, vontade, tesão por jogar futebol, e nos encontrarmos no Heinz para um chope e uns canapés de alicce. Neste dia, eu pagarei a conta, confie. Mas queria bater um papo de confrade com você, no meio desta barafunda que deve estar tua vida e esse monte de gente chata querendo definir o teu futuro.


Neymar, está descrito na sua face que torces para o Santos. O Santástico, o Peixe, a Baleia ou sei lá mais qual apelido tem este grande rival do time mais simpático da cidade litorânea em que vives, a briosa Portuguesa. A camisa lhe cai bem, guri. Vestido com a camisa do Santos, principalmente aquela toda alva, tu tens porte. Parece um Rei, um Deus e, ouso até, um Raí. Quase um Zé Sérgio. Menino, você gosta do Santos. Gosta? Errado, você torce pelo Santos. E é este o grande barato dos teus sorrisos marotos quando joga bola pelo time praiano, para nosso azar. Sim, tu és alvinegro da Vila Belmiro. Tua cidade é esta, teus amigos aí estão. Teu guri, e acho que teu maior sonho hoje é bater uma bola com o moleque nas areias de Zé Menino, está sendo criado nesta bela cidadela praiana. Rapaz, segue este coração: Fica no Santos.


Vão te dizer das belezas de Madri e de Barcelona. Acredite, são estupendas, maravilhosas, inenarráveis. Gaudi é um sonho. O Museu do Prado, outro. Mas o campeonato espanhol é uma baba … Imagine, aqui na terrinha, no Paulista, já temos pelo menos quatro times com boas chances de ganhar o torneio. No Brasuca, uns dez, sem exageros. Já na Espanha é aquela chatice: Ou é Real. Ou é Barça. Chato pra dedéu. E quem foi criado num local onde o Jabaquara é majestade não vai se acostumar com Español, Albacete, Valencia. Com todo o perdão a quem acha o contrário. Até os óbvios lunares tem seus opositores.


Vão te falar das maravilhas do campeonato inglês... Esquece isso. É tudo cousa para inglês ver, põe fé. Vá como turista. Leve teu pai, tua mãe, teus irmãos e irmãs, se tiveres. Leve teu guri, teus amigos, amigas, namorada, namoradas, amantes e vá passear por lá. É espetacular, te garanto. Soberbo, divinal, sobrenatural. E você tem a chance rara de conhecer o mundo, aproveite.


Vão apelar e te enamorar tecendo loas para uma tal “Champions”. Você acredita em carochinha? Para estes dementes, não perdoe e bata no peito: “Joy tengo la Libertadores!”.


Sim, teu empresário, ao ler estas linhas, vai me chamar de imbecil. Que se dane. Escrevo isso porque estou gostando de te ver jogar. E nem sempre foi assim. No começo te achava um bocó, um cai cai, um fantasista. De uns tempos pra cá você tem calado minha boca, me chamado de parvo, me deixando irritado com tuas peripécias, porque não ocorrem com a camisa do meu time. Mas a tua grande diferença está nesta baita alegria que teu futebol nos demonstra. Esta alegria, meu chapa, vai sumir um cadinho por dia em terras distantes. Lá o frio não está só nos termômetros.


Dinheiro, bem sabes, turva a vista. Te pergunto: É por dinheiro que tu jogas? Será que mais dinheiro e mais dinheiro e mais dinheiro valem toda esta aporrinhação? Carro do ano, tens. Boates legais, vais. Roupas, nem conto. Cabelo, do jeito que quiser. Velho, a casa da gente é a casa da gente. E ponto final.


Um último conselho, porém. E conselho, você sabe, não se vende. Mas antes, um pouco de história, que gosto de contar e prosear. Os maiores jogadores do país, da história deste Brasilsão, são, pela ordem, Leônidas da Silva, Friendreich, Zizinho e Didi. O melhor ponta esquerda do universo, José Sérgio Presti, melhor até que o genial Canhoteiro. Na Copa de 70, pegue o videoteipe da final e me desminta, se puder: Gérson ganhou aquele jogo, sozinho. Estes sinais da história não podem ser ignorados. São vaticínios, desígnios, definições. Há um time que pode te levar ao panteão dos melhores, dos deuses sagrados, das coisas infindas. Um time de três cores, atemporal. Uma camisa que nasceu para ser universal. Pense nisso, com carinho.


Sim, sim.... perdoe o Rogério, o Mito, o Imortal. Ao contrário deste escriba de parca importância, mas isento e impavidamente imparcial, nosso goleiro é passional. Assim como você, ele torce pelo time em que joga. Neymar, meu caro, grande abraço. E cuidado para não cair.

 

21.09.2011

 

 

 



Categoria: Coluna do Amaral
Escrito por Amaral às 01h06
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Nunca morre, nunca da silva!

 
 

 

Era Neco. Não era diminutivo, apelido, nome de guerra. Era assim, de batismo. Nascera Neco. Nenhum outro nome seria possível, descobriram depois. Da vida, levara tudo muito a sério. Tanto é que o coração parou de funcionar duas vezes, em 77 e em 90, e ainda assim, sobreviveu. “São prolapsos”, dizia para horror dos amigos, esposas e filhos, “mas eu sou forte, sou protegido por santo”. E ria, fazendo uma imitação tosca de alguém cravando uma lança num animal feroz, estilo dragão ou cousa que o valha.

 

Neco acordava cedo, quase todos os dias. Só aos sábados se permitia algum luxo. Algo como nove da manhã, no máximo. E todos os dias mantinha rotinas: escova, mão esquerda, e o dentifrício, mão direita. Quando o esculhambavam dizendo que era um “homem de manias” reagia com calma, mas com a firmeza dos convictos: “são fidelidades, meu caro, fidelidades.”

 

Trabalhava feito cão. E mesmo depois da aposentadoria, e dos ataques cardíacos, manteve-se laborando e laborando. Depois que se aposentou das máquinas, foi dar aulas num curso técnico. E depois, ainda, foi do sindicato, militou clandestinamente contra o governo militar, participou de movimento contra o preço dos alimentos, contra a tarifa de ônibus e era sempre o primeiro a votar. O Neco levava a colinha e quase sempre contagiava alguém a votar nos candidatos dele, até quando se desencantou da política.

 

E tinha uma conta no bar, que nunca deixou de pagar. Mesmo quando desempregado por causa daquela greve. Jogava dominó nas manhãs de domingo e quase sempre jogava conversa fora com qualquer um. Só não gostava de gente que não olhava nos olhos dele enquanto conversavam. E sempre, todas às vezes, dizia bom dia ao chegar e boa tarde, ao ir embora.

 

E foi lá no boteco de sempre, num domingo que o Neco não apareceu, que soube que ele tinha morrido. Quem contou foi o neto, o Basílio. E todo mundo concordou que o Neco nunca ia de morrer, ia ficar com a gente, sempre. Erguemos nossos americanos e o brinde foi daqueles, com lágrimas e limão no dedos: “O Neco foi sempre fiel. Por quais diabos vai deixar a gente agora?”. E na televisão ligada, com bombril na antena, ia começar o jogo...

 

01.09.2011

 

 

 



Categoria: Coluna do Amaral
Escrito por Amaral às 17h02
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A casa na vila já tem 97 anos...

 

 

 

 

Noutro dia passei pela vila. E é engraçado, os barulhos são quase sempre os mesmos, uma nostalgia daquelas. Ouvia-se, evidentemente, o jogo de domingo, radião colocado no muro, num baita volume...

 

 

Naquela casa era assim: gente falando alto, gente gesticulando para falar, gente falando pelos cotovelos, gente, gentes. Aquele cheiro de alho refogado, que perfumava a casa toda, a vila toda, a vida toda. Era de lá que vinham os melhores cheiros de comida e a molecada da rua saía no tapa, aos domingos, para poder receber um convite do Ademir para almoçar na casa dele. A razão? Domingo tinha o macarrão, molho bolonhesa e salve se quem puder.

 

 

Era uma casa grande. Todo mundo católico, todo mundo rezava. Mas ninguém negava por lá que todo mundo pecava, um dia. E era lá na casa da mãe da Chinesinha, que apesar de italiana até a medula tinha este apelido, que as pessoas iam procuram conforto: e contavam as pequenas traições, os pequenos delitos, os pequenos deslizes. E sabe a razão? Por que lá tinha sempre um vermute para depois do choro e até das broncas. A mãe do Dudu e do Ademar era gente bona, boníssima. E tinha lindos cabelos negros e uma cara de Sophia Loren que fazia a molecada morrer, em pecado muitas vezes.

 

 

E tudo lá parecia ser mais apaixonado. A mãe amava o pai, apesar de gritar com ele algumas vezes e todo mundo gargalhar escondido. Amava os meninos e a menina, abraçava de deixar a gurizada toda envergonhada. Fofocavam, sim. Mas depois riam e esqueciam de tudo. Normalmente por causa de um molho vermelho, que deixava a rua da vila daqueles jeitos que eu já contei.

 

 

Noutro dia passei pela vila e aquela Sophia Loren já é vó. E continua alegrona, sabe? Feliz da vida que os meninos dela, e a menina, viraram tudo uns moços. E ri feliz da vida. E me chamou num canto outro dia, me convidando para almoçar no domingo: “Ragatzo, vem almoçar aqui no domingo. Mas antes do jogo, né? Não quero saber de confusão! Já te contei que vou ter um neto? Um bambino!!! O nome dele vai ser Marcos.” E me deu uma piscadela, que quase soou uma bela duma tarantela.

26.08.2011 



Categoria: Coluna do Amaral
Escrito por Amaral às 17h22
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Carta ao Dez

 

 

Raí,

 

 

Você bem sabe que nas horas mais difíceis dos jogos do nosso Tricolor, nós destinamos nossas preces, nossos mantras, nossas oferendas para o nosso camisa dez, não sabe?

 

E que nas horas onde tudo parece destinado ao mais retumbante fracasso, nós nos recolhemos aos nossos oratórios e nas nossas rezas lembramos de Leônidas, Fried, Roberto Dias, Poy, Dario Pereira, Oscar, Careca, Gérson, Muller, Valdir Peres, Sérgio, Pedro Rocha, Renganeshi, Gino, Maurinho, Luisinho, Zizinho, Canhoteiro, Zé Sérgio e outras dádivas que vestiram nosso manto e que sempre podem nos ajudar - neste mundo repleto de deuses, santos, mestres, orixás e entidades múltiplas que é o futebol - mas lembramos sempre de você, de teus goles contra o Barcelona, de tua corrida para abraçar Telê Santana, de teus jogos improváveis, de tuas atuações memoráveis no Cícero Pompeu.

 

Raí, há algo nos teus passes, na tua genialidade, no teu porte, na sua frieza disfarçada, na tua timidez e na tua garra que sempre nos oferece esperança, uma centelha de chance, de possibilidades, de viradas. E, mais do que isso, sabemos que até penalidades seguidas podemos perder, mas ao manto tricolor cabe o inalcançável, o limite, o planeta. Obrigado, mesmo, por tudo isso, por esta fé.

 

Raí, bom camarada, mas estas palavras escritas aqui, neste cantinho de um blogue qualquer, são para te dizer que estamos todos preocupados com teu irmão, o nosso Doutor Sócrates. Todos sabemos que o Doutor é inspiração para muitos de teus milagres. Todos nós, que tivemos o prazer de ver o Doutor em ação, sabemos que aqueles calcanhares eram mágicos. O Doutor do Corinthians, o Doutor da Democracia, o Doutor capitão do melhor time do Brasil de todas as eras, o Doutor das Diretas Já, o Doutor da Carta Capital, o Doutor do Cartão Verde. O Doutor, irmão do nosso Raí.

 

Raí, estamos todos aqui em nossos oratórios. No nosso campo de botão, a partida começa com um baita time: Ele é o oito, meu dez.

 

21.08.2011



Categoria: Coluna do Amaral
Escrito por Amaral às 18h19
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Como se bater um penalti



Escrito por Zecão às 19h05
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BOLÃO

FRANCAMENTE, PEDRO!

1Caubas11.204
2Boris11.067
3Pança10.064
4Potença10.250
5Amara10.087
6Josafá9.461
7Deco9.258
8Goutas9.176
9Zecão8.637
10Ju8.514
11Renato8.237
12Ogro7.419
13Pedro7.374

 



Escrito por Zecão às 09h28
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Homenagem:

 

http://www.youtube.com/watch?v=zZxvYy5-ekI

 



Escrito por Fernando às 23h19
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Sabe a Copa América?

 

 

 

Como diria o Ricardo Teixeira - segundo a boa (mas que causa asco) matéria na Revista Piauí - a seleção da CBF joga contra o Paraguai, sábado ou domingo: “Caguei”. Não sei a escalação titular do time da CBF. Desconheço os reservas. Não sei o esquema. Sei que o Neimar e o Ganso jogam de titulares. E que o Lucas é reserva. Sei que o Lucas está fazendo muita falta para o São Paulo. Sonho com o dia em que um jogador diga para o Teixeira, “Caguei”, e desconsidere a convocação para a seleção da empresa de material esportivo para se manter no time em que joga. Queria que o Lucas fosse o primeiro destes. Não será, evidentemente. O que é uma pena.

 

 

Como diria o cartola mandatário da Confederação Nacional de Futebol, genro do outro: “Caguei”. Na verdade, o treinador da seleção nacional veste a indumentária da indiferença, com aquele ar de quem tem nojinho, com aquela polpa, circunstância e o “sociologiquês” das quatro linhas. Mano Menenes era muito mais legal no Corinthians, lá ele tinha sangue nos olhos e o discurso metidinho a louça de porcelana não colava. E lá ele podia manter o Jucilei na reserva, sem que o empresário enchesse muito o saco.  Na seleção da empresa de material esportivo Mano inventou o “manês”.

 

 

Como diria o cartola que governa a CBF com a cumplicidade e a intimidade de Orlandos, Luíses, Fernandos, Josés, Dilmas: “Caguei”. A Copa do Mundo está aí e a seleção da CBF parece que escolheu o Brasil para o evento, o que me parece estranho já que a seleção prefere jogar em Londres do que no Morumbi, no Pacaembu, no Canindé, nos Aflitos, no Estádio do Jacaré, no Couto Pereira, no Urbano Caldeira. No discurso “manês”, o consumidor – perdão, o “torcedor” – não sabe se comportar e não “joga com o time” no Brasil, o consumidor – a torcida, me desculpem, errei de novo – é “impaciente”. Eu apupo minuto de silêncio. Talvez em Londres ou em Dubai a torcida seja mais educada, sem dúvida.

 

 

A copa do mundo de 2014 será a Copa da CBF. Nada mais justo que a seleção da CBF represente a pátria - os interesses comerciais de nossos patrocinadores: tem “tuuuudo a ver”.  Particularmente, acho o uniforme bisonho, com aquela lista verde que mais parece um código de barras anoréxico. Mas cada um tem seu gosto e não cabe a nós palpitar sobre time alheio. Como diria Ricardo Teixeira, “caguei”.

 

08/07/2011 

 

 



Categoria: Coluna do Amaral
Escrito por Amaral às 19h12
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Atropelos...

As derrotas no futebol, meus caros e confrades, são as experiências mais devastadoras que existem. E há derrotas que te sugam duas ou três células, mas há as que consomem dozilhares, zilhões e ducentozilhões de células, nervos, ligações nervosas, fígado e queixo. Um cinco a zero como o de domingo é uma dessas. Estou morto um pouco.

 

O São Paulo Futebol Clube passa por episódios de profunda atribulação. A atual diretoria inebriada por momentos de vitória não soube reconhecer seus erros e extrapolou. A arrogância que todo sãopaulino deve ter não se pode confundir com a soberba: Aquela alimenta; mas esta, entorpece.

 

A responsabilidade pela derrota de ontem não é só dos jogadores e do técnico Carpegiani. É evidente que o treinador não soube o que fazer e é inevitável que por vezes tais fatos tenham conseqüências trágicas: time imaturo, leite ninho nas categorias de base, estádio adverso e atacante que some em jogo renhido. A responsabilidade maior, entretanto, é de quem há alguns anos tem tratado o time do São Paulo como a extensão das coisas e das discussões e brincadeiras da vida privada, que confunde o mérito do passado com um cheque em branco para o futuro.

 

Juvenal Juvêncio é um bom gestor, indubitável. É um dos responsáveis pelo time de 2005 e é bastante responsável pela montagem dos times que nos deram o tricampeonato nacional. E é evidente que a oposição no São Paulo Futebol Clube vale pouco mais que uma anágua. Mas Juvenal errou a mão. Se não errou em demitir Murici - e quem se lembra da forma como o São Paulo foi eliminado pelo Cruzeiro na Libertadores de 2009, sem alma alguma, sabe do que estou falando -, errou soberbamente na forma. Se não errou em demitir Ricardo Gomes, o que tenho dúvidas, errou substancialmente na forma, ao prolongar a fritura do técnico - que foi de uma elegância estóica naqueles dias entre o primeiro e o segundo jogos contra o Internacional na Libertadores de 2010 – e manter o “interino” Baresi por sei lá quantas rodadas. E erra, novamente, com Carpegiani, o mantendo no cargo “porque não há ninguém no mercado”. O erro está aí: Carpegiani ainda é interino, desde o inexplicável tropeço diante do Avaí. Ou bem se assume que é com o Professor Pardal que iremos até o fim, com a diretoria vindo a público explicar, e assumir a responsabilidade, que as coisas serão difíceis porque não temos dinheiro e nem como remontar um time vitorioso em pouco tempo ou partimos para outra, sem a maldita fritura do treinador esperando por outro “melhor”.  Essa fritura só nos enfraquece.

 

O time é líder? É, mas quem viu o jogo de domingo viu que o treinador se perde na hora de decidir e se perde enlouquecidamente ao ponto de manter Fernandinho no time para “ajudar” na marcação, ferindo a lógica e a nossa paciência. Mas o treinador, como é interino, como não tem o respaldo público da diretoria, fica lá no famoso engana que eu gosto: “eu finjo estar prestigiado e tu finges que me prestigias”. Ora, Rivaldo ainda está no time mesmo tendo solapado o treinador publicamente depois do fracasso da Ressacada. A diretoria, de fato, prestigia Carpegiani? Um homem inseguro não faz xixi em pé, trata-se de uma regra comezinha de qualquer manual de psicologia planetário. E vejam, entregam a este homem inseguro a espinhosa missão de montar um time de imberbes acostumados com leite ninho!

 

Há um velho ditado que diz que é nas derrotas que se aprende. O ditado ainda completa a lição dizendo que devemos entender nas derrotas uma possibilidade, de renascimento. Não sei quem criou ou propagou esta “sabedoria” popular, só reconheço que o infeliz não gostava de futebol e, pior, não torcia por um time de futebol...

 

28.06.2011



Categoria: Coluna do Amaral
Escrito por Amaral às 19h57
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