Os Sãopaulinos bateram o tambor e Mineiro vai à Copa. Escrito por Fernando às 12h31
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Vai Passar. Parte 1.
Este é para o Seu Nilton.
Chico Buarque. É isso mesmo. Era ele mesmo que estava tomando uns gorós, na mesa ao lado, bem ao lado mesmo. A cidadela de Bonn valia os poucos euros que ainda tínhamos. Tunísia e Coréia, um dos jogos mais esperados da Copa do Mundo, reuniria a estrela Francileudo, e a busca pelo recorde de goles numa única Copa, e o time sensação do torneio, a laranja asiática. O jogo seria em Colônia, poucos quilômetros distantes da antiga capital federal da Alemanha Ocidental. E para ser sincero, o Deco não precisou de muito esforço para me convencer a dar uma esticada em Bonn antes da peleja. Duas razões, essenciais: Beethoven e o festival de cinema mudo, em plena praça. E a praça, razão mais do que essencial, vital, reunia bares interessantes, interessantíssimos segundo o guia. E, agora, Chico. O Buarque de Holanda, o próprio capitão. Ele e o Raí. Na mesma mesa. Confesso que a cara do Demetrius era de estupor. Absoluto. Temi pela nossa ausência no jogo, que era nossa função. Temi, mas logo percebi a gravidade da situação. Andava muito "cdf". Era o Chico, pensei. Quando teríamos outra chance? Sem contar que o Raí falava pelos cotovelos, ouvíamos.
Estávamos incomumente quietos. Olhávamos de um para o outro, bebericavámos nosso malte e ouvíamos. Chico e Raí tentavam engatilhar um diálogo perene, mas havia um impasse: Chico queria detalhes curiosos sobre jogos, goles e vitórias. O Dez queria detalhes curiosos sobre canções, livros e mulheres. Chico insistia no futebol, Raí buscava a música. E nós lá, concordando com a cabeça, sorvendo nossa indiscrição em silêncio. Ouvimos Raí perguntar: "Chico, como é que é mesmo o verso de 'A Ostra e o Vento', aquele do galeão?". Chico não lembrava a letra, se desculpou e tentou mudar o assunto. O Demetrius mandou: "'Se o mar tem o coral / A estrela, o caramujo / Um galeão no lodo / Jogada num quintal / Enxuta, a concha guarda o mar / No seu estojo'. É a mais bonita do Chico".
Não acreditei: o Deco interrompeu o papo para, sem ser convidado, responder a uma pergunta do Raí e recordar ao Chico uma composição dele. Quase morri de vergonha. Ambos se viraram para o bolonista, surpresos, e agradeceram um pouco incomodados, sabedores agora de que sua conversa estava sendo vigiada. Temi que o Demetrius pedisse para se sentar à mesa, mas ele se controlou. O papo dos dois demorou a engrenar, o que me irritou, e o Demetrius agora exibia um olhar arrogante, vitorioso, ridículo. Isso me irritou mais um tanto: ele jamais me deixaria esquecer aquele momento.
Quando a assunto na mesa ao lado recuperou o fôlego, pudemos ouvir Buarque perguntar: "Raí, cê se lembra do primeiro gol pelo São Paulo?". O Dez respondeu de pronto: "Claro, foi contra o São José, pelo Paulistão de 90". "Não foi não", alguém rebateu, e não foi o Deco. "Foi contra a Catanduvense, fevereiro de 90". Quem corrigiu o capitão tricolor fui eu. E assim que os dois se viraram para procurar o impertinente, pedi para me sentar à mesa.
Tinha certeza de que o Raí tinha feito estréia em 87, muito antes daquele gol contra a Catanduvense. Mas confesso, achei demais, demais mesmo, corrigir o capitão e ainda por cima desmentir o ano. Ridículo? Eu acho que as cenas ridículas podem se transformar em poema puro, em estado puro. E, tem mais, pode ser ridículo ser fã, idolatrar, venerar, babar. Mas, entendam todos, era o Raí. E era o Chico. E era o Deco. Na mesma mesa de um simpático bar em Bonn, na cidade do Beethoven. Era tudo em demasia.
Em demasia era o álcool também. Não vou ousar. Mas desconfio que o Chico e o Deco estavam de pileque. O Raí estava falando pelos cotovelos. Eu sempre achei que o Raí fosse tímido!!!!E o papo foi indo, assim ébrio. Descambou. Futebol, mulheril, a garçonete, música e Budapeste. Mas a maior barbaridade da mesa, juro, foi o Deco. Lá pelas tantas o assunto era a Paula Toller, todos tinham uma quedinha pela abelha. O Deco, daquele jeito dele, se levanta e começa a imitar o Raí naquele clipe do Kid Abelha, a Paula Toller com a camisa do Tricolor: “Vou te contar... Eu tive um sonho”!!!!!!!!!!!!! E pasmem, o Chico, ele mesmo, empurrou uma das cadeiras, se levantou e começou a fazer um ula-ula tipo chacrete. No fim, quando dançávamos um can-can, fomos duramente repreendidos pelo dono do Bar. Era tarde. Em minutos outras mesas também faziam o can-can e o forrobodó foi intenso. Só de lembrar... que mico! E, para completar, numa das mesas, um senhor tuaregue com a camisa do Francileudo gritou, em alemão: “Schweigen!!! Schweigen!!!”.
Foi o Chico que emendou: “Isto é silêncio, silêncio – ele está pedindo silêncio”. O africano estava furioso, e continuou a bronca: “Nada de bagunça na hora do hino”.
Hino? Hino? Olhávamo-nos, aparvalhados. “Que hino, caceta?”, soprou o Deco. Foi quando notamos a pequena TV atrás do balcão: lá estavam asiáticos e africanos ombro a ombro: o jogo estava para começar.
O desespero nos afogou: se corrêssemos, perderíamos o primeiro tempo dirigindo até Colônia, mas chegaríamos aos WV-Stadion em tempo de acompanhar a decisão. Se ficássemos, a única chance de assistir com dignidade seria subir à mesa e pescoçar o pequeno televisor do barman. Foi quando Raí asseverou, vestindo a braçadeira: “Fodeu!”. Caímos na risada, pedimos outras cervejas. Sei lá, tenho cá comigo que os dois estavam achando engraçado aqueles dois renomados cronistas esportivos perderem o jogo, e o trabalho, para ficar jogando conversa fora com eles...
Ficamos ali, ora um e ora outro de olho na TV. O bar estava uma zona, depois do can-can. O tuaregue, fulo de início, caiu na farra, quando ele, Francileudo, abriu o placar. Não havia coreanos no bar. Muitos africanos tinham escolhido a Tunísia. Os árabes também. Os intelectuais, idem. Os brasileiros, Francileudo. Pelo teipe vi que a bola sobrou para o artilheiro. Era o décimo gol do cara na Copa. Raí mandou um: “Poxa, ele bem que podia alcançar o Fontaine...” E vi uma lágrima nos olhos do Dez. E depois dizem que futebol é só um jogo, esses ingênuos. O Chico ficava cutucando o Demetrius: “Vocês vão escrever o que do jogo?”
No intervalo, todos estavam embasbacados. Francileudo chegara ao tento de número dez. Só se falava nisso, ainda que não entendesse nada de alemão. Eu, muito do exibido, destilava a carreira de Francileudo dos Santos, nascido em Zé Codó no Maranhão, barrado na peneira do Sampaio Correia, reserva no River de Teresina, a ida para Tunis e o desfecho no Sochaux na França. “Cara, você inventou tudo isso, né?”. Era o Chico, rindo da minha cara. “Menos o Zé Codó, que eu vi reportagem na ESPN”. A gargalhada foi geral, fui pego em flagrante. Pelo Chico. Nos melhores momentos percebi: A Tunísia tinha dado um único chute a gol. Só deu Coréia. Duas bolas na trave, incluindo.
O segundo tempo encontrou os quatro amigos de infância abraçados ao barman, que agora chamávamos de Fritz. “Cê não tem outra TV não?”, “Ô, Fritz, pelo menos põe a TV em cima do Balcão!”, revezavam Chico e Deco, que no intervalo já haviam combinado compor uma canção juntos. “Mas eu faço a música”, foi a condição que impôs o Deco, vejam só.
A reação do alemão, já totalmente impaciente com o alto grau de fuzarca no estabelecimento, fui surpreendente: vociferou uns palavrões (qualquer palavra em alemão é palavrão), abraçou a TV e a levou para um quartinho atrás do balcão. Pronto, o alemão acabou com o jogo.
Foi o Raí que me avisou, quase em um sussurro: “Vambora que os africanos vão nos matar”. Era verdade: os olhares se reuniam todos em nós quatro. Consegui ainda resgatar o Deco, que tentava argumentar em alemão, e o Chico, que mostrava os dedos em riste a uns tantos árabes. “Fodeu”, repetiu o capitão, “Amaral, liga o carro”.
Sabe Raí como fugimos da taverna, sob xingamentos e garrafas, mas alcançamos o trabant bordô que havia alugado antes do linchamento. Pé no acelerador, olho no pára-brisa e rumo a Colônia, sob terror.
O terror durou um quarteirão: as gargalhadas o substituíram com estrondo. Os quatro agora se divertiam qual idiotas. Acho que foi o Raí que lembrou o “Acorda Amor” do Chico, e todos cantamos, aos espasmos. Foi quando o Deco, logo ele, deu o toque: “Tem rádio aí”.
O resto do caminho até Colônia foi longo o suficiente para ouvirmos em alemão os dois goles que garantiram a classificação da Coréia. Eu juro ter ouvido Lee Chun-Soo e Lee Dong-Gook. Deco insistia – insistia nada, brigava – que foram Cha Du-Ri e Park Ji-Sung. “Tenho certeza, tenho certeza”, urrava o bolonista. Chico jurou ter ouvido Lee Woon-Jae, mas Raí lembrou o carioca de que esse era o goleiro. Chico ainda resistiu: “Que ouvi, ouvi”, dando de ombros. O Dez garantiu que quem anotou, em ambas as vezes, foi Kim Jin-Kyu.
Quem saberá? Em discussão de amigos antigos – desses de fé, irmãos no ruim e no bom – todos têm razão.
O certo é que a partida terminou em 2 a 1 para os valentes coreanos e em quatro vozes abafando o som que vinha do rádio empurrando um “Amanhã vai ser outro dia”.
“Porca miséria”, dizia o italiano ao meu lado. Ele torcia loucamente por Gana, apesar de os africanos terem deixado a Azzurra de fora daquele jogo em Kaiserslautern. Afinal, se a Itália fosse primeira de seu grupo, jogaria hoje, aqui, e o ingresso do italiano valeria muito mais (pelo menos para ele). Perguntei por que o cidadão torcia justamente para o time que tirou a Itália daquele jogo e desvalorizou o seu ingresso. “Ahh, fanculo! Ero sposatto com una bela ragazza croata”, disse ele fazendo gestos de grandes seios com as mãos. “Capito, captei tudo”, respondi, achando melhor encerrar a conversa. O italiano queria a eliminação dos croatas, mas quem tomava o vermelho era o Mensah. Foi um daqueles amarelos ao quadrado. O primeiro amarelo foi pela briga de Mensah com o seu companheiro Kuffour. O segundo pela falta em Balaban. Krankjar bateria a falta. E bastou um único toque seu para a bola voar ao ângulo e Krankjar fazer aquela velha comemoração de aviãozinho. “Fanculo, su aereo di merda!”, gritou o italiano. E ficou mais puto ainda na saída de bola de Gana. Amoah recuou a Kuffour e este furou. Prso, em desabalada corrida, deu um único toquinho na bola. Owu ficou parado. E a Croácia virou. Eram 32 minutos do primeiro tempo e meu estômago começou a se revirar. Maldito chucrutis, pensei, como se fosse o Muçum.
Não deu pra segurar. Corri desesperado para o Toilete, sem entender por que estava escrito em francês. Na volta, olhei o placar: 2 a 1. Nada perdi. Nada?! Não era isso o que dizia o italiano. Kuffour havia dado uma botinada em Prso e fora expulso. Expulso sem receber o segundo amarelo. Foi vermelho mesmo. Gana jogava com nove e perdia por 2 a 1. “Africani di merda”, gritava o italiano. Era isso. Gana perderia. O segundo tempo chegava apenas para passar adiante. 45 minutos de nada. Só para que os croatas pudessem humilhar Gana ainda mais. A derrota era certa. O time quadriculado, com suas camisas de tabuleiro de xadrez branco e vermelho daria o xeque-mate no segundo tempo.
O segundo tempo começou desanimadíssimo. Os croatas pipocavam. Trocavam passes despretensiosos no ataque e seguros na defesa. Gana estava perdida. O técnico recompôs a zaga com Paintsil, jogador de um time qualquer de Israel e foda-se. A ordem era segurar lá atrás e tentar algum gol numa jogada espúria. Jogo arrastado até os 34 minutos do segundo tempo. Numa troca de passes despretensiosos, Paintsil antecipa-se e a bola fica morta na defesa croata. Noutra troca de passes seguros entre Simic e Simunic, Amoah faz falta no segundo e rouba-lhe a bola. Então, Amoah cruza para Apiah e o chute para o gol é tão infame como uma rima pobre entre dois atacantes do mesmo time. Bola no centro do gol passa por baixo de Butina que só pega o ar. 2 a 2. Naquele momento, tudo poderia acontecer. O mais provável era a prorrogação. E a certeza de prorrogação aumentou, quando Simunic pegou a bola e dirigiu-se com um olhar inconfundível de raiva para o juiz.
“Vá fanculo, Simunic!”, gritava bêbado e feliz o torcedor da Azzurra ao meu lado. Nunca vi tanta felicidade com uma expulsão. O juiz groenlandês Irc Vorvojkac não apenas tirou um croata de campo, como amarelou todo o resto da defesa que reclamou insistentemente daquele gol de empate de Gana. Os croatas, agora, eram só nervos. Os passes no ataque, antes despretensiosos, eram, agora, puro desespero. Na defesa, pior ainda, a bola queimava. Acho que foi por isso que o técnico Kranjcar tirou Simic e Tudor. E pôs Kovac e Tomas. Com novos zagueiros, a Croácia tentava acalmar o jogo para retomar os ataques. Mas, já era tarde. O 2 a 2 cheirava a prorrogação e assim foi, para a alegria do italiano que pediu “due porzione di xucruti” e “una birra”.
No intervalo, o cansaço dos jogadores contrastava com o cheiro do chucrutis no estádio Fritz Walter. A emoção apregoava-se ao mal cheiro. Aos gritos dos italianos que haviam comprado ingresso “errado”. Aos croatas que ouviam “fanculo” e não sabiam se ficavam mais irritados com a torcida ou com o jogo. Eles haviam permitido o empate. O juiz não contribuiu, é verdade. Mas eles permitiram o empate. Prso sabia disso quando chutou pra fora a primeira chance, em plena prorrogação. Ele não erraria uma segunda vez. E essa vez veio, no segundo tempo do tempo maldito. Eram 11 minutos da prorrogação e Prso sabia que acertaria. Então, disparou o chute em direção ao ângulo e o goleiro Owu voou atrás. Owu relou o dedo médio na bola, o suficiente para o italiano gritar pela enésima vez: “Vá fanculo, croata”. A bola fora para fora. E rumávamos para os pênaltis. Disso, todos tinham certeza. Até Amoah traçar nova jogada com Apiah.
Saiu o resultado hoje da seleção de todos os tempos. O globoesporte.com, nos últimos 2 meses, promoveu uma votação onde os melhores em cada posição, inclusive técnico, forama escolhidos. O resultado é o seguinte:Taffarel, Djalma Santos, Aldair, Domingos da Guia, Branco; Zito, Falcão, Ronaldinho Gaúcho, Zico; Vavá e Amarildo. O técnico escolhido foi o Felipão.( Telê não foi nem relacionado entre os elegíveis...).
E Pelé não tem vez nesse time não? Ronaldo? Romário? Júnior? Félix? Sei lá....
Sentamo-nos incrédulos no mesa-redonda. Como poderia o Brasil, com quatro atacantes, perder na estréia para o miserável Chile?! Cavalone gritava: Bomba, Bomba, Bomba. Cacá Rosset chorava. Neto pediu mais garra aos medalhões da seleção. E a Nereide cancelou a entrega de um cooler da Brahma para o Zé Roberto. O fato é que o quadrado mágico não funcionou nos campos da Fiba e o Brasil perdeu um jogo de estréia de campeonato de botão pela primeira vez na história. Tomamos o primeiro gol no segundo tempo. Foi o Salas quem fez, com os seus 38 anos e 88 quilos. Ridículo. Depois, num rebote besta, gol do Valdívia. Descontamos com Zé Roberto porque os atacantes estavam um horror. Parecia que haviam passado duas semanas num balneário suíço, dando autógrafos nos peitos das torcedoras decotadas. O Cavalone concordou que só o Palestra estava pior do que aquela seleção. E escalou o time campioníssimo de Oberdan nos anos 60, a Velha Academia. Em seguida, chegaram uns provolones e ganhamos couvert grátis no Michelluccio da Consolação. O cooler ficou com o Maldonado e concordamos com o Luxerley Vanderbronha para técnico na próxima Copa. Vejam os atordoantes resultados da primeira rodada da Copa Fiba...
Grupo A – Uruguai 3 x 4 Tcheca, Áustria 1 x 2 Austrália
Grupo B – Romênia 6 x 4 Espanha, Equador 3 x 1 Eslovênia
Grupo C – Sérvia 3 x 3 México, Dinamarca 1 x 1 Irlanda do Norte
Grupo D – Brasil 1 x 2 Chile (Vergonha!), Grécia 2 x 2 Gana
Grupo E – Alemanha 4 x 2 Paraguai, Costa Rica 1 x 3 Costa do Marfim
Grupo F – Suécia 3 x 3 Inglaterra, Emirados Árabes 4 x 1 Israel
Grupo G – Colômbia 2 x 2 Itália, França 2 x 0 Togo
Grupo H – Nigéria 3 x 2 Rússia, Portugal 1 x 0 Trinidad & Tobago
Eu estava distraído naquela cobrança de lateral. Pegava um prato cheio de cebola com lingüiça e não percebi que o lance seria decisivo. Só quando dei a primeira dentada no chucrutis (escrevo aqui que nem o Muçum, pois não faço a mínima idéia de como se escreve comida alemã) é que ouvi o grito de “Gooool”. Corri os olhos para o goleiro Owu e nada. Na verdade, Owu estava comemorando. O gol fora do outro lado. Foi um italiano que estava ao meu lado me contou. Simic cobrou para Simunic, mas ambos se confundiram. Amoah roubou a bola e tocou para Apiah. Entre Simic e Simunic, havia Amoah e Apiah. O chute foi mortal. Gana, 1 a 0.
Mandei uma cervis pra dentro pra rebater o gosto amargo do chucrutis e voltei as atenções ao gramado. O jogo agora era todo invertido. Gana ganharia. Disso todos tínhamos certeza. Gana ganharia, até os 27 do primeiro tempo quando Mensah fez falta feia em Balaban.
Foram cinco minutos e cinco chances claras de gol. As duas primeiras com Krankjar: um chute de fora da área e uma defesa do goleiro com as pontas dos dedos. Na cobrança do escanteio, Krankjar tentou o olímpico e a bola pegou na trave. O goleiro Owu assustado bateu o tiro de meta e tomou um chute no contra-pé de Vranjes. Bola rente à trave. Novo tiro de meta, dessa vez cobrado pelo zagueiro Mensah; nova interceptação de Vranjes. Mas, agora, ele não chutou. Cruzou para Prso que bateu uma bola baixa. Foi nos pés de Owu e voltou alta para Prso cabecear. Pra fora.
Cinco minutos, cinco chances claras, nenhum gol. E o estádio de Kaiserslautern estava todo em pé. Os camisas quadriculadas voavam contra os impávidos africanos. A derrota era iminente. A boa campanha africana morreria nas oitavas de final. O zagueiro Kuffour, figurinha carimbada da Roma, estava em pânico. Fazia faltas impensadas e gritava para os companheiros. Kuffour recebeu gritos de volta e trocou cabeçadas com Mensah. Ambos foram advertidos com o amarelo. Treze minutos de jogo e todos no estádio se perguntavam até quando Gana iria suportar. Então, surgiu uma simples cobrança de lateral. Simic foi bater.
Continuando a indagação do nosso querido Amaral em relação à demissão do Waldemar pra trazer o Ney, Kléber Leite, brilhante como só ele, afirmou que o Mengão precisava de uma mudança, dessas que trazem novo ânimo para os jogadores e todos aqueles responsáveis pelas atuações do time, para o time voltar a vencer no Brasileirão.
Pois é, até agora, em casa, um empate e uma derrota.
A Copa do Mundo está chegando e todos os campeonatos param. A Fiba (a Federation International of Botão Association) sempre respeitou essa tradição. Mas, neste ano, não resisti. Acho que foi por causa da ansiedade, da emoção, de ver um quarto de bebê pronto, da barriga... Sei lá. O fato é que o sorteio dos grupos foi realizado em grande estilo. Chamei o carissíssimo Roberto Cavalone (que foi brilhante mestre de cerimônias, escalou o Palestra campeoníssimo de 1951), o Carlos Luciano (mais conhecido como Mineiro, herói de futuras gerações), o Rei-Rei-Reinaldo (numa homenagem ao Franklin), o Neto (com seus comentários interioranos e seu inconfundível jeito tosco de ser pediu o Sylvinho no lugar de Roberto Carlos), o Tostão (que não foi porque achou a cerimônia meio oficial), o Pelé (que sempre comparece nesses eventos oficiais), as modelos Nereide (aquela do Super-Técnico) e Luize Altenholfen (bela capa de dezembro de 2001), o Junior (não o craque da lateral-esquerda, mas o irmão de 10 anos da Viviane) e o nosso médico, o Dr. Felipe (que é argentino, mas é gente boa!)
Vejam que beleza, que beleza, que beleeeza...
Grupo A – Uruguai (atual campeão), Tcheca, Áustria, Austrália
Grupo B – Romênia, Espanha, Equador, Eslovênia
Grupo C – Sérvia (sem Montenegro), México, Dinamarca, Irlanda do Norte
Grupo D – Brasil, Chile, Grécia, Gana
Grupo E – Alemanha, Paraguai, Costa Rica, Costa do Marfim
Grupo F – Suécia, Inglaterra, Emirados Árabes, Israel
Grupo G – Colômbia, Itália, França e Togo
Grupo H – Nigéria, Rússia, Portugal e Trinidad & Tobago
Depois do sorteio, fomos todos na Lelis Trattoria, aquela do ambiente agradável, que vc pode levar as crianças, a vó, a sogra e o cachorro...
1. O UOL, que nos abriga graciosamente, está com dois novos blogs nestes tempos de Copa: o Blog dos Enviados (http://blogdosenviados.blog.uol.com.br/), que traz Daniel Tozzi e João Henrique Médici diretamente de Weggis; e o Blog da Redação (http://blogdaredacao.blog.uol.com.br/), com curiosidades trazidas pela redação do UOL Esporte. Vale a pena uma visita a ambos e uma piada sobre o nome do primeiro.
2. A outra dica é uma visita ao nosso vizinho "Distintivos de Futebol". Está lá a explicação dos distintivos de todas as seleções da Copa.
Kevin Wälchl é suiço. Mora em Halten. Torce para a Juventus da Itália. Tem 13 anos.
No dia 24 de maio de 2006, Kevin trabalhava como gandula. Não era bem um jogo, mas um treino. Ajudava a recolher as bolas e a devolvê-las aos jogadores profissionais que treinavam no Thermoplan Arena, em Weggis, Suiça.
O time que treinava na Arena era a seleção brasileira, acompanhada pela audiência de mais de 5.000 pessoas. Weggis tem 3.000 habitantes.
Terminado o treino, Kevin recebeu um convite: calçar um par de luvas de goleiro e rumar para as traves. Ele seria o defensor das cobranças de Rogério Ceni, goleiro da seleção brasileira.
Ceni chutou seis bolas bem fraquinhas. A intenção era consagrar Kevin. Ele defendeu cada uma delas, sob os inflamados aplausos de 5.000 pessoas.
Quase saiu invicto na disputa com o goleiro da seleção: quando foi devolver uma bola para Ceni, adiantou-se – estava quase no limite da área pequena. Ceni o encobriu, na trairagem. Kevin sorriu. Ceni também.
O goleiro abraçou o pequeno suiço, beijou sua cabeça e se despediu.
Kevin virou uma celebridade: foi procurado por toda a imprensa internacional e teve de ser assessorado pela organização do Thermoplan Arena. A organização preparou uma entrevista coletiva para Kevin Wälchl. Lá naquele mesmo lugar onde Parreira atende aos jornalistas.
Disse Kevin:
"Não conhecia aquele goleiro. Mas ele me chamou e eu fui lá. Sou goleiro no meu time e foi uma honra ter participado desses minutos com o Rogério".
Disse mais:
"Acho que vou conseguir mais namoradas".
Também acho, Kevin, mas se cuida. Juízo.
Rogério Ceni e Kevin Wälchl
(Brincadeira com a reportagem de Zé González, enviado do Lancenet a Weggis. A reportagem está aqui: http://www.lancenet.com.br/noticias/minuto/idxn.asp?area=manchete1&p=/noticias/06-05-25/ESP/FUT/380057.htm)
Jogos decisivos podem acontecer também às quartas feiras, depende do calendário. E o calendário nos prega peças, as mais diversas. Fico olhando dezembro e o calendário dos jogos. Um a um, jogo a jogo, tudo me parece absolutamente inquietante.
Quem a olha assim, de longe, sempre vai reconhecê-la por duas razões: a estatura e o sorriso. Maria Helena é assim. Baixinha e sorridente. Trata-se de uma das mais renomadas e experientes técnicas do futebol mundial. Maria Helena é minha mãe. Ela, assim de longe, não parece ser aquela fortaleza. Até porque gosta de abraçar, de tocar as pessoas, demonstrar afeto e isso, no mundo moderno, não é sinônimo de gente forte. Gente forte, “bela roba”, ela diria. Minha mãe é assim. Uma técnica que sabe usar uma linguagem inteligível para qualquer boleiro. Daqui e “dalhures”.
Maria Helena me treinou, e me treina, por muitos anos. Foi com ela a paixão por história e por política. Baixinha, a fortaleza foi dirigente sindical, comandou greves, berrou com marmanjos e defendeu suas idéias, com a convicção das fortalezas. Olhando assim, pouco parece. Até porque no meio da greve ela sempre foi capaz de preparar algo para alimentar os jogadores, algo para animar a casa, algo que nos fizesse felizes. Sem perder a ternura, de forma alguma. Nossa técnica é assim, no fundo o que ela quer é que todos fiquem felizes. E sorri.
Minha mãe, olhando assim, técnica e na beira do campo, não é das que fazem alto-elogios esperando reconhecimentos, enaltecendo os “nós” táticos que pregou em diversas pelejas. Treinou a equipe, preparou os cascos e mandou ver durante jogos e jogos. Ganhou partidas memoráveis com suas substituições, olhando o jogo como poucos. Maria Helena é uma Telê Santana, um Cruiff, um Autuori. Uma Rosa e uma Elis. Lembro das feiras de ciência, dos trabalhos escolares, das passeatas, dos comícios, da música e de tudo mais. Olhando assim, da arquibancada, vejo o abraço nos netos, o mesmo sorriso de moleca, feminino de moleque.
Feminino de moleque. Moleca. Esse é o apelido que Seu Nilton escolheu para ela. É assim que meu pai a chama, durante todos os jogos da vida deles. A moleca é técnica, mas joga o fino também. E para a moleca, aprendi, há jogos difíceis. Mas não há jogos impossíveis.
Escrevo isso porque o calendário nos prega peças. Jogos decisivos podem ocorrer a qualquer tempo. Meu pai, desde quarta feira passada, está internado. Fez uma cirurgia para corrigir um aneurisma. Está na UTI. Faz a partida mais difícil da vida dele. Hoje, terça, teve um derrame. A partida ficou renhida, disputada, difícil. Tenho certeza que a melhor maneira de encorajá-lo nesta peleja é fazendo duas coisas que ele gosta muito, mas muito mesmo, neste mundo: Uma é escrever nos Bolonistas, ele leitor assíduo. A outra é cometer uma série de erros de gramática e de escrita, para que ele possa corrigir deliciosamente com seus pitos. E, por fim, fazer a coisa que ele mais gosta de todas as outras, que é enamorar a moleca, falar e olhar para ela com o carinho dos amantes, do marido, do companheiro, do técnico que dirige o time com ela e com prazer. Precisava escrever, tirar o nó. Chorar. Pai, boa sorte e força. Mãe, obrigado, nós te amamos.
Detesto gol de escanteio. Nada mais sem graça do que um gol saído de um escanteio. Quando nascem de bobeadas das defesas, os escanteios são injustos. Uma bola na canela do zagueiro e a ameaça insistente de gol. Seria melhor que a bola saísse da canela do zagueiro para o atacante sentenciá-la logo no gol do que todos irem para a defesa e ficarem naquele empurra-empurra invariável, um bando de semi-pênaltis, para, então, vir uma bola cruzada na área. E quando surgem de grandes defesas, os escanteios são o anti-gol. Os escanteios são o gol não feito. Seria melhor ver a bola no ângulo após um chutaço de fora da área do que mais um gol de cabeçada nascida de cobrança de escanteio. É curioso, mas os times que gosto não sabem bater escanteios. Eles cobram de forma displicente. Tocam a bola curtinho para um atacante e reiniciam a jogada pela lateral. De lá, tentam ora o meio-campo, ora um drible para um cruzamento mais apurado. Os comentaristas reclamam: “Como é que o time tal não sabe bater escanteio?!” O importante para os times que valorizam o fino, como diria o Amaral, é a bela jogada, e não o gol ensaiadinho de cabeçadas estúpidas de escanteios. Não me lembro de o Barcelona atual fazer gols de escanteio. Não me lembro de um gol de escanteio da seleção na Copa de 1982. Aliás, não me lembro de gols de escanteio da seleção. Os melhores são de jogadas trabalhadas, dribles indescritíveis, faltas folha-seca, ou aquelas colocadas “com a mão” do Zico. Já os times meia-bomba adoram escanteios. A Grécia foi campeã da Eurocopa eliminando a República Tcheca e Portugal com gols de escanteio. Gols ridículos, diga-se de passagem. Estragaram a Eurocopa naqueles “corners”. O Brasil, aliás, é o time para tomar gols de escanteio. O gol derradeiro de Rossi, em 82, nasceu de um escanteio bobo. Acho que foi o Cerezo quem recuou. A jogada estava dominada e ele cabeceou para o Valdir Peres. O Valdir esticou o braço e pegou a bola à meia altura. Aí, o bandeira deu o escanteio. O Valdir reclamou, mas timidamente. No escanteio, uma bola esquisita foi disputada no alto para, depois, surgir inexplicavelmente nos pés do Rossi. Uma jogada besta e perdemos a melhor seleção da Copa. Em 94, sofremos o empate contra a Holanda em outro escanteio bobo. Um grandalhão cobrou alto para outro grandalhão cabecear, grandes merdas. E, em 98, perdemos a Copa nos escanteios. Primeiro, foram os dois gols do Zidane na final. Dois escanteios idiotas, dois gols sem graça nenhuma. Depois, nos descontos, escanteio para o Brasil. Dugarry, um dos piores atacantes da história da seleção francesa, tira a bola de nossa área com a batata da perna e avança. Aí, sai o toque para o limitadíssimo Petit e o gol final. Perdemos de 3 a 0, com três escanteios. Essa é a verdade. Mas, toda a regra tem exceção. E alguns escanteios podem ser maravilhosos, claro. Esse eu vi no videotape. Pepe chuta lá do triangulinho com a força de um Roberto Carlos. Bola à meia altura vem rompendo a área. O Pacaembu parado. Por alguns instantes, todos grudados naquela bola violentíssima em direção à área. Em direção à área, vírgula. Pois o chute de Pepe foi tão forte que, se ninguém tivesse tocado na bola, ela cortaria a área em diagonal e sairia lá longe na outra lateral. Mas, alguém cortou aquela trajetória. Como se acertasse numa bala de canhão em pleno movimento, Pelé pega forte, de esquerda, com a mesma intensidade de Pepe. Ele desvia a bola da lateral para o gol. Desvia, não. Desfere. O goleiro mal tem tempo de se mexer. O gol é um assombro. Um assombro de escanteio.
Sabe o Flamengo? Aquele um que quase caiu no campeonato brasileiro do ano passado, do retrasado e do outro também?
Sabe o Flamengo? Aquele um que fez uma campanha pífia no pífio campeonato carioca de futebol, ficando nas últimas posições?
Sabe o Flamengo? Aquele, mas aquele mesmo, de campeonatos e campeonatos de inexplicáveis atuações, de obscuras pontuações na tabela?
Pois bem.... esse um está na final da Copa do Brasil. Não é nada? O campeão estará na Libertadores, direto e sem escala. É pouco?
Pois bem... esse um depois de dias e dias de incontáveis técnicos, de milhares de experiências, do interino efetivo do Andrade, arrumou um treinador que, se não é o gênio da lâmpada, os jogadores gostam, a torcida gosta e sei lá mais o que gosta.
Pois bem... esse um mandou esse treinador embora. Para contratar o Felipão? O Luxa? Ou o Leão? Quem sabe o Joel Santana? Não. Para contratar o técnico do Ipatinga, Nei.
Sei lá... essas coisas eu não entendo. O cara pode até ganhar o campeonato e vai virar gênio da lâmpada. Mas, e se perde?
Sei lá... Raul, Leandro, Marinho, Moser e Júnior. Andrade, Adílio e Ele. Tita, Nunes e Uri. Eles merecem isso? Pergunto, eles merecem isso?
Sei lá... vai entender.... vai entender. Não sou de torcer pelo Vasco, enquanto o Eurico for vivo. Mas, de repente, sei lá... Sei lá.
A Copa de 1950 deixou muitas seqüelas. Perder uma Copa do Mundo, percebam a gravidade dos fatos, perder uma Copa do Mundo em casa, com um timaço, com Zizinho e Bauer, no maior estádio do globo, com a maior euforia da terra, a torcida pagante e não pagante jamais encontradas numa arena de futebol e no solo brasileiro foi um duro golpe para a nação.
Em 54 não havia cura. Mas Paulo Machado de Carvalho desconfiava que o talento e o escrete nacional, se bem preparados, poderiam alcançar a taça. A taça do Mundo. Planejamento, uma palavra de muitos significados e que parece uma ofensa. Mas foi esta a chave que o Marechal da Vitória usou para comprar nossa passagem para o panteão dos imortais. E, pela primeira vez, tínhamos cronograma de trabalho, paz entre cariocas e paulistas, comissão técnica, psicólogo e dentista. O Brasil ia de Vicente Feola, um gordinho simpático, ex-treinador do Tricolor Paulista. Um treinador de bons modos, capaz de administrar egos e de trabalhar em equipe, sem ser a estrela do espetáculo, distante dos perfis de Zezé Moreira e Flávio Costa, os treinadores de 54 e 50. Estávamos preparados para o Mundial. Complexados, pelas derrotas. Mas preparados. Convenhamos, não é pouco.
Outro dia encontrei com o Pança e o Franklin no Léo. É muito legal quando acontece aquilo que nós, de fato, planejamos um dia. Uma tarde com chope e bolinhos de bacalhau com amigos que moram em outra cidade, se bem que Brasília parece outro país vez por outra, é algo para se marcar na agenda. É a criançada jogando naquele campo de terra, depois de uma semana de aulas sobre o Dia do Fico, a raiz quadrada e as briófitas.
Imaginem, portanto, o que não era aquela cena. Dentro do “ônibus ar condicionado mega poltrona reclinável” vi as primeiras placas na estrada que demonstravam nosso destino: “Calabresa com Provolone”, “Calabresa no Álcool” e “Calabreza recheada” e “Pinga Cazeira”. Assim as placas, com uma confusão entre o “Z” e o “S”.
Trata-se de um quiosque, próximo da Praia de Trindade, em plena Rio-Santos. Quando escrevo quiosque, entendam isso mesmo. Repelentes em punho, hospedados em Parati, fomos os onze para lá. As patroas preferiram, acho que até com uma boa dose de razão, ficar no Centro Histórico. A molecada ficou com uma equipe de babás especialmente convocadas. No balcão do quiosque, um amontoado de cardápios sujos e engordurados, já dava para antever o resultado do estrago: Zilhares de combinações possíveis com calabresa, às apimentadas em destaque. Pingas e Cervejas. Estava feita a festa e a primeira etapa de nosso audacioso plano. No violão, já era noite, o Caubas: “A Taça do Mundo é nossa.... com brasileiro não há quem poooooooooooooooooossa”.
Diria que existem fatos que são de conhecimento público. São os notórios. Mas, nas entrelinhas, existem sempre os fatos obscuros, escondidos, escamoteados. Ainda há os fatos que não existem, são deslavadas mentiras. Ou, se não são deslavadas, são só mentiras mesmo. Um fato de conhecimento geral é que o Renato odeia telefones celulares. E faz isto, o ódio, há tempos, bem antes do PCC. Renato é daqueles que prefere o toque de tambor, os sinais de fumaça, o abraço. Pensei nisso tudo quando olhei para o visor do meu celular: "Renato – BSB". Eram notícias, das boas ou das outras. Não era saudade, conclui.
"Amaral, e a Copa de 58? Qual é o bar?" Com essa pergunta começou a nossa conversa. De fato, a Copa de 58 ainda não tinha acontecido nestas páginas. Entre um papo e outro, entre uma sugestão e outra, várias idéias passaram pela cabeça. O Renato tinha surpresas, absolutamente inesperadas.
Bauru, a simpática cidade do Noroeste, o Norusca, também é a cidade de Pelé. Sim, não a cidade de nascimento, mas a cidade da descoberta. Nos campos do BAC, o Baquinho, Valdemar de Britto, talentoso jogador que vestiu o manto tricolor, olhando uma partida de futebol, viu o que nunca ninguém tinha visto. Um rei. Era Pelé. Ainda era Édson. Mas a bola era o fino. Portanto, podíamos nos encontrar no Água Doce, simpática cachaçaria do interior paulista, para trocar figurinhas e discutir amenidades sobre a Copa da Suécia. A idéia caiu logo. Já era raro conseguir que os Bolonistas se deslocassem para São Paulo ou Brasília, capitais e aeroportos internacionais. Imaginem Bauru, seria improvável. Súbito, imaginei nossa conversa em Santos, na mesa de um dos bares mais espetaculares do globo, o bom e velho Heinz, com um chope inenarrável e um canapé de aliche que, escrevendo assim, já dá água na boca. Imaginei o Ogro se empanturrando com o tal canapé e sorri. Santos é a cidade da Vila Belmiro. A capital do futebol brasileiro. De Pagão, de Pepe, de Coutinho, de Mengálvio. A galera ia gostar do Heinz e depois podíamos esticar para uma das barracas da praia. O Pedrão, fanático por praia e arquiteto, ia pirar com os prédios que tombam na orla santista. Entretanto, o que nos esperava era algo insólito. Não era bar. Não era chope. Era cerveja, gelada. E pinga. Improvável, mas o Renato deu a pista.
"Amaral, você nem imagina, meu irmão!!!". Gostoso esse papo, assim. Se eu nem imaginava devia ser de fato surpreendente. E era. Paulo Machado de Carvalho, o marechal da vitória, são paulino dos mais ilustres, bolou um plano audacioso para a Copa de 58. Nosso plano, nosso dos Bolonistas, era isso: Audácia.
Agora não tem mais lero-lero, nem vem cá que eu também quero. Estes são os calouros do paulistão 2007:
Sobem para a principal:
obs1: lamento, em solidariedade aos Nakazato, a não classificação do Taquaritinga;
obs2: Guaratinguetá e Rio Claro voltam a ter times na primeira após décadas, lembrando os finados Velo Clube e Esportiva;
obs3: o Sertãozinho, segundo informações seguras do Luis, deve mesmo firmar um convênio com o Galo, já que ambos entendem de hóquei, gelo, patinação. Isso significa que no ano que vem ele volta pra segundona.
TERCEIRONA: AS COISAS VOLTAM AO NORMAL E OS TRADICIONAIS BOTAFOGO, SÃO JOSÉ, XV DE JAÚ VOLTAM PARA A SEGUNDONA, JUNTO COM A SURPRESA OSVALDO CRUZ:
Obs: agora só falta a volta da Ferroviária, de Araraquara.
O jogo então se concentra no meio de campo, lento, pegajoso: passes laterais e poucas faltas. O sangue esfria na espera da inevitável prorrogação.
Mas não houve prorrogação.
O que houve, em oposição, foram os mais impressionantes dez minutos finais a que assisti nesta ou em outra Copa.
A gosmenta apatia que pesava sobre a partida se dissolveu com a saída de Nuno Valente e Costinha, num lado; e de Van Bommel e Kuyt, no outro. Os treinadores haviam acertado.
Os descansados reservas impuseram um ritmo novo, contangiando os resistentes e arrancando as últimas forças dos exauridos.
E foi justamente uma jogada que envolveu extenuados e repousados que despertou o monstro. Cocu dispara pela esquerda, deixa Caneira estendido, e cruza. Van Persie alcança a bola antes da proteção de Ricardo Carvalho. Domina e chuta rasteiro. Uma fina ironia faz a bola tocar a antes salvadora trave de Ricardo antes de descansar nas redes.
O monstro ergue seu pescoço escamoso e urra, enfim.
O Zentralstadion torna-se uma arena infernal. Gritos de júbilo e desconsolo entrecruzam-se, confundem-se, enfrentam-se. O árbitro tem dificuldades em recomeçar a partida. Àquela altura, o gol holandês insinuava uma sentença capital.
No recomeço, entretanto, o revide: sob igual fôrma. O jovem reserva Thiago tabela com o ainda mais jovem titular Cristiano. Esse levanta a cabeça e lança Deco.
O brasileiro não precisa de três toques para impedir o descanso do monstro. Ajeita a bola aos pés e encobre com facilidade incomum os dois metros de Van Der Sar. Um gol absoluto.
O monstro retoma seu estrondo, acompanhado de um colérico Felipe.
Impossível não sentir a tentação de reinventar a imagem do espelho. “Melhor não”, que futebol é arte mais sutil. “Ao jogo”.
O técnico de Portugal percebeu antes do holandês a importância das substituições, que foram decisivas em ambas as metades. Convocou Paulo Ferreira e empurrou-o rumo ao árbitro de mesa.
Figo, exausto, facilmente intuiu sua fortuna. E sua reação foi histórica. Antes mesmo do anúncio na placa de substituições, olhou para Felipe, apontou o dedo ao peito e desenhou no ar um eloqüente não. Ele não sairia. Felipe bradou algo, Figo respondeu com gestos e gritos indecifráveis.
Não adiantou: a placa subiu e lá apontava, em cores vermelhas, o número 10 do português. Paulo Ferreira saltava ao lado da placa, ansioso.
E Figo não saiu. Não sairia. Repetiu o gesto anterior a Felipe e incluiu o árbitro em sua platéia. Figo não saiu e não sairia. Estabeleceu-se o impasse e o burburinho no estádio.
Felipe berrava. Chegou a invadir o campo e foi impedido de continuar pelo bandeira. Figo balançava os braços com desdém. E todos, vivos ou mortos, miravam o juiz. Que faria?
O fato é que nenhum jogador é obrigado a deixar a partida se não tiver sido advertido com o cartão vermelho. Duvido que Figo o soubesse. Duvido até que o árbitro o soubesse. Ambos ignoraram o insano Felipe e o atônito Ferreira e prosseguiram a partida.
Na assistência, holandeses e lusitanos entreolhavam-se, basbaques. Felipe corria, empurrava Paulo rumo ao campo. Figo pedia bola. Os jogadores portugueses respondiam aos berros de seu treinador com um arquear de ombros e um esgar nos lábios. Não sabiam o que fazer. Figo pedia bola.
Um de seus companheiros o atendeu. Sob vaias e afagos da assistência, e sob o olhar furioso de seu treinador, Figo dominou a bola na esquerda. Sabia-se morto, terminado. Não haveria salvação para o seu pecado.
Talvez por isso tenha decidido ignorar os apelos de passe e seguir sozinho rumo ao gol. Passaram livres Cristiano e Simão. Figo trombava com beques, segurava a bola, quase a perdia para retomá-la adiante. E quando alcançou, trôpego de cansaço e marcação, a linha da grande área, decidiu pelo chute. Sabia-se imperdoável, degredado. Não haveria absolvição para o seu crime.
Mas o destino escolhe de maneira improvável os seus heróis. Van Der Sar ainda tocou na bola, que saiu mascada, antes de ela afundar a rede.
O monstro mostrou-se por inteiro. Os gritos foram os mais arrepiantes de todas as Copas. Assistência, jornalistas, gandulas, todos gritaram seu grito ancestral. Todos sabíamos que estávamos presenciando um momento singular da história. Nada seria igual após a desobediência de Figo. Sua impertinência abriu espaço para o imprevisível. Alguém teria coragem de o remedar? Alguém flertaria tão de perto com o fracasso?
O juiz apita logo em seguida. Os reservas portugueses invadem o campo com fúria, qual bárbaros. Levantam os braços em transe.
Figo ousa o contrário. Corre enlouquecido para um determinado ponto na beirada do gramado. De onde estou, é impossível precisar seu objetivo. Foi quando percebi que o telão acompanhava a corrida do jogador.
Lá, em monumentais proporções, foi registrado o encontro de Figo e Eusébio, que descera da tribuna de honra e acompanhara os últimos instantes na beira da batalha.
Dessa vez, não era o aperto de mãos, o sorriso solene. Mas o abraço definitivo, que une dois corpos até quase indefinir sua independência. A imagem registrou o grito que ambos se lançaram, cara a cara, os infindos apertos, os beijos que marcaram as gordas bochechas de Eusébio. Figo havia vencido a todos. Sozinho.
E quando a vitória é só sua, deve ser comemorada só com os seus.
Jogos de Copa são jogos inesquecíveis XII - Parte 1
Existem momentos em que temos decisões difíceis para tomar. Podemos ir ao cinema e tomar pau na prova. Podemos assistir a um jogo com os amigos e perder a festa onde estará aquela garota. Ler Salinger para a prova de inglês, ou Machado para a de português? São decisões estúpidas que nos envolvem em meio a promessas de algo que não sabemos se virá. Então, acabamos optando por tentar fazer de tudo um pouco, ou todas as coisas ao mesmo tempo. Vamos ao cinema e estudamos para a prova de madrugada. Vamos ao jogo e chegamos atrasados na festa desesperados atrás daquela garota. Lemos um pouco de Salinger e de Machado sem ler nada de verdade, apenas para justificar a prova. O “não decidir” é bem mais confortável de imediato, mas sabemos que, ao final das contas, será muito mais desgastante. Naquele ano, eu sabia que teria de preencher uns formulários que, me disseram, iriam influenciar o resto da vida. Eu achava totalmente estúpido preenchê-los, decidir entre direito e ciências sociais, história ou filosofia, teatro ou cinema. E criaram todo um clima de seriedade em torno daquilo. Para piorar, tinha sempre um pessoal que sabia de tudo. Aquele sujeito que estava certo em Ciência da Computação para, depois, trabalhar nos Estados Unidos, se casar, ter um casal de filhos com a fulana de tal e ir para a Disneylândia nas férias. A garota que faria Engenharia de Alimentos em Campinas para trabalhar numa grande empresa de Ribeirão Preto, ter filhos perto dos pais com o namorado da infância e uma vida mais tranqüila no interior. Havia aquele pessoal pré-acabado e o resto, totalmente perdido. Como fazia parte do segundo grupo, confesso que estava mais nervoso com os formulários do vestibular do que com o Copa. A Copa parecia no papo. Finalmente, ganharíamos o que nos prometeram em 1982 e 86. Tínhamos os melhores jogadores, vários deles jogavam na Europa, o que, na época, era algo difícil. Hoje, qualquer Marcos Senna joga na Europa. Mas, naquela época, era preciso ser um Sócrates para ter um lugarzinho numa Fiorentina da vida. A certeza de que ganharíamos era a única que eu tinha, já que não tinha a mínima noção do que pôr nos formulários. Acho que foi entre o segundo e o terceiro jogo do Brasil, entre um daqueles 1 a 0 contra a Costa Rica ou Escócia... Eu voltava a pé da Escola de Música e tive quase a imediata certeza de que seria pianista. Mirei o horizonte da Praça do Pôr do Sol (um dos poucos horizontes de São Paulo) e percebi que levaria as teclas a sério. Tive um sinal, quando a luz amarela do Sol baixou em direção a USP. Nela, me vi tocando em concertos em São Paulo, em Campos do Jordão, na Abbey Road, no estádio de Wembley... Passaria o resto de meus dias alternando salas de ensaio com as de concerto e audição. Aquilo me confortou como uma certeza única. Então, cheguei em casa e li “Elektra Assassina” pela quarta ou quinta vez. Ler Matt Murdoch resolvendo o problema de tanta gente, e ainda ficando com a garota, me levou a querer ser advogado. Imagine ter a habilidade para enfrentar o crime nos tribunais de dia, nas ruas de noite e ainda manter um romance com a sensualíssima morena de pernas fantásticas revestidas por adagas. Seria espetacular. Logo que deixei o gibi no chão, me chamaram para um cinema – algo que já se tornava tradicional nas vésperas de prova. Ao ver “Asas do Desejo”, tive a certeza de que queria ser cineasta. Organizaria uma sucessão de imagens subjetivas nas telas e teria uma fila de garotas de oclinhos e saias de inverno como admiradoras. As certezas eram tantas e foram se sucedendo de tal forma que, é claro, me deixaram em dúvida. Não sabia o que queria ser naquele mundo de promessas escondidas numa realidade frustrante. O governo prometia resolver a economia num tiro só e criou uma baita confusão na escola, com histórias de pais e tios falidos, sem dinheiro, se mudando... Me explicavam, mas eu não entendia muita coisa daquilo, até porque tinha outras coisas importantes para decidir, como o filme no cinema, o xerox pré-semana de provas e o maldito vestibular. A única certeza de fato que eu tinha era a vitória final. Ela aumentou quando Careca acertou a trave logo no primeiro tempo.
Jogos de Copa são jogos inesquecíveis XII - Parte 2
Do Careca, eu não poderia duvidar. Cinco gols na Copa do México, 26 no Brasileiro de 1986. Era o sujeito certo na hora certa. Enquanto ele acertava a trave, o goleiro argentino voava de um lado para o outro entre o desespero e a concentração. Era um ano de promessas mal feitas, é verdade, mas, naquele dia, estávamos unidos em torno da certeza de bater os argentinos. A união era meio contida, já que a seleção jogava para trás. Mas, o time nos prometia a modernidade. Jogaríamos como os europeus: centralizando as ações na defesa, com líbero, três zagueiros, dois volantes e sem camisa 10 autêntico pela primeira vez desde Pelé. Em 1970, vale lembrar, tinhamos cinco camisas 10 e todos jogavam por clubes brasileiros: o Rei (Santos), Rivelino (Coringão), Gerson (São Paulo), Tostão (Cruzeiro) e Jairzinho (Botafogo). Acho que é algo único na história das copas: um time com cinco camisas 10. Vinte anos depois, o nosso 10 era o Silas, que jogava com a 8 no São Paulo, antes de ser vendido para o Sporting de Lisboa, sei lá eu com qual camisa. No lugar do Silas, tinha o Valdo do Benfica, também de Lisboa. Neste ponto, a Copa parecia mais emocionante para os lisboetas, que nem seleção tinham naquele mundial. Mas, a verdade é que também esperávamos resultados daquela modernidade futebolística. Continuamos favoritos, com vários gols perdidos no primeiro tempo e, em casa, a crença era traduzida pelo meu pai que repetia várias vezes em voz ora alta, ora baixa: “Vamô lá, Brasil! Vamô lá!” A crença, no fundo, não passava de simples torcida, pois os adultos sabiam que nada era certo seja naquela Copa, seja na política ou na economia. Ou mesmo nos formulários do vestibular. A crença era uma ilusão que foi logo desfeita numa única jogada. Enquanto não tínhamos camisa 10, Maradona pegou a bola, driblou dois e saiu correndo em diagonal rumo à nossa área. Acompanhamos a jogada como se tivéssemos bebido alguma coisa estragada. Os jogadores olhavam Maradona e não sabiam se deveriam dar o bote ou esperar. Nessa indecisão, apenas viram ele tocar para Caniggia. Entre ficar ou sair do gol, Taffarel correu para ser driblado por Caniggia. E Caniggia preencheu aquele formulário com grande definição: Argentina 1 a 0. Atrás no placar, o nosso técnico finalmente resolveu tirar o líbero, o Mauro Galvão, e pôr o nosso 10. Mas, o nosso 10 era o Silas! Nada contra o sujeito, mas, vejam bem: era Maradona de um lado e o Silas do outro. Mesmo assim, conseguimos uma bola cara a cara. Era o Muller, de um lado, e o Goycocheia (o goleiro reserva deles) do outro. Bastava uma simples decisão de Muller. Driblar o goleiro como Caniggia para empatarmos tudo no placar e na moral. Mas, ele resolveu chutar enquanto queria driblar. O resultado foi que a bola bateu meio que na canela, meio que no bico da chuteira e foi para longe. O goleiro nem precisou decidir entre sair atrás do Muller ou ficar no gol. A Copa acabou ali, mas, naquele ano, não me livrei das decisões estúpidas. Fleury ou Maluf? Ora, era melhor decidir entre Dunga ou Mauro Galvão, entre Valdo e Silas do que optar entre Fleury e Maluf!! E confesso que fiquei mais perdido do que o Ricardo Rocha, o Ricardo Gomes e o Mauro Galvão com aqueles formulários. Sempre eles. Eu estava mais perplexo do que os três zagueiros juntos frente à promessa de vitórias e a inexorável desclassificação. Acho que foi por isso que, num misto de birra e utopia, escrevi “Cinema” em pleno ano em que acabaram com a Embrafilme. Tomava decisões sem sentido, enquanto o resto do mundo era o Maradona fazendo o passe preciso que resultaria em gol.
No dia 20 de dezembro de 2005, Seu Inácio, pedreiro da Vila Paranaguá, Zona Leste de São Paulo, passeava pela avenida de mesmo nome, mesma Zona, mesma cidade. "Deus me lançou um olhar especial no último dia 20 de dezembro de 2005".
Parou para comprar um CD. "Robério e Seus Teclados".
Só que na hora, percebeu: no cash. Sacou seu cartão de crédito e mandou ver os R$ 19,50. "Eu uso cartão há quatro anos só para parcelar as compras que não posso fazer à vista. Mas sempre pago a fatura integral, nunca o mínimo. Conheço um monte de gente que se endividou com os juros do cartão de crédito".
Ao que consta, pelo menos não há evidência contrária, Seu Inácio gostou do disco de Robério.
Em janeiro de 2006, Seu Inácio, pedreiro da Vila Paranaguá, Zona Leste de São Paulo, estava em casa.
Recebeu um telefonema estranho, anunciando ser o vencedor de um prêmio. "Lembro que a moça ficou pedindo os números do cartão e eu não queria dar, com medo de que fosse trote, que fossem clonar meu cartão, enfim, passou muita coisa pela minha cabeça, menos que eu tinha mesmo ganhado o prêmio".
Seu Inácio desligou o telefone. Seu Inácio é desconfiado.
Em janeiro de 2006, uma semana depois do telefonema, Seu Inácio, pedreiro da Vila Paranaguá, Zona Leste de São Paulo, estava em casa.
Recebeu um telegrama estranho, anunciando ser o vencedor de um prêmio. O mesmo prêmio do telefonema. Seu Inácio recebeu outro telefonema. Dessa vez, acreditou. "Eu nunca ganhei nem rifa na época da escola, quanto menos viagem".
A viagem que Seu Inácio, pedreiro da Vila Paranaguá, Zona Leste de São Paulo, ganhou é para a Alemanha. Bem mais longe que a de Oeiras, sua cidade natal no Piauí, até São Paulo. "Foram 48 horas de estrada. Não chegava mais".
Seu Inácio viaja para a Alemanha no próximo dia 20 de junho. Ele viaja para a Alemanha para assistir à Copa do Mundo. Tudo pago. Ele e mais três. Um dos três é Juliana, a filha adotiva do Seu Inácio.
Seu Inácio, pedreiro da Vila Paranaguá, Zona Leste de São Paulo, nunca viajou de avião. "Nunca andei, mas não tenho medo, não".
Juliana desmente Seu Inácio.
Eles estarão na Alemanha, assistindo à Copa do Mundo de 2006. "Não sei bem o que vou encontrar lá. Só vi na televisão que não tem muito moreno lá, não. O povo é bem loiro, fala difícil e bebe bastante cerveja".
Futebol é um tanto mágico. Mágico.
Boa viagem, Seu Inácio, aproveite. Juliana, se comporte. Vão com Deus. Beijo nos dois. Bem apertado.
Seu Inácio e Juliana.
(Brincadeira com a reportagem de Ana Luisa Bartholomeu, do UOL. A reportagem está aqui: http://esporte.uol.com.br/copa/2006/ultnot/reportagens/2006/05/19/ult3668u9.jhtm)
Assim, injetado de melancolia, fechei as folhas e peguei um táxi para o Zentralstadion. O que lá vi foi além da antecipação, do palpite. Do chute, do sortilégio.
Ainda no carro me perseguia a imagem do espelho. Os pares de jogadores na capa, qual cromos. A imagem do espelho. Dois homens de terno sustentando as mãos estendidas e um sorriso solene. Eusébio. Cruyff. “Acho que vou por aí”, pensei, anotando no ar minhas idéias invisíveis.
O Zentralstadion. A imponente fachada e a lotação máxima da assistência, ao invés de arroubo, me trouxeram uma oblíqua familiaridade. O estádio era meu velho conhecido, minha casa. Leipzig, meu bairro. Ainda assim, as cores, os gritos – metade deles em minha língua – teciam a malha perfeita. Um jogo de Copa sempre nos suspende alguns centímetros do chão. O arrepio de amor novo. Recusei a arquibancada e mostrei meu passe ao guarda, com receio. Ele sorriu, ao que devolvi com alívio.
Os times se estendem numa longa linha para prestar homenagens aos hinos: o espelho. O espelho? Nesse momento, me dei conta da tibieza de minha ilustração. O espelho do futebol é torto, qual o de um mafuá. É um espelho que engorda, estica ou deforma. Minha analogia era uma fraude.
O jogo começa e lá estava o óbvio: as duas imagens do espelho não se encontram. O goleiro mal enxerga o outro. O lateral direito confronta o beque adversário. O atacante tromba com o lateral-esquerdo. O volante ataca as pernas do meia. Não há o espelho. “Perdi o eixo”, lamentei. “O texto quem vai escrever é o jogo”.
E foi um excelente jogo. Cristiano Ronaldo suava a volúpia apaixonante dos imberbes. Figo ritmava a partida, ciente de que, se mais lento o jogo, mais óbvio seu talento. Gio tomava a lateral esquerda qual posseiro raivoso. Van Nistelrooy usava o corpanzil para executar giros mortais. Em um desses, cravou a trave de Ricardo, parindo um longo oh! do Zentralstadion.
Só o placar se recusava a mover os braços: um monstro inerte que ofendia aquele jogo magistral.
No intervalo, imagens do telão mostraram Cruyff cercado de outros homens de terno. Sorria, disponível aos papéis e canetas de fãs. Eusébio ocupou o telão, e parecia calmo – suas bochechas moçambicanas ainda mais inchadas pelas gargalhadas. Mas agora estavam um de cada lado, sem mãos envolvidas num aperto.
Na volta do recreio, equipes inalteradas, o telão fechou os olhos para indicar-nos o foco: a grama verde de Leipzig.
Jorge Andrade completa um escanteio com severa violência: Van Der Sar evita o gol. Robben bate uma falta longa, curvilínea: mais uma vez a trave abençoada do gol de Ricardo evita a abertura do marcador.
Era incrível. O jogo prenhe de oportunidades não despertava o monstro da lagoa. O estádio grunhia, xingava, entoava, mas aquele grito inconfundível de gol permanecia lá na garganta, arranhando, arranhando.
Os times perceberam o inevitável: teriam de encarar a prorrogação. Os treinadores promoveram as substituições esperadas: saem os exaustos, entram os descansados. Não para mudarem o rumo da partida naquele instante, mas para encararem mais dois reduzidos tempos de batalha. Na Holanda, entram Ooijer e Van Persie. No outro lado, Simão e Tiago.
O jogo então se concentra no meio de campo, lento, pegajoso: passes laterais e poucas faltas. O sangue esfria na espera da inevitável prorrogação.
Não sei como ela consegue. Já estamos há uns bons anos juntos e, vira e mexe, eu me pego acordado pela manhã, os lençóis ao lado vazios, e, então me pergunto: “Como é que ela consegue?” Morar com alguém que acorda todos os dias às 4h30 é mais ou menos como ser personagem daquela música do Chico Buarque, aquela do funcionário e da dançarina. Quando eu caiu morto, ela empina, disse o poeta. No meu caso, é o contrário. Quando chego, lá pra depois das 21h, ela já está deitada, e quando estou no segundo sono, ela já se empinou e foi trabalhar. Naquela noite, porém, eu teria que acordar no horário dela. Era a estréia do Brasil na Copa e todos acordariam às 4h30. Todos seriam Viviane, mas, para muitos, foi difícil dormir. E eu estava entre eles. Não é porque estivesse nervoso com o jogo. O jogo seria qualquer coisa desde que não déssemos vexame como nas eliminatórias. Um empatezinho, quem sabe, para aquele time que só se classificou na última rodada contra a Venezuela, valia. O fato é que, em muitas noites, fico pensando em dezenas de fatos sem nexo antes de dormir. Me pego por horas na cama, tentando lembrar de grandes frases de começo de livros, jogos inesquecíveis de futebol de botão, melhores músicas dos anos 80, cenas da infância com meu irmão Alê, olhares e falas históricas da Viviane, horóscopos, conversas, piadas. Um pensamento puxa o outro e a insônia ganha território. Estava nessa situação lá pelas 2h da manhã, pensando numa piada de meu avô sobre a Segunda Guerra. Era uma piada daquelas que ninguém ri no final. Ou se ri é para agradar o velho, já que não era uma história propriamente engraçada. Ele contava que, na campanha da Itália, passaram dias de muita fome no inverno. Então, chegaram num vilarejo, cantis no chão, botas grudadas nos pés e começaram a falar desesperadamente: “Comida, prato, alimento, macarrão, frango...” E nenhum italiano entendia. Até que apareceu um sujeito e falou, mexendo as mãos em gestos incompreensíveis: “Fango, fango?!!”. E os pracinhas junto com o meu avô: “Isso! Frango, frango. Dove é frango? Dove io trova frango?” Aí, o italiano gesticulou que tinha frango no outro lado da montanha principal da cidade. O problema é que tinha muito alemão por lá. Nazista armado, com granada, pistola Lüger e tudo. Mas, naquela altura da guerra, a fome era maior do que o medo e os pracinhas atravessaram a montanha abrindo fogo. Tomaram contra-ataque de balas, morreu gente, uma confusão só. Ao chegar no outro lado da montanha, descobriram que lá não tinha frango, mas fango. Fango, em italiano, é lama. Morreu um monte de gente por causa de lama, dizia meu avô, meio que rindo com a boca, meio que marejando com os olhos. Eu estava bem no meio daquela “piada” no meu sonho, quando ouvi um estrondo: “Truuummmm”. Estranhei a artilharia na casa do meu avô, enquanto ele contava a piada e veio outros “Trumm, Trumm”. Então, estava num apartamento no Sudoeste e, finalmente, percebi. “Cara, é a estréia do Brasil!” Voei pelo quarto em direção à sala. Nem conferi o despertador que não tocara, ou, se tocara, não ouvi. Na sala, eu não sabia o que demorava mais: os olhos para desembaçar ou a imagem da TV para aparecer?! Quando a imagem veio, corri os olhos para o placar, já naquela modernidade quadriculada: “BRA 1 – TUR 1” e um “2” indicava o segundo tempo. Como pude perder o primeiro tempo?! Já está um a um! Já está na etapa final!! Pela janela, os gritos embaixo do bloco se misturavam com os rojões. Brasília amanhecia num clima apreensivo de Copa. Havíamos tomado o primeiro gol de um careca chamado Hasan Sas no final do primeiro tempo e foi preciso o empate do nosso careca Ronaldo pra eu, enfim, acordar. Ainda estava escuro e os jogadores turcos jogavam com raiva: o olhar sério, ombros e cotovelos sempre à mostra, deixavam os pés tocarem nas canelas do brasileiros. As divididas nunca estariam perdidas. Os turcos não deixavam ninguém avançar no território deles, enquanto os brasileiros diziam “Isso, frango! Frango!” em toques de determinada cordialidade de Juninhos e Ronaldos. Será que perderiamos a batalha ao amanhecer? Perderíamos, em meio a rojões embaixo do bloco, suspiros, frio e fome de quem acorda às 4h30 pronto para invadir o terreno inimigo? Enquanto o dia foi clareando, fui percebendo que não. Vi o Fenômeno combalido de guerra, com duas contusões nas costas (quer dizer, nos joelhos), chutar firme após um drible. O goleiro pegou o tiro e se levantou. Então, vi Rivaldo achar frango numa fresta na área adversária. A bola foi para o fundo das redes, mas o juiz anulou falando em claro coreano: “É fango! Lama! Barro! Fango!”. Com o seu bigodinho de autoridade, nosso comandante tirou três tenentes e pôs três soldados. Saiu o Gaúcho, o Juninho “então titular” Paulista e o Fenômeno. Vieram Denílson, Vampeta e Luizão. Desses três, o único que não entrou com olhar de soldado foi o Luizão. Ele chegou com a cara de “Vou decidir” e partiu rumo à montanha adversária. Se deslocou dos zagueiros e quando estava perto do frango, caiu na lama. Ora, o juiz coreano ou era cego, ou estava feliz com o Brasil na Coréia, com os agrados do Felipão às criancinhas de olhos puxados?! Dessa vez, ele apontou “Frango!” e expulsou um zagueiro turco. Rivaldo fez a mira com a perna esquerda e, não só fez o gol, como partiu para a encenação quando outro zagueiro turco chutou uma bola em seu joelho. De repente, a bola tinha atingido a cara de Rivaldo, numa quase fratura exposta. “Fango! Fango!” Outra expulsão de zagueiro turco e a vitória estava no papo. Tão falsa quanto o frango das montanhas italianas na Segunda Guerra, mas tão real quanto a fome dos pracinhas, a fome de vencer.
O TIME DO ESTUDIANTES ACABA DE CONFIRMAR O NOME DE DIEGO SIMEONE COMO SUCESSOR DO TÉCNICO BURRUCHAGA. É BOM OS JOGADORES TRICOLORES BENZEREM AS SUAS CANELAS, JOELHOS E OUTRAS PARTES SENSÍVEIS DO CORPO. Escrito por Ogro às 15h13
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Isto é por ou seja.
São Paulo e Palmeiras trocam jogadores. Lúcio vai para o Tricolor. Roger vai para o Palestra. Grandes bostas. Escrito por Demas às 00h02
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HOMENAGEM AO AMARAL - O OUTRO LADO
ENQUANTO A ESQUADRA DE BARCELONA SE SAGRAVA BICAMPEÃ EUROPÉIA, O SERTÃOZINHO E O GUARATINGUETÁ GARANTIAM OS SEUS PASSAPORTES PARA A PRIMEIRA DIVISÃO DO PAULISTÃO 2007. EITA FUTEBOL.
ACABOU. E foi um grande jogo. Daqueles que o fôlego falta. Meu prazo? Quase findo.
Mas não se esqueçam, no final de semana, Ferroviária, Santacruzense, XV de Jaú e São José disputam metro a metro a vaga para as finais da Série A2 do Paulistão. Emocionante.
Chove em Paris. O Arsenal é melhor. Mais efetivo. Mas perde gols que em final não se pode perder. E batata, Ronaldo sutil para Larson. Larson, o que perde gols, garçon. Leve toque que deixa o camaroês na cara do goleiro. Eto, firme, seguro e toque no canto, tirando o goleiro do lance. Empate. Jogaço.
Agora, o jogo que era amarelo ficou azul grená. E o Barcelona agora pressiona e não deixa nenhuma suspeita. Falta pouco para o gol.
Faltava. Beleti, calando a todos, a sala, o quarteirão, Barcelona inteira. Beleti é seleção. Tocou e foi buscar. Gol e virada.
Domínio catalão. Mas daqueles domínios que deixam suspeitas. Mas Ronaldo Gaúcho chama o jogo. Uma finta maravilhosa. Efetiva, lance de gol. 13 minutos.
Para mim o jogo é na diagonal. Na diagonal com a TV. O Arsenal parece tranquilo. Mas ainda não atacou. Há outro inglês, Cole. Joga bem, também. Entrou no Barça o sueco que perde gols incríveis, o Larson. Barça pressiona. Mas deixa suspeitas.
Enfim um ataque amarelo. Com chances. É o jogo. E que jogo.
38 minutos. Ou 37. Não importa. O retrato do jogo? Barça pressiona. Mas há um cheiro de travessura no ar. Bola esticada. Puyol não pega o de amarelo. Daqui não dá para saber quem era o amarelo. Falta.
E aí, Henry. Lançamento de basquete. Cruzamento para Campbell. No terceiro andar. Bola no canto. Pobre Valdes.
Campbell... belo zagueiro. O único inglês no jogo, se bobear.
Barça sentiu. Mas pouco. Continua melhor. Mas os contra ataques deixam Gaudí de cabelo em pé. Gaudí e cabelo? Sei lá, achei bonita a frase.
Jogaço. Puyol... sei não. 44 minutos. Jogão. E o prazo? Tá quase feito. Quase....
O jogo era de classificação e eu estava flagrantemente nervoso. Pensei em assistir a partida na minha nova “Tevesinha”. Era a última novidade do Free Shop. A mini TV media um dedo médio por um indicador. Era, portanto, um “fura bolo” por um “pai de todos” e pegava a imagem direitinho. Hoje, todo o bom taxista tem uma, mas, naquela época, a novidade era tão grande que deixávamos a TV grande de lado para assistir “Armação Ilimitada” na “Tevesinha”. Mesmo sem pegar as cores, dava pra ouvir as guitarras, ver o Juba, o Lula, a Zelda e o Bacana. Mas, foi o meu irmão Alê que me deu o toque que era jogo de Copa e o melhor era ver na TV grande pra pegar todos os lances. Então, preparei o meu lugar no chão, pois, nas outras duas partidas, deu azar sentar no sofá, e estava fazendo as contas pra ver qual seria o nosso adversário na próxima fase. Conclui, na leitura atenta à tabela da Copa dos postos Atlantic (aquela com o desenho do bonequinho de pimenta verde com sombrero), que seria perigosíssimo perder naquele dia. Segundo do grupo D pega o primeiro do E... A derrota nos levaria a enfrentar a Dinamarca, percebi. A Dinamáquina foi a equipe sensação da primeira fase depois de uma goleada imperdoável: 6 a 1 nos uruguaios, quando ganhou aquele apelido. Era a nova Holanda de 1974, diziam os comentaristas. Os uruguaios eram os atuais campeões da Copa América e representavam uma das maiores “carnes de pescoço” para a nossa seleção. Se a Dinamarca tinha metido 6 neles, imaginava quantos faria no Brasil que tinha vencido seus dois primeiros jogos por um mísero gol a zero. Para piorar, o adversário do dia vinha com um goleiraço. A televisão tinha falado mil coisas do tal do Pat Jennings: que era o recordista em participações pela seleção de seu país, que era o melhor goleiro britânico desde Gordon Banks (o que pegou a cabeçada do Pelé em 70), que tinha 40 anos como o Dino Zoff em 1982 e prometia pegar novas “cabeçadas do Oscar”. Eu assisti a todas aquelas entrevistas com o Pat na beira das piscinas dos hotéis mexicanos e fiquei apavorado. O Pat Jennings, para mim, era que nem o Du, o sujeito da escola que ia pro gol vestindo luvas (eu nem tinha chuteiras, quanto mais luvas) e anunciava: “Podem chutar que eu vou pegar todas”. O pior é que o Du cumpria a promessa, sempre batendo palmas entre imensos braços, dizendo: “É isso, aí! Eu falei que ia pegar!”. Consegui me acalmar um pouco quando a TV passou pela enésima vez aquele clipe da Gal Costa. O clipe mostrava os golaços de Pelé, Tostão e Jairzinho, 16 anos antes, no mesmo México, e dizia: “Vai começar de novo/ É novamente tempo de paixão”. Baita ufanismo em recentes tempos pós-militares. Confesso que adorava o “70 neles!” com a voz doce da Gal. Por outro lado, aquele jingle me deixava meio que numa crise de consciência. Eu sabia que o time não era tão bom, mas o jingle dizia que a gente seria campeão. Então, por que duvidar da Gal Costa? A verdade é que estava uma pilha quando o Brasil trocou os primeiros passes. Para disfarçar o nervosismo, olhava ora para a TV, ora para a tabela dos postos Atlantic. Só fiquei grudado na tela quando Muller fez um cruzamento impensável para o Careca marcar 1 a 0. O cruzamento foi mais bonito que o gol, um cruzamentaço que não saiu de graça. A zaga irlandesa pegou o Muller de jeito e ele ficou entre retornar ao jogo ou sair de vez. Ganhávamos, é claro, mas sempre tinha uma apreensão. O nervosismo voltou e os olhos novamente na tabela dos postos Atlantic, tão desviados que não vi outro lance impensável. Escutei o goool, como se tomasse um grito pelas costas, um choque. O locutor berrava como nunca e só no replay pude entender. Um chutaço de fora da área de um tal de Josimar encontrou Jennings voando para trás de braços abertos. A cabeça do goleiro voltou-se para o ângulo, como num espanto. A bola voou impiedosa para aquele ângulo e tínhamos um 2 a 0 pela primeira vez na Copa. Veio o intervalo e pensei em guardar a tabela da Copa no seu lugar, embaixo do meu travesseiro, mas continuei na TV, pois não poderia perder o replay daqueles gols por nada desse mundo. O primeiro fora um cruzamento milimétrico e o segundo foi o Du vencido, caindo para trás de braços abertos e todos nós rindo na aula de educação física, sensacional! Depois, fui saber que se tivesse subido para guardar a tabela no quarto, as conseqüências teriam sido terríveis. Fui saber disso depois, já que, no segundo tempo, era só festa. O Telê tirou o Muller e pôs o Casagrande: fogos dos corinthianos do bairro. Saiu o Careca para a volta do Zico em Copas: festa dos flamenguistas, pensei. O Careca fez mais um gol: fogos dos são-paulinos e do resto do bairro. Aqueles 3 a 0 foram o nosso início de Copa e tudo era só festa. Só festa, até que ouvi a minha mãe gritar lá de cima: “Ninguém sobe aqui nos quartos!”
Naquela época, morávamos num sobrado de muretas baixas na Vila Madalena, muretas essas que batiam na cintura, comuns em tempos pré-seqüestros-relâmpagos, cercas elétricas e mega-crime organizado. Na hora, sabia que a ordem da mãe era séria, mas o primeiro impulso foi desobedecer. É claro que meu irmão mais velho foi mais esperto e desobedeceu primeiro do que eu para logo em seguida gritar num tom de alerta: “Ninguém sobe aqui em cima!” Escutei então um telefonema para a polícia. “É, vocês poderiam mandar uma viatura para cá. A rua é ...” Enquanto ouvia o nosso endereço, veio um misto de tristeza com apreensão. Quando a viatura chegou, todos subiram, menos eu e meu irmão mais novo, o Pipo. Então, os guardas desceram para a sala e, enquanto minha mãe respondia a uma série infinita de perguntas, aproveitei para desobedecê-la. Vi pela fresta da porta que ela respondia aos guardas e subi sem fazer barulho para os quartos. Fiquei mais perplexo do que quando tomei o susto do locutor no gol do Josimar. Parecia que tinham ligado um imenso ventilador no quarto da minha mãe. Era papel e roupa pra tudo o que é lado, as gavetas reviradas, os móveis removidos, armários abertos. Era tanta bagunça que eu nem via o chão. Então, passei pelo quarto do meu irmão Alê e vi gotas de sangue na janela. Sangue naquele quarto em que jogávamos Atari era algo totalmente fora do contexto. Sangue onde jogávamos River Raid, sangue perto das revistas “Chiclete com Banana”, na mesinha onde desmontávamos Transformers. As gotas eram pequenas, mas meio volumosas, o que espantava ainda mais. No meu quarto, pouca bagunça, mas os armários revirados mostravam que alguém totalmente indesejado havia passado por lá. Desci assustado e minha mãe falou, ao lado dos policiais, para conferirmos se havia alguma coisa faltando nos quartos. O Pipo foi logo conferir os seus brinquedos, mas não haviam mexido muito nas coisas dele, não. Foi então que dei por falta de um canivete que usava no acampamento de férias. O canivete, o sangue, um trombadinha pulando a janela... As coisas começavam a se juntar, quando dei por mim que se tivesse subido no intervalo para guardar a tabela dos postos Atlantic a história poderia ter sido bem pior. Quando pensei aquilo, vivi um novo susto. O coração acelerou, os olhos abriram. E, logo, depois, veio outro susto, quando o meu irmão Alê gritou: “Está faltando a Tevesinha. Levaram a Tevesinha!” Naquela noite, fomos dormir nos sentindo a única família triste numa cidade, então, feliz. Ouvi no rádio a festa que faziam na Paulista e mudei para uma estação de música. Na manhã seguinte, meu pai veio me acordar. Ele começou falando que o acontecimento tinha sido muito chato, mas que, agora, estava tudo bem. “Vou comprar uma nova Tevesinha pra vocês”, prometeu. No fundo, sabíamos que havíamos perdido algo muito mais importante naquele dia.
Saiu a lista do Parreira. Descer a ripa, profissão. Mas, a lista foi coerente. O professor chamou quem sempre chamara. Não chamou os que dependeriam do departamento médico. Enfim, Parreira é assim.
Mas há injustiçados? Há, sempre há. E como listas são sempre fundamentais, quais os cinco maiores injustiçados? Pergunto e dou resposta:
1. O Alex turco, que foi o capitão na Copa América. A mesma Copa que escalou o Júlio César e definiu o Adriano.
2. O Alex holandês, que pela bola que joga merecia vaga. Mas o Parreira quase nunca o chamou. Isso diminui a injustiça.
3. O Mineiro. Não precisa explicar, né? Mas, verdade seja dita, só uma única vez Parreira o convocou...
4. O Júnior. Sou são-paulino. Preciso explicar?
5. O Roque. Sim, porque este aí foi convocado todas as vezes. Todas as vezes foi criticado. Eu não queria ele no time. Mas o Parreira, queria. E, argumento irrefutável: O Roque deu uns cascudos verbais no Galvão Bueno. Convenhamos, é importante.
Dizem que o coração da cidade é de concreto. De tanto cinza, o colorido ficou esquecido. Muitos afirmam ser impossível um bom dia, um boa noite e um não tem de quê. Mas a verdade é que a cidade é um guarda chuva. Por causa da garoa, marca definitiva. Mas porque a todos tenta, de uma forma ou de outra, proteger.
A cidade que não dorme. Respiramos o pó e o cinza. De novo esta cor, a cor da cidade. A cor que mais parece a própria cidade, definição. Segunda feira foi o dia de caos na cidade. Muito pela boataria, quase tão cruel quanto a covardia. A covardia dos ataques aos policiais. A covardia na insistência em nada fazer para diminuir o fosso da cidade. Que é o fosso do país. Cinza. Como poucas cores. Um dia a cidade amanhece assim, apavorada. A guerra escondida, que mata todos os dias, da surdina, parou o noticiário. Sensacionalista e irresponsável, muito. Mas noutras expondo a ferida, mostrando a chaga. Cinza. E o vermelho, rubro. Do sangue, mas da vergonha.
Metralharam carros. Queimaram ônibus. A cidade parou. E o imenso guarda chuva quase ruiu, por causa das lágrimas. Hoje, terça, a vida ainda é outra. Mas, de novo, cinza. Estranha essa sensação de gostar do cinza. Não pelo cinza, mas por ser mistura. Ainda que de brancos e pretos, ainda bem. Aqui muito de hipocrisia, mas em nenhum outro lugar pode-se andar sem ser notado. A imensa cidade, que não nota, mas que não pede em troca. Mas que também deixa incógnito quem assim quer ser. A dor é imensa. Mas passa. Por aqui, sempre passa.
Cinza. A cor desbotada. Da grama mal cuidada do jardim. Das estátuas sujas. Não há lugar, entretanto, como esta cidade. A nossa cidade, cinza. Mas um imenso guarda chuva. Concreto, pode ser. Cinza, sim. Não há lugar como a terra da gente. Queiram eles mudar, queiram eles comprar ou corromper. Igual a cidade, não há. Cinza. De novo esta cor. A nossa cor. De todos os dias. Não teve futebol na noite de ontem. Não teve tampinha de garrafa, bola de meia, capotão e nada. Mas a bola, Bolonistas, a mais bonita das bolas, é sempre a cinza. Sempre. Que não é mais a branca, pois já usada, surrada, chutada. Amada. E não é de outra cor, porque a cidade não deixa. Um imenso guarda chuva.
Estava conversando com o Chico pelo telefone quando a minha mãe entrou no quarto meio esbaforida e, sem muitas explicações, disse, seca: “Seu primo Marco morreu. Desça pra conversar com a família”. Às vezes, tenho reações meio bestas a notícias inesperadas. Acho que eu demoro um pouco para me dar conta, sei lá. Quando meu irmão me contou que meu avô tinha morrido, a primeira coisa que falei pra ele foi: “Então, preciso adiar minha volta à Brasília”. Foi algo completamente imbecil de se dizer naquela hora. Meu avô já estava nas últimas, com câncer, desacordado. Mas, ao invés de abraçar meu irmão, me veio essa reação estúpida de adiar um vôo imediatamente para ir ao enterro de meu avô. Algo bem estúpido e inexplicável. O fato é que, naquela noite, continuei conversando com o Chico por uns dois minutos. Combinávamos de assistir ao jogo no dia seguinte, discutíamos escalações, as contusões italianas. Então, foi ele que me deu o toque: “Cara, é melhor você ver o que aconteceu”. Procurei minha mãe pela casa e, só numa segunda vez, percebi que a situação era grave, séria, triste. Minha função passou a ser a de informar a todos da família que chegavam em casa que meu primo havia morrido. Naquela noite, véspera de final da Copa, haveria uma festa na minha casa. Era aniversário de uma tia e toda a família iria para lá. Mas, naquela noite, meu primo, então, com 24 anos, tomou uns tiros nas costas, num assalto, e caiu no asfalto. Levado para o hospital, perdeu muito sangue. Eu fiquei na porta de casa, esperando os parentes. Quando contava a droga da história, uns punham a mão na cabeça, outros ficavam estáticos, sem saber o que falar, algumas tias e primas se sentaram no chão antes mesmo de entrar em casa, na calçada mesmo, num ímpeto de desespero, falta de ar e indignação. No dia seguinte, fui, na hora do jogo para um cemitério na zona Leste. Não vou me lembrar o nome do cemitério, mas tinha uma faixa lá perto escrito “Arthur Friedenreich”. Não sei se era o nome do cemitério ou de um clube próximo, mas aquela faixa me marcou, talvez porque era final de Copa e eu estava num evento triste num local com nome de um antigo jogador. Então, vi meu primo e acho que foi a primeira vez em que vi alguém da minha idade num estado daqueles. Vi meu primo e minha tia Mariana chorando desesperadamente ao lado dele. Lembrei-me, então, das várias vezes em que conversamos, de um dia em que roubamos um pote inteiro de Leite Condensado da despensa da minha avó, de um feriado em que passei na casa dele, na zona Leste. Foram cinco dias ouvindo Heavy Metal, falando das meninas que iam no acampamento de férias da minha mãe, comendo os doces da tia Mariana. Meu primo era corinthiano e sobre isso não havia discussão. Aliás, acho que todos no bairro dele eram corinthianos. Isso ocorre em vários lugares de São Paulo. O Corinthians tem cidades inteiras de torcedores. São bairros de uns 200 mil habitantes nos quais todos torcem para o timão. Com meu primo Marco não foi diferente, apesar de a família dele ser italiana e boa parte dela de palmeirenses. Lembro-me que tinhamos que ficar espertos para sair nas ruas da zona Leste. As tias ficavam em cima e perguntavam onde íamos, com quem, etc. Em São Paulo, você tem que prestar muita a atenção para atravessar a rua, qualquer rua. Acho que meu primo ensinou a gente sobre isso, afinal, eu morava num bairro calmo na zona Oeste. Mas, meu primo, naquele dia, não poderia me ensinar mais nada e aquilo foi me entristecendo muito. Mais ainda depois que me despedi dele e, ao sair para tomar um ar, vi as irmãs dele chorando desesperadamente. Vi que ele não ensinaria mais nada às irmãs e tentei me aproximar, mas elas estavam rodeadas de gente numa espécie de tentativa de super-proteção das pessoas nessas horas, então saí. Não sei dizer quando o jogo começou, mas no silêncio da cidade, quebrado por choros contidos e tiros de rojão, esqueci completamente que era final de Copa. Só os tiros de rojão me lembravam daquilo e de que meu primo nasceu em 1970 dias após a Copa do México. Agora, ia embora, um dia antes de outra final. Ele não viu o Brasil ser campeão do mundo, pensei para, logo depois, entender que a dimensão daquele fato era ínfima. Na volta para casa, ligamos o rádio do carro na tentativa de tirar o ar pesado que pairava. Alguém entendeu que o jogo estava 1 a 0, mas errou. O jogo estava no empate, sem gols. Então, chegamos em casa e, enquanto todos subiram para o jogo, pois o ar continuava pesado demais, fui para o meu piano. É um reflexo que tenho: quando a situação fica triste, pesadíssima, toco algumas notas para ver se encontro um eixo. Não vou me lembrar do que toquei naquele dia, mas, logo nas primeiras notas, todos vieram para perto e falaram algo do tipo: “Isso, Ju. Toca piano. Isso!” Depois, subi para o fim do jogo e, para minha surpresa, o Carone estava em casa. Esqueci que tinha combinado de ver o jogo com ele. Quando chegou, ele soube da notícia e acho que ficou com vergonha. Foi para o sotão e ligou a TV quase no mínimo. “Carone, você é um sem noção!”, eu disse, meio irônico. Então, ele respondeu, constrangido, que o Brasil não conseguia furar a defesa italiana. Chamamos ele pra ver o jogo na TV de baixo, mas, com vergolha e nervosíssimo com o jogo, não quis. O Carone era um daqueles caras que pôs adesivo com desenho de burro e a foto do Parreira no carro e, naquela altura dos acontecimentos, ficava em dúvida se deveria torcer contra ou a favor. Quando o Parreira pôs o Viola no segundo tempo da prorrogação, soltaram uns fogos perto de casa. É como eu disse, todos os bairros de São Paulo estão cheios de corinthianos. E, naquela hora, torci desesperadamente para um gol do Viola. Quem sabe, aquele gol tirava um pouco da minha tristeza, da nossa tristeza. O Romário perdeu um gol feito num cruzamento do Cafu e eu pensei: “Puxa, Marco! Que droga!” Os gols, de verdade, só vieram nos pênaltis. Se é que gol de verdade vem em pênaltis, ora?! Estranho, mas quando chegou a disputa de pênaltis, eu sabia que iríamos ganhar. Sabia que o Taffarel pegaria algum, como pegou numa Olimpíada em que jogou o mesmo Romário. Então, ganhamos e, enquanto a cidade inteira comemorava, eu olhei pela janela em direção ao céu: “Puxa, será que nunca ficarei feliz depois de um Brasil e Itália?!” E fui dormir com os fatos entalados na garganta, onde até hoje estão.
Acabo de voltar de São Paulo. Decretaram toque de recolher no meu bairro de infância. A cidade está triste; nada lembra Copa. Não há muros decorados e não é por falta de tinta. Para mim, a Copa do Mundo acabou. Escrito por Luís às 15h31
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67 nomes.
Já revelei aqui em nosso diário que, para mim, 2006 ou será 1970 ou será 1982. Ou encanta e ganha ou encanta e perde. Não há outra alternativa.
Como curiosidade, agora que Parreira revelou seus escolhidos, aqui estão todos os que importam e suas numerações:
Era o evento do ano até aqui. O Brasil faria a sua estréia na Copa e, como não haviam lançado o filme ET, nem a playboy da Xuxa (aquela em que ela aparece ao lado da irmã Maruska), poderíamos dizer, com todas as letras, que era o evento do ano. A escola inteira se preparou, as crianças acordaram de camisa amarela e aquele símbolo com um “C”, um “B” e um “F” e a figurinha da Taça no meio. A Taça era nossa e seria novamente nossa no final da Copa. Disso, estávamos certo. O legal, então, seria ver os gols, as jogadas geniais, aquela Copa seria de diversão, de arrasa adversários e não faltariam amigos e pipocas pra ver os jogos. Fomos para a casa do Leco, na saída da escola, onde tudo estaria pronto. O Leco foi o amigo com quem eu dividi o álbum das figurinhas Ping-Pong. Acabei concordando em deixar o álbum com ele por alguns motivos. Primeiro, ele tinha feito um golaço na abertura dos jogos da hora do recreio. Ele pegou de bicicleta uma bola no meio do campo. Incrível. Já eu, jogava de zagueiro desde o dia em que cometi a burrada de chegar de chinelos no dia do futebol. Todo mundo veio tirar um sarro. “Cadê o seu Kichute, cara?!” “De chinelos vai jogar lá atrás!” Me lasquei por causa daqueles chinelos. Que burrada! Que burrada! Nunca mais vi o álbum, mas não me arrependo, pois o Leco era um cara legal, e esse foi o segundo e derradeiro motivo pelo qual concordei em deixar o álbum com ele, após ter mascado uns 437 chicletes pra arrumar as figurinhas. Chegamos na casa dele e nos enfileiramos na beira do sofá pra ver o jogo. Vocês sabem: criança não senta no sofá, mas usa o sofá de encosto porque sentar no chão, quando se tem 9 anos, é muito melhor. Então, sentei eu e, dois lugares ao lado, a garotinha loira que eu gostava. A garotinha loira era a mais bonita da escola. Quando eu topava com ela, o mundo todo parava, inclusive as brincadeiras de pega-beijo. Cheguei a trombar feio com um garoto porque, fugindo de um “pega-beijo”, vi a garotinha loira e me distrai completamente. Acordei no chão, meio ensanguentado, com as tias me carregando para a Sala dos Professores e, mesmo doído (o lábio cortado), pude ver a garotinha loira preocupada andando atrás das tias que me levavam. Era ela quem eu gostava, mas não poderia falar isso pra ninguém porque morreria de vergonha. Como admitir que gostava de uma garotinha pra os amigos de pebolim, bafo, bombinhas e futebol. Lembro-me que, um dia, estava jogando pebolim, aí a garotinha loira chegou e me distrai completamente. Tomei um gol bobo e o pessoal começou: “Tá namorando...!” Aquilo me deu muita vergonha, então, procurei disfarçar quando a garotinha loira sentou-se dois lugares ao meu lado. O Leco estava ajeitando o som – era comum naquela época tirarem o som da televisão e colocarem o rádio e isso era o que ele fazia – quando, de repente, notei claramente que a garotinha loira estava de shorts. “Caramba, que gata!”, pensei bem baixinho para ninguém ouvir. Som ajustado, o jogo começou e o resto da turma cantava goleada. Os placares eram todos de vitórias nossas e só apostavam as figurinhas Ping-Pong pra ver quem faria o primeiro gol do Brasil. Mas, veio o chute do sujeito de vermelho e o frangaço do Valdir Peres. Fiquei fulo da vida porque o Valdir Peres era do meu time. Ainda bem que a garotinha loira também era são-paulina, pensei. E o resto do primeiro tempo foi aquele sufoco: o Brasil não conseguia empatar e eu tentando desesperadamente esconder que gostava da garotinha loira. Que sufoco! Então, veio o intervalo e a turma foi na cozinha pegar pipoca e refrigerante. Eu ameacei ir, mas não fui para não dar bandeira. Naquele momento, me lembrei que tinha passado apuros parecidos. Numa noite, estava na casa dos pais da garotinha loira e meus pais conversavam com os dela, tomando chá ou uísque, sei lá. Aí a garotinha loira entrou na sala e os adultos ficaram fazendo perguntas difíceis: “Você e o Ju estão namorando firme ou é só amizade?” Cara, como é que os adultos ficam fazendo essas perguntas?!! Lembro-me que quase caí na armadilha daquela sala. Eu estava entrando, quando ouvi as perguntas e, logo, parei. Fiquei ouvindo tudo escondido atrás da parede. E ela inventou alguma desculpa pra ir embora, com razão. Mas, fiquei contente também por ver, naquela timidez dela, que ela também gostava de mim. Afinal, ela não tinha falado nada do tipo: “Eu não namoro ele”, “Eu não gosto dele!” Fiquei feliz pra caramba com aquilo. Então, voltamos para o segundo tempo do jogo e me sentei, dessa vez, apenas um lugar longe dela. Não vou me lembrar nunca da pessoa que ficou entre a gente, até porque não estava dando qualquer atenção para qualquer outra pessoa. Eu só olhava – com todo o cuidado para ninguém perceber – para a garotinha loira, seu olhos claros, nariz e lábios finos, voz atratativamente rouca. Eu estava tão preocupado com aquilo que não reparei quando Eder acertou um chutaço: Brasil 1 a 1. Ela pulou de alegria junto com mais uma porção de crianças. E eu pulei também, ora bolas, mas só para disfarçar porque definitivamente não estava conseguindo me concentrar no jogo. Depois, veio um corta luz maravilhoso na defesa soviética e o Sócrates acertou um chute tão espetacular quanto o de Eder. Viramos o jogo e, agora, até eu me distraía da garotinha loira e focava as atenções na televisão. Quando o juiz deu o apito final, pensei que teria mais uns minutos pra ficar perto da garotinha loira até a mãe buscar a gente. Ficamos, sim, por mais um tempo na casa do Leco e, enquanto todos só falavam e brincavam de futebol, a minha mente ia para outro lugar entre os olhos dela e o meu coração.
Não havia nenhuma razão para ficar nervoso antes daquele jogo. O adversário era bem inferior e, se nenhum raio caísse, ganharíamos até de goleada. O duro era assistir a uma partida de Copa sozinho. Sozinho, digo eu, não em casa. Sozinho num hotel, sozinho numa cidade, estrangeiro em pleno sábado de Copa. Acordei no horário certo para pegar o café. O café, aliás, era uma atração. Não, não era a comida espetacular. A comida era aquela de sempre: frios de ontem, pão um pouco amassado, iogurtes na tigela de gelo, etc. A atração era o restaurante do hotel. Se vocês nunca foram ao 17º andar do Eron Hotel, perto da Torre de TV de Brasília, sugiro uma passadinha. O restaurante panorâmico é recheado de fotos das pessoas famosas que já passaram por lá. Perto do elevador está o Ayrton Senna, a Xuxa e o Pelé. O Tarcísio Meira e a Glória Menezes ficam próximos da mesa de frios. Os presidentes militares estão meio escondidos atrás das mesas do fundo. O rei Roberto Carlos tem uma foto de destaque. Collor e a dentuça Rosane (aquela do “PC pagou sua calcinha”) estão em fotos ampliadas. Tomar café no Eron é como estar dentro de uma grande revista Caras, mas numa Caras de vinte anos atrás, pois as fotos estão bem envelhecidas. A do Pelé, por exemplo, tem aquele colarinho comprido dos anos 70, ridículo. Voltei pro quarto e fiquei zapeando, em busca de pré-mesas-redondas. Que merda ficar sozinho em jogo de Copa. Era eu naquela cama com os lençóis prensados embaixo do colchão (nunca entendi porque grudam os lencóis de hotéis nos colchões), aquela mesinha besta com duas cadeiras onde eu nunca sentava, o ar condicionado fazendo “Zruuum”, a TV pregada na parede perto do teto, o frigobar (onde eu resistia a comer as batatas Pringles, pois eram o dobro do preço das Lojas Americanas) e um espelho idiota pra eu ficar olhando pra minha cara desolada de solidão em dia de Copa. Nada de amigos. Nada do Léo chegando nervoso com uma caixa de cervejas, do Chico lendo as escalações no jornal e visualizando os esquemas táticos, do Carone discutindo regras de futebol de botão. Das piadas pra afastar o nervosismo. Me lembrei de uma tirada meio besta da Copa anterior. Era o jogo contra os holandeses e o Branco foi bater a falta. Ninguém se lembra, mas, antes de ele bater o Parreira pôs o Raí em campo. Aí, o Branco bateu e fez o gol. Não resisti ao comentário clubístico: “Foi só por o Raí para o Brasil marcar”. Na hora, todo mundo riu porque o Raí nem tinha tocado na bola, ele só entrou e viu o Branco bater a falta, nem o desvio de costas pra bola que o Romário deu, ele fez. O Raí, é verdade não estava jogando nada naquela Copa, até porque o Parreira ficava gritando pra ele voltar e ajudar na marcação, mas enfim fiquei rindo sozinho daquela piada besta, pois não tinha mais ninguém pra assistir a Copa comigo. Então, peguei uma folha de papel do Eron Hotel, uma canetinha do Eron Hotel (todo hotel tem essa mania de personalizar pequenas banalidades) e comecei a escrever os locais onde assisti aos jogos das Copas anteriores. Não sei se vocês sabem, mas sou capaz de me lembrar onde assisti a cada jogo de Copa. Também me lembro onde passei todas as viradas de ano desde 1980. E das melhores finais de Copas de Futebol de Botão. O jogo contra a Nova Zelândia, em 1982, eu vi na Granja Viana. Contra a Costa Rica, em 1990, eu estava em casa, na Vila Madalena, com amigos do colegial. O reveillon de 1985 para 86 eu passei na Praia Grande, em Santos, e todos se assustaram quando uma rolha de champagne atingiu o olho do tio Sérgio. Ele caiu no chão de dor, bem na hora da virada, e todos acharam que era um pedaço de rojão e que ele ficaria cego. Mas, nada de grave aconteceu e tudo virou piada. A final da Copa de Botão de 1992 terminou em 3 a 1 para a Alemanha contra a Holanda e o segundo gol alemão (o da virada) foi olímpico. Poucos sabem, mas é possível fazer gols olímpicos na mesa de Botão. Se você pegar o efeito direitinho, você consegue. Também me lembro de curiosidades culturais meio infames, como mês e ano de playboys históricas. A Maria Zilda saiu em agosto de 1985 numa edição especial de aniversário (a melhor foto era ela em cima de um coqueiro na horizontal).
Fiquei recordando imbecilidades históricas para passar o tempo até o jogo começar. E quando começou, vi que seria bába. Fizemos dois gols seguidos, curiosamente marcados pelo volante Cesar Sampaio. Aí, comecei a achar que o Ronaldo (até então, com um golzinho na Copa) se daria mal. Lembro-me de um quadro do Casseta e Planeta em que o Ronaldinho chegava em casa e encontrava e Suzane Werner na cama com outro. Aí, ele falava: “César Sampaio, você?!” A sensação era mais ou menos essa. O Brasil inteiro sentia que o Fenômeno precisava deslanchar. Em resposta, ele aproveitou a fraca zaga chilena e fez dois gols. Quatro a zero. Depois, virou quatro a um, quando o Zamorano aproveitou-se de uma indecisão na nossa defesa e comemorou como se fosse título. O jogo acabou e não havia ninguém para conversar. Pior do que isso: Brasília é mesmo deserta nos finais de semana. A Esplanada fica vazia que nem cenário de faroeste. Mesmo assim, resolvi sair do hotel pra respirar um pouco. Desci perto do Brasília Shopping (aquele que parece uma bunda e que tem três dedos apontados para o prédio do Luiz Estêvão, numa clara provocação satírico-política, reparem só) e fiz a 16ª volta em torno da Praça de Alimentação em menos de dois dias. “Será que como alguma coisa, ou compro um livro pra passar o tempo?” Depois, fiquei olhando em direção à Asa Norte, me perguntando: “Tem vida aí?!” É claro que tinha. O que eu queria saber, na verdade, era se eu conseguiria montar uma vida naquela cidade. Na época, eu tinha só uma mala num quarto de hotel. Nada mais. Não havia adquirido nem as maiores companheiras daquele primeiro ano em Brasília: Sônia (um aparelho de TV Sony), a Judith (geladeira que comprei depois que passaram a cobrar covert artístico no Schloss) e Magnólia (tábua de passar que usava vez em quando). O pessoal do trabalho ainda me sacaneava com a piada besta de que eu tinha arrumado uma namorada argentina em Brasília, a Palmita Della Mano. Ora, vão tomar café no Eron, seus bostas!!
Com a proximidade da Copa, ao analisarmos a convocação das seleções, percebemos a contribuição de times esdrúxulos para os elencos. Pois bem, a seleção de Gana convocou o jogador Habib Mohhamed, do time King Faisal Babies. O símbolo dos gatinhos do Rei Faisal é este....
A logística da minha mãe nos deixou pra ver o jogo na casa da avó na Vila Mariana. A Vila Mariana, na época, era um bairro cheio de casas baixas, perto de igrejas, muita gente andava a pé. A minha avó pegava a gente e levava até a estação Ana Rosa. De lá, descíamos no Centro, e, na antiga loja do Mappin, em frente ao Teatro Municipal chegávamos ao nosso destino. Ela parava a gente na frente do “stand” de playmobils: “Cada um escolhe uma caixa”. Vó é a melhor coisa do mundo mesmo. Voltávamos felizes da vida para a Vila Mariana. As casas tinham quintais grandes e muretas pequenas. É sério! Naquela época, São Paulo tinha várias casas com muretas pequenas, na altura da cintura, dessas que se pode pular com um pé só. Assalto era coisa pra vândalos, meio que raridade. Acho que foi por causa das muretas pequenas que a filha da vizinha viu a gente jogando bola no quintal. Então, ela chegou com aquela carinha de que queria fazer amigos e a mãe da vizinha falou pra minha avó: “Os meninos não querem ver o jogo lá em casa?” Convite feito, nem respondemos. Afinal, naquela idade a gente não responde nada. A vó respondeu pra gente e, minutos depois, estávamos na casa da vizinha (que não me lembro o nome - desculpe, antiga vizinha da minha avó) para o grande jogo. A sala do jogo, vou te contar, era coisa pra adulto. Tinha copos pra todo o lado, fumaça de cigarro e um bando de sujeitos engravatados arregaçando as mangas, falando alto, cuspindo pelos bigodes. Aliás, além dos bigodes, no começo dos anos 80, ainda se usava aqueles cabelos meio ridículos pendendo para os ombros, costeletas e camisas coloridas. A sala era assim meio assustadora. E o nervosismo era imenso. Ganhamos nossa tigela de pipoca e guaraná, e uns pedidos de silêncio. “Agora, vocês fiquem quietos que o papai está nervoso e quer ver o jogo.” Foi um alerta importante da mãe da vizinha. A vizinha tinha a nossa idade, mas o resto. “Por que essas crianças não vão brincar lá fora?”, disse um bigodudo. “Eles querem ver o jogo”, respondeu a mãe, defendendo a gente com a voz fina e delicada. Então, começaram a rir alto e falar coisas que não entendíamos. Houve alguma discussão entre a mãe e o pai da vizinha, ao final da qual ela nos mandou para um quarto, com um Aquaplay para cada um. Ora, quem é que queria Aquaplay? Meu irmão protestou com razão e eu fui no embalo. Então, a filha da vizinha começou a pular no quarto. Pulou tanto que o pai abriu a porta e nos disse: “Quietos!” Ficamos dois segundos quietos para pular novamente. A gente sabia que estava fazendo coisa errada, mas foda-se. Pulamos várias vezes até ouvirmos: “Goooool!” Corremos para a sala e tinha um monte de tio feio se abraçando. Ouvimos uns palavrões e eu ri quando um deles berrou com as veias do pescoço saltadas: “Puuuta que o pariiiu!! Toooma, seus argentinos de merda!!” E tinha outro sujeito que segurava um copo e um cigarro numa mão e na outra ele dava socos para o alto: “Tomar no cú, seus filhos da puta! Tomar no cúuuuu!!” Aí, o pai da vizinha voltou a falar pra gente ir para o quarto, mas, agora, muito mais exaltado. “Eu só quero ver quem fez o gol, pai”, ela disse. “Foi o Zico! Mas não dá pra vocês ficarem aqui”, continuou ele, olhando pra mãe. A mãe veio pro nosso lado rapidinho: “Vamos pro quarto. Já pro quarto!” Fiquei puto com aquilo. Todos ficamos. A vizinha quase chorou. Descemos de novo para a sala no intervalo e pedimos pra ver, ao menos, o replay do gol. “Mas, no jogo vocês vão para o quarto.” Aquilo foi a gota d´água. A filha da vizinha, que era uma garota bem legal, bonitinha e valente, começou a discutir com o pai. Gritou com ele e, dessa vez, chorou. Eu e o meu irmão ficamos calados, olhando tudo, meio estarrecidos. Ao final da discussão, ela saiu gritando de tristeza, batendo o pé em direção ao quarto e a gente foi atrás em solidariedade. Ficamos um tempo no quarto com ela, os Aquaplays no chão, até que o pai abriu a porta. Pensei que ele iria dar um novo esporro, mas o cara tava totalmente diferente. Ele chamou ela pelo nome (caramba, como pude esquecer o nome dela!) e pediu desculpas. Disse que ela poderia ver o jogo na sala e que os amiguinhos também. No meio da conversa, ouvimos mais um “Gooool” vindo da sala. Mas, dessa vez, não teve palavrões depois. Lembro dessa história dos palavrãos porque achava aquilo bem engraçado, principalmente depois de aprender a piada do “urubu tem pena no pé”. Enfim, veio o gol e o pai da vizinha ameaçou olhar para o lado e correr pra sala, mas voltou-se de novo pra ela e pediu desculpas outra vez. Então, ele voltou com a gente para a sala, onde dois bigodudos nos deram espaço na poltrona da frente. Sentamos com nossas pipocas e guaranás e vimos o terceiro gol do Brasil. “Juuunior, assina aí, garotinho, que o gol é seu!” O Junior sambou e esperamos pelo quarto gol, mas foi o Ramon Diaz que fez para a Argentina, droga! Então, o Maradona derrubou o Batista e foi expulso. Risadas na sala. “Essa é por 78”, alguém gritou e eu não entendi nada. 1978 era no outro século, caramba! Então, o juiz apitou e nos deu a senha para voltar a chutar bola no quintal da avó. Outros meninos da rua apareceram e dividimos times. Achei que iriam me deixar ser o Serginho, mas como ele fez gol naquele jogo, fiquei de Oscar defendendo o gol formado por dois bancos de madeira. No revezamento, consegui ser o Sócrates, mas, aí, alguém fez gol rápido demais e fui o Falcão. Também fui o Cerezo, mas não me lembro de terem me deixado ser o Zico. Jogamos bola até depois de anoitecer. Anos depois, saí do metro Ana Rosa rumo ao Fórum da Vila Mariana. Engravatado, desci a rua da igreja e o tempo começou a voltar pra trás. Passei pela casa que era da minha avó e só vi um prédio grande e chapado de branco. O porteiro ficava onde a gente montava barraquinha e a garagem estava no lugar das casas de passarinhos do vovô. Tinha um elevador onde fazíamos corridas de tartaruga na Páscoa. Aquelas corridas em que se amarram mini-ovos de chocolate com durex nas costas das tartaruguinhas e aí fica se enchendo a paciência delas pra andarem logo. É meio ridículo mandar tartaruga andar logo, mas a brincadeira valia. Olhei aquele prédio de um lado e do outro a casa da vizinha. A casa resistia, pensei. Estava lá o sobradinho e a janela da sala de onde vimos Brasil 3, Argentina 1. Mas, o Brasil, naquele dia já era tetra. Tetra sem Zico, Sócrates e Falcão. E Maradona, o expulso, tinha ganho a sua Copa. Ahh, que saudades de 1982!
Não. Mil vezes não. Estava com o Deco, eram doze ou treze canecas. Não era fastio. Não era. Era constatação. Cruel. Aquilo era Copa do Mundo e no mundo de Falcão, Heleno de Freitas e Bruno Conti quem dá as cartas, de fato, é o Eurico Miranda. Lixo. É verdade que a cerveja alemã aguçou a mente. E o papo descalibrou, esquecemos do sonho e lembramos dos idiotas. Idiotas “espertos”, malandrões. Ricardo Teixeira, salvo ledo engano, é do Comitê de Arbitragem da Copa do Mundo. Entendam o que escrevo, comitê de arbitragem.
Essa discussão toda nasceu em razão da peleja entre Suécia e Alemanha. Estávamos encantados com a Suécia na Copa. Não que fosse um time dos sonhos, algo para marcar época. Mas a torcida sueca era, de fato e de verdade, um espetáculo. Brincavam o tempo todo. Grandalhões, sisudos, mas prontos para cantos alegres. E os jogos da primeira fase do time azul foram os jogos de um time equilibrado. Talvez o esquadrão mais equilibrado até então. Do outro lado, os anfitriões. A Alemanha que chegou na segunda fase graças ao apito. Os donos da casa. Os tricampeões do mundo. Os organizadores do certame.
Quais eram, realmente, as chances da seleção sueca? Poucas. Pouquíssimas. Quantos interesses comerciais estavam em jogo na partida de Sttutgart? Quanto de recursos públicos os germânicos não perderiam com a precoce eliminação alemã? E os recursos privados, estariam fadados e na privada? A quem interessava a teuto desclassificação? Como a estima do povo alemão ficaria com uma eliminação singela do time três vezes ganhador da maior láurea nas oitavas da Copa do Mundo?
A cerveja explicou o que não queríamos enxergar. Ainda moleques, mas já com trinta anos ou mais, casados e trabalhadores preocupados com nossos rendimentos. Mas querendo um pouco da sadia molecagem dos álbuns de bafo, dos jogos de botão e do nosso lindo diário eletrônico.As marcas de material esportivo e os gigantes painéis publicitários. Até nos porta-copos da taberna a alusão a algum tipo de negócio na Copa do Mundo. A Copa é um negócio, como qualquer outro. E lembrei do meu irmão Edu me explicando que negócio é a negação do ócio, lá na raiz da palavra. E o negócio não poderia ser colocado em risco. Eram só as oitavas de final.
A bebedeira e a constatação me fizeram caminhar lentamente para o jogo. Sttutgart recebia o jogo. E era festa. Uma festa aparente. Os torcedores alemães felizes, ressabiados com o time, porém. Os suecos, o de sempre. Será que esses de azul sabem da impossibilidade? Pergunta que ficou no ar. Atravessei a barreira policial e entrei no estádio. A barreira policial também estava ali, como a repisar o negócio, no medo dos ataques terroristas, no medo dos famintos, no medo.
Mas o barulho era ensurdecedor. A torcida azul e seu time de Svensons. Não acreditei. Ou melhor, demorei a acreditar. Se houvesse divisão de torcidas o estádio estaria dividido ao meio. A imensa torcida azul e amarela contrastava com o branco, amarelo e vermelho. E com as camisas inexplicavelmente verdes do uniforme “B” da Alemanha. Os hinos. E o homem do apito. Tive raiva, brincavam com o nosso brinquedo. Sem pudores. Sem vergonhas. Mas o tal do apito, qual o tamanho da culpa dele? Era símbolo. E só. Resignei.
Bola rolando. Fui deixando aquela tristeza modorrenta da realidade. Afinal o jogo estava lá. E no fundo, no fundo, a Alemanha tem time para ganhar sem ser no apito. Ballack provou e numa linda jogada cruzou para Klose, sozinho. Inapelável. Alemanha 1x0. Festa. E chuva. Sim. Uma chuva torrencial acomete estádio e ânimos. O barulho da chuva cobria as vozes e os cantos. Chovia. E muito.
O jogo ficou pesado. Jogo pesado? Engraçada esta construção. Qual o peso do jogo? A Suécia se recupera do baque e num 4-4-2 escancarado equilibra o pólo aquático. Os alemães exageram nas faltas. O árbitro pouco interfere, mas na dúvida deixa a bola rolar. Rolar para onde, naquele temporal? E dá-lhe bola!!! Falta perto da área e Kevin Kurani pega o rebote do goleirão, que bateu roupa. Alemanha 2x0. Fim do primeiro tempo.
Intervalo. E, sinceramente, não esperava que aquela chuva torrencial, aquele placar desfavorável e o favoritismo absoluto dos donos da casa fizessem diferença alguma no comportamento dos torcedores da Suécia. O que se viu no intervalo, depois do silêncio da chuva que reinou no primeiro tempo, foi a torcida manchada de azul e desbotada de amarelo cantarolando músicas que eu entendia patavinas. Aqueles bonés de vikings, aquelas faces rubras e os gritos. A torcida alemã tentou. Mas não conseguiu.
Segundo tempo,e a chuva finalmente venceu a drenagem do estádio. Poças e mais poças. A bola não deslizava. A vaga, definitivamente, era alemã. A Copa ficaria mais triste sem aquela torcida, que recuperou um pouco o meu ânimo. Se a Copa do Mundo era negócio, o futebol não é só o jogo. Não é.
Naquela manhã, eu tinha duas opções. Poderia assistir ao jogo no hotel e chegar em cima da hora do vôo, ou sair antes do jogo começar, evitar o trânsito e encontrar alguma TV para ver a partida no aeroporto. Fiquei com medo do trânsito e resolvi sair antes, fazer logo o check-in e descolar uma televisão. Sabia que se fosse pela praia, ou pela Barata Ribeiro, o trânsito ficaria intenso assim que o juiz apitasse o fim do jogo. E, além disso, havia o risco de prorrogação. Com prorrogação, eu perderia o avião. Certamente, perderia os pênaltis. Então, chamei um táxi rapidinho e em 10 minutos já estava no Santos Dumont. Check-in feito, agora, era só achar uma TV para assistir a partida. Só achar uma televisão?! A tarefa era impossível! Andei o Santos Dumont inteiro e, nem em lojinha de eletrônicos, encontrei uma telinha. Aí, resolvi investir no terno. Passei água no cabelo, ajeitei a gravata, fiz cara de gente importante e rumei à Sala VIP. Assistiria a partida tomando Coca-Cola com aquelas moças da TAM de cabelo empinadinho: “Sênhor, aceita salgadinhos, senhor?” Só não contava que a sala estaria trancada. Trancada, com ninguém na porta. Com corrente. E aquele barulhinho no fundo: “Vai começar o jogo. Está entrando o time do Brasil! Aí, está a seleção brasileira”. Pensei: “Caramba, vou perder um jogo decisivo de Copa”. Bati os calcanhares e saí correndo do aeroporto. “O que fazer? Pegar um táxi?!” Resolvi atravessar uma daquelas passarelas altas que saem do Santos Dumont em direção ao centro antigo. Temi um assalto, confesso. Um cara de cabelo lambido, terno e maleta preta de rodinhas atravessando sozinho uma passarela em direção ao centro do Rio: era assalto na certa. Mas, cogitei que os trombadinhas estariam já todos em frente à televisão. Aliás, a cidade inteira estava em frente à TV. Quer dizer, o país todo estava, menos eu que, naquele momento em que o juiz apitava o início de jogo, atravessava uma estúpida passarela. Quando dei no centro do Rio, o silêncio era total seguido por pequenos ecos de zum-zum-zum de aparelhos de televisão ligados. O centro do Rio era todo atenção naquela manhã, todo silêncio, todo concentração à espera de um único chute de um Ronaldo e Rivaldo para vir abaixo. Dobrei a primeira esquina, já esbaforido com minha maletinha preta e entrei no primeiro prédio. No térreo, um restaurante comida-quilo. No restaurante, garçons concentrados, zero clientes e uma única TV ligada. “Com licença...”, disse para logo ser interrompido por um pedido de silêncio. O garçom me indicou onde sentar e reparei no relógio: 10 minutos de jogo, zero a zero. Sentei cansado e vi um jogo sofrido. O time de vermelho marcava bem, nada de deixar espaço. E eu via o jogo meio como um intruso naquele comida-quilo. O dono do restaurante sentou-se na mesa ao lado e, vez ou outra, tirava o olho da TV para me encarar com um jeito de “O que esse engomadinho está fazendo aqui?” O constrangimento era claro e, acho que para quebrar o gelo, o dono do comida-quilo fez um sinal com a mão e o garçom rapidamente me trouxe um cafezinho. “Que simpatia!” Agradeci com a cabeça porque sabia que falar ali, na hora do jogo, não dava. Então, o jogo continuou e a agonia idem. Lá pela segunda metade do primeiro tempo, um cruzamento para os vermelhos na nossa área e um tal de Wilmots, o craque do time adversário, subiu mais que os nossos três zagueiros e fez, de cabeça, o gol. Mas, o juizão deu impedimento, graças a Deus! Depois do gol impedido, comecei a ouvir uns comentários meio indiretos. Era algo do tipo: “Assim, não dá. Estão trazendo azar”. O dono do comida-quilo soltava uns comentários assim, querendo dizer que alguém estava trazendo azar, e os garçons todos riam e repetiam lá no fundão, perto da cozinha: “É! O azar!” Eu tomava o meu café e fitava a televisão para disfarçar: “Acaba logo, primeiro tempo”, pensei. O juiz apitou, com zero a zero no fim. Ouvi um último comentário com risadinhas bestas de “Azar, mas que azar!”, agradeci o café e me mandei. Como poderia eu, engomadinho de terno estragar a sorte do jogo do pessoal daquele comida-quilo? Agora, estava novamente no centro do Rio e o silêncio continuava quase sepulcral. Prédios e lojas fechados. Deserto total. Pensei que era impossível não existir uma única televisão no aeroporto e resolvi voltar. Quando cheguei no Santos Dumont, uma multidão fitava a vitrine da loja de eletrônicos disputando cada espaço de visão de uma única microtelevisão. Percebi que a loja havia enganado o pessoal do pré-jogo. Só ligaram a TV no apito inicial e, assim, disperçaram um pouco a multidão. Mas, no começo do segundo tempo, a dispersão virou multidão. Tentei me aproximar, mas foi impossível. Então, perto do check-in, outra multidão em volta de um grande café, daqueles que têm balcão de padaria. Uma senhora estava para sair e corri para pegar o seu lugar. Empurrei outros dois caras de terno e consegui a vaga. Encostado no balcão, eu vi por entre duas cabeças nervosas na minha frente outra microTV. Lá, o segundo tempo já corria, variando entre cores e branco e preto. E o jogo era só sofrimento. Ninguém falava nada no aeroporto. Estranho, mas nem aquela famosa locutora com os tradicionais dizeres “VAAARIG, flight tréee, uanê, faaaive twwoo, naaau boarding guêite foour”. Nem ela dava o ar da graça. Jogo tenso, população idem. Reparei que o sujeito que servia cafés dava três golinhos toda a vez que o time de vermelho ameaçava atacar. E o cara na minha frente mantinha o pé direito na frente sempre que o Brasil rumava para a área adversária. Um ou outro sujeito nervoso fazia algum comentário besta e todo mundo: “Xiiiiu!” Então, veio o achado de Rivaldo. Ele matou a bola e mandou um canhão de fora da área. Vi pela televisãozinha que foi gol, mas não deu pra ver que era o Rivaldo. O aeroporto veio abaixo. O cara que servia café batia com a mão esquerda na madeira. Outros que nem se conheciam se abraçavam. Mãos pro alto. Alívio. “Quem marcou? Quem marcou?” Mais pro fim do jogo, outro gol. Neste, deu pra ver claramente que foi o dentuço. Novos braços pra cima. Novo eco no aeroporto. Sorrisos no balcão e mais pedidos de café. Alguns pediram cerveja apesar de não ser nem 10 horas da manhã. Indo pro meu vôo, encontrei um amigo advogado. “Estou vindo de São Paulo. Você sabe quanto foi o jogo?” “Dois a zero, estamos nas quartas de final.” “Ahhh! Meu vôo atrasou. Que azar!” Azar nada, meu caro amigo. Naquele jogo, o azar era eu.
Segunda feira. Dia 15 de maio. O professor dirá a sua lista. Mas, e se os professores fossem Os Bolonistas? Vaga mais do que merecida...
Uma enquete, agora. Qual seria o nosso selecionado? Os nossos 23 convocados? E, adianto, como a "regra é não ter regra", a escalação é livre. Não há sequer necessidade de convocar jogadores habituados com a amarela. Podemos convocar todos, inclusive o Taddei... se alguém for louco de convocá-lo por aqui.
A minha seria esta:
Goleiros: Rogério Ceni (1), Gomes (12) e Dida (23).
Laterais Direitos: Cicinho (2) e Daniel (o do Sevilla, 13).
Zagueiros: Luisão (3), Alex (4), Edmílson (5) e Juan (14).
Laterais Esquerdos: Júnior (6) e Serginho (que, declinado o convite, seria substituído pelo Léo, do Benfica, 15).
Volantes: Gilberto Silva (16), Émerson (17) e Mineiro (7).
Meias: Juninho Pernambucano (18), Kaká (8), Ronaldo Gaúcho (10), Zé Roberto (19) e Alex (o turco, 22).
Atacantes: Ronaldo (9), Robinho (11), Adriano (20), Fred (21).
E contra a Croácia, o time iria de: Rogério, Cicinho, Luisão, Alex e Júnior; Émerson, Juninho (ou o Mineiro), Kaká e Ronaldo Gaúcho; Ronaldo e Robinho.
Piada idiota, mas com o gol de ontem o Rogério Ceni igualou a marca do Chilavert. Escrito por Luís às 09h25
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Holanda X Portugal (1° Capítulo)
Estranha página a Copa.
A folha sobre a qual escrevemos tanta memória e quanta esperança. O projeto do confronto: “Mas se ganhar de dois, pega tal. Aí ninguém sabe”. A lembrança: “Se lembra de 78? Se pegar tal, fica”. Tanta memória, quanta angústia. Tanta dúvida, quanta mandinga. A Copa é a folha sobre a qual escrevemos tudo, mas ela não vem em branco. Já vem preenchida: apenas ocupamos os espaços em branco que a nostalgia ainda não tomou com seu nanquim.
É vestido de melancolia que escrevo estas linhas. Não há como ser diverso: cá estou de volta à DDR. Uma pensão chamada Rosa, Leipzig. Rosa. Leipzig pariu alguns sonhos, encerrou um.
E aqui, em Leipzig, após assistir a Holanda versus Portugal, pelas Oitavas de Final desta Copa, folheando a manchete do Einkommende Zeitungen, um jornal diário que circula desde 1650, não sei bem o que escrever. Tentarei começar pelo Zeitungen.
A ilustração que coloriu a edição de ontem do Einkommende foi brilhante: os editores escaparam da oposição, preferiram uma interessante comparação. Ao invés de opor Felipe e Marco, ou Figo e Robben, ou Cristiano e Van Nistelrooy, interpostos por uma figura em forma de X, o diário decidiu por composição mais instigante.
Lado a lado, estavam em página inteira vários pares, como em um álbum de cromos: Van der Sar e Ricardo. Kromkamp e Miguel. Boulahrouz e Ricardo Carvalho. Opdan e Fernando Meira. Van Bronkhorst e Caneira. Denny Landzaat e Costinha. Cocu e Deco. Arjen Robben e Luís Figo. Van der Vaart e Maniche. Dirk Kuyt e Pauleta. Van Nistelroy e Cristiano Ronaldo. Van Basten e Scolari.
Não consegui escapar da armadilha preparada pela imagem: o espelho. A edição permitiu – antes, obrigou – a comparação um a um. “É um começo”, pensei.
Duas páginas atrás – atrás de quem lê, à frente de quem sapeia –, como se destinada a quem não se contenta com o lead, a imagem. A imagem. A imagem: um aperto de mão, homens de terno. Eusébio e Cruyff. A imagem como um espelho. Um espelho.
O moçambicano, dono da improvável camisa 13 de Portugal, liderou a melhor seleção da Copa de 66: perdeu. O filho da faxineira do Ajax, dono da improvável camisa 14 da Holanda, liderou a melhor seleção da Copa de 74: perdeu. O preto africano e o menino de Amsterdã que se amparava em aparelhos ortopédicos para não cair se encontravam com as palmas. Homens de terno: Eusébio e Cruyff.
Assim, injetado de melancolia, fechei as folhas e peguei um táxi para o Zentralstadion. O que lá vi foi além da antecipação, do palpite. Do chute, do sortilégio.
Peguei o Vila Ida duas horas antes do jogo. Cheguei tranqüilo em casa e tocou o telefone. Era a Stela: “Juuu, onde vc vai ver o jogo?” Eu: “Em casa, venham pra cá!” Expliquei como fazia para pegar o Vila Ida. Pra quem não sabe, o Vila é a linha que sai de trás do Teatro Municipal (perto de um cine-baixaria e vai dar na Vila Madalena. A piada, bastante velha no bairro, é que deveria se chamar Vila Volta, pois é uma das linhas que mais sobem e descem as ladeiras dos bares da Vila Madalena. Enfim, chegaram em casa a Stela, a Helena e o Amaral. Também chamamos a Dani e acho que ela chegou logo depois. O jogo não prometia nada. Era jogo de Copa, é verdade. E decisivo. Empate, prorrogação. Novo empate, pênaltis. Mas, estávamos meio que esnobando o Brasil naquela Copa. O Brasil, ou melhor, a seleção, não se parecia com o Brasil que acreditávamos. Eram constatações de 1994. A modernidade mercadológica se avizinhava na política e o defensivismo chegava no futebol. Para quem tinha visto as eleições de 1989 e a Copa de 1990 eram prenúncios nada animadores. Brochantes, para falar a verdade. O ano, no calendário, convocava a gente para alguma esperança. Poderia ser uma espécie de redenção. Sei lá. Mas, o ano, na prática, estava batendo como uma ironia meio estranha de defensivismo no futebol e mercadologia na política.
Nada que fosse estragar aquele programa. Resgatei umas cervejas na geladeira e começou o primeiro tempo. E o jogo era chato, chato, chato. A nossa melhor chance foi quando dois zagueiros furaram a bola em seqüência. E o outro time não criava chance nenhuma. A seleção dos Estados Unidos (se é que dá pra chamá-los de seleção) parecia um daqueles times que disputam as séries A2 ou A3 do Paulista. A começar pelo uniforme: listras brancas e vermelhas, seria um Noroeste de Bauru?! E a terminar pelos jogadores. Um tinha nome de refrigerante: Tab Ramos. O goleiro era míope (Tony Meola) e o craque do time era um zagueiro com cabeleira ruiva-hippie, o Lalas. Ridículo. A piada pronta era que, como zagueiro, o Lalas era um excelente guitarrista.
Enfim, o jogo foi rolando com aquelas tradicionais perguntas femininas em jogos de Copa. Sabe como é, elas não compreendem bem as táticas e técnicas do futebol, mas na Copa todo mundo vai para a frente da TV, então, elas ficam: “Mas, se o time deles é tão ruim porque não conseguimos fazer um gol?” E o Amaral, com toda a paciência de quem foi presidente do XI, respondia: “É que esse cara (Parreira) põe todo mundo jogando lá atrás, Stela”. Então, veio o intervalo e o jogo estava tão chato que não fui conferir os “melhores momentos”. Fomos, eu e a Helena, ouvir uns bolachões na vitrola. É, isso aí: em 1994, as casas ainda usavam bolachões e vitrolas. Lembro-me que ouvimos Irene Cara e Nika Costa. Vejam só que trash. Então, pra piorar colocamos um dos bolachões mais anos-oitenta que havia, o Fame. Não, não ouvimos a música tema do filme de Allan Parker (aquela ridícula em que todo mundo sai dançando em cima dos carros nas ruas de New York). Ouvimos aquela outra em que o cara canta sozinho, triste, longe da namorada, e é filmado do lado de fora da janela do apartamento (e é igualmente ridícula). O Amaral não desgrudou da TV, apesar do baixo futebol. Ele viu o intervalo, com os “melhores momentos” (que foram terríveis, com a cotovelada do Leonardo no Tab, os gols perdidos pelos zagueiros...) e voltou a responder as perguntas básicas femininas no segundo tempo. “Mas por quê o técnico não põe logo mais um atacante?” “Porque agora estamos com um a menos e ele está preocupado com a defesa. É lamentável, Stela. Lamentável!” Então, o nervosismo foi crescendo em todos nós. Até a Helena que estava mais preocupada com a nossa imitação de “Flashdance” começou a estremecer: “Perder para os americanos não!!” Aí, veio aquele passe do Romário, o gol do Bebeto, o “eu te amo” de um atacante para outro... Realmente, nós só podíamos mesmo tirar sarro daquela Copa. Não dava pra levar a sério. Ganhamos, no sufoco. O Amaral lamentou, o que, na época, era bastante comum. Afinal, que baixo futebol, que eleição sem graça. Mas, a tarde foi muito legal. Daquelas que a gente não esquece.
Na verdade, eu queria assistir ao jogo na Mooca. Todos estariam lá. Meus irmãos, tios, tias, primos. Jogo na Mooca era a mais pura diversão. E, com a Itália como adversária, seria sensacional. Macarronada na panela, bombas de chocolate, poderíamos gritar à vontade. Ver a Itália perder no bairro dos italianos. Nada superaria uma tarde como aquela. Nada, pelo menos para quem tem 9 anos. Antes, teríamos que passar pelos tapinhas na cabeça dadospelos mais velhos, sempre acompanhados de perguntas idiotas, como “Você está vendo a Copa?” ou “Quem é o seu jogador preferido?”. E pela fila de cumprimentos das tias gordas. Elas seguravam as nossas bochechas e tascavam três beijaços cada uma. E tinha aqueles comentários de sempre: “Filhôooo, você tá parecêindo tâaanto o papai!”. Ao final da fila de cumprimentos das tias gordas, ficávamos com as bochechas cheirando molho de tomate. Irc! Mas, tudo isso fazia parte do jogo.
O problema é que a logística da mãe me fez assistir ao jogo sozinho. Isso que dá estudar de tarde e os irmãos de manhã. Os irmãos na Mooca e eu só em casa. Pra compensar a solidão, a mãe fez pizza. Quer prato melhor pra comemorar uma vitória sobre a Itália? E prometeu: no próximo jogo, contra a Polônia, você pode assistir na Mooca.
Bem, a pizza mal havia chegado e já estava 1 a 0 para os italianos. O empate veio após o primeiro pedaço e fiquei esperando pela virada que não veio. E para piorar, terminamos o primeiro tempo perdendo por 2 a 1. No segundo tempo, mal consegui comer. Esqueci completamente a pizza no empate do Falcão, mas veio mais um gol de Rossi e aprendi o significado da apreensão. Então, o jogo acabou e me bateu um misto de tristeza e indigestão. Perdemos logo para a Itália. Lembrei-me que, no rodízio para a escola, cada um cantava que se o Brasil não ganhasse a Copa, ganharia o país dos antepassados. Em São Paulo, toda a criança sabe o país de que é descendente. No rodízio, havia vários segundos times, um para cada família, para cada antepassado: Iugoslávia, Espanha, Argentina e Itália são os que me lembro. “Se o Brasil perder, a Itália vai vencer.” Esse era o meu canto. Ao final do jogo virou puro arrependimento. “Que droga, desclassifiquei o Brasil!”, pensei, em claro desespero.
Completamente transtornado, fui chutar bola na garagem. Em vários chutes fui Falcão e comemorei com as veias saltadas. Em outros, fui Zico, sem a marcação de Gentile. Em alguns, fui Serginho e acertei aquele gol feito que ele perdeu. O Zico reclamou, com razão. Nas cabeçadas, fui Oscar e todas terminaram em gol. Quando a bola voltava da parede da garagem, eu fazia defesas que Valdir Peres não fez. Me atirava no chão e espalmava a bola para o escanteio, que ficava perto de uns vasos de samambaias. Em poucos chutes, confesso, fui Paolo Rossi. Mas meus chutes como Rossi iam para fora, inclusive aquele em que ele pegou a rebarba de um escanteio. “Rossi manda pra fora e o Brasil está classificado!”, dizia eu, imitando o Luciano do Valle. Outras vezes, eu começava chutes como Zico, mas quando eles iam pra fora, logo se transformavam em chutes de Rossi. E, se a bola voltava e eu acertava no ângulo, que ficava rente ao portão da garagem, eu era o Éder, é claro. Nos chutes que eu dava como Rossi, a bola saía e os brasileiros comemoravam, corriam em volta de três cachorros, o Calipalo (viralata), a Biba (mãe do Calipalo) e a Jóia (uma fox). O Calipalo chegou a impedir um gol, então, eu driblei ele duas vezes e fiz outro, como se fosse Falcão. Num outro chutaço, quase matei a Jóia. Me desculpei e marquei falta. Bati no meio do gol e comemorei como Éder. Fiquei chutando bolas na garagem até anoitecer e a turma voltar da Mooca. Voltaram e não falaram nada. Ou se falaram não me lembro. 1986, naquela época era no outro século... Não adiantava nem começar a esperar.
Faltam poucos dias para a Copa. Agora é a hora de "faturar". Em todos os temas, do boteco ao escritório, do almoço ao café com a sogra, o tópico só pode ser a copa.
Inspirado no Juca, o Kfouri, proponho aos Bolonistas um desafio. Espero que todos topem. É hora das listas! E todos sabemos, lista é duca, qualquer uma.
Desafio simples. Básico, para a Copa.
Qual será a lista do Parreira? O desafio é acertar o time do Parreira. E começo, firme:
A coletiva estava quase acabando no Ministério da Justiça e o bando de cinegrafistas já começava a desmontar as câmeras para sair correndo. Falou o ministro, que hoje preside o Senado, falou o secretário e um deles, não me lembro bem quem, comentou que o jogo começaria em instantes e teria que terminar logo os trabalhos. Era a estréia do Brasil e bastava um retorno para o chefe e vamos à Copa. Dei o retorno, meio inútil naquela altura dos acontecimentos. O chefe nem atendeu, na verdade, não estava na redação. E para pedir carro foi pior ainda. Nada de motorista. Liguei no já tradicional ligue-táxi de Brasília, aquele da musiquinha: “Três, dois um/ oito-um, oito-um”. E nada. Então, tive que arrumar uma televisão por ali mesmo. Mas, aonde? Faltavam dez minutos e começou a bater o desespero. Foi quando vi tudo o que era de guardinha, de servente, de atendentes, de lixeiros, todo o terceiro setor do Ministério caminhando a passos largos para o auditório Tancredo Neves. Alguns levavam crianças e, como dá pra perceber que ninguém deixa criança fora de jogo de Copa, fui atrás. Ao chegar no auditório, um imenso telão. Pensei: “Sensacional! Verei a estréia numa tela de cinema.” Então, na hora do hino o telão pifou. Umas poucas vaias e a imagem voltou. Aplausos animados. Me peguei conversando com um servente sobre o jogo. “E aí, doutô? Acha que dá pra ganhá?!” “Não sei. Falta o Romário”, respondi jornalisticamente cético. Na verdade, eu achava que faltava o Muller, mas seria clubístico demais falar na falta do Muller depois de três copas com o Muller. E com o Muller reserva, ora bolas.
Então, o jogo começou e as crianças foram todas para o palquinho em frente da tela. Logo veio o gol de ombro do César Sampaio e as crianças soltaram balões, uma festa. Eles ficavam dando cambalhotas, não viam direito o jogo, assim como as mães, as serventes que ficavam mais de olho nas crianças do que no telão.
Tomamos um gol de pênalti, bastante insosso, pra variar. O servente do meu lado ficou chateado. “Tem qui passar pro Ronaldinho!” Acho que aquele servente foi a primeira pessoa de Rondônia com quem conversei. Acho não. Tenho certeza. Naquele momento, percebi mais uma vez que o país é bem maior do que o quadrilátero Morumbi-Pinheiros-Paulista-Ibirapuera. Então, pra quê o Muller?! É claro, pra que o Muller se temos Ronaldo?! E as bolas iam pro Ronaldo, mas vinham uns três marcadores atrás. Difícil, pensei. A tensão começou e pelo menos as poltronas do auditório Tancredo Neves são feitas para ministros – não serventes – e são pra lá de confortáveis. Mas, mesmo no conforto das poltronas ministráveis, a tensão foi aumentando, pois o gol não saia, o Ronaldinho marcado (na época, ele era “inho” e bem mais dentuço. E o problema foi aumentando, quando me lembrei que o time escocês vinha com o nacionalismo aguçado. Eles estavam no espírito daquele filme “Coração Valente”, do Mel Gibson, vários Oscars e tal. Tinha até um jogador (não me lembro o nome) que simbolizava a história toda e coisa e tal.
Aí, veio o bate-rebate na área e o gol do Cafu. Saí do jogo pensando que o gol foi do Cafu, mas depois, vi nos mesa-redonda que foi gol contra de um fulano de tal escocês. O jogo fechou em 2 a 1 e, finalmente, consegui o carro para a redação. Era a estréia do Brasil, 8 de junho de 98, e meu primeiro dia efetivamente trabalhando em Brasília. A data não dá pra esquecer.
O jogo era de tarde e saí da escola direto para a casa dos pais do Taddeo. Abrimos o álbum de figurinhas – aquele do Ping-Pong – e conferimos as escalações. A Escócia abriu o placar e a irmã do Taddeo – que era mais velha e fazia faculdade – comemorou. Fiquei espantado com aquilo e não entendi nada. Quem era aquela louca? Estrangeira? Então, ela começou a falar de política, do governo, dos militares, de populismo e da Copa passada, na Argentina, que eu não tinha visto. Quatro anos naquela época era uma eternidade. E quando ela falou que sairia com saia escocesa pelas ruas de São Paulo, tomou uma bronca danada da mãe do Taddeo. “Pára com isso! Olha os meninos! Deixe eles verem o jogo!!”
Então, voltamos à TV e vimos a virada. Primeiro, dois gols. Depois, o Serginho perdeu um gol feito, numa cabeçada pra fora e o irmão do Taddeo ficou jogando na minha cara, dizendo que ele era são-paulino. Respondi que o Oscar também era do São Paulo e tinha feito gol. Ufa! Me salvei. A família do Taddeo era de palmeirenses. Aliás, meus melhores amigos no ginásio foram o Taddeo (palmeirense) e o Homero (corinthiano). Comigo, são-paulino, formávamos um belo trio de ferro.
No segundo tempo, deixamos o álbum de lado para ver mais dois golaços, fora o baile. O gol do Éder, leve, alto, de cobertura foi genial. Apesar de naquela época eu ainda não ter discernimento para identificar gols geniais como aquele. Naquela época, gol era gol de qualquer jeito. Podia ser na Copa ou na garagem de casa. Então, o jogo acabou em 4 a 1 e fomos para o tradicional gol a gol perto da garagem. Os gols, na verdade, eram cadeiras, e a bola era de tênis. Jogamos: eu, o Taddeo, o irmão e o cachorro dele. Lembro-me de ter perdido dois jogos de “melhor de três” para os irmãos. Mas, por outro lado, saí com uma vitória importante. Fui eu quem conseguiu falar a palavra mais longa naquele dia: “Anticonstitucionalisticamente.” A palavra tinha 29 letras. Imbatível! Ninguém conseguiu pensar numa maior. Niguém chegou a 30 letras. Ninguém. Fiquei repetindo “anticonstitucionalisticamente” até a mãe chegar. Mal sabia que faria Direito. E que o Taddeo, quem diria, se tornaria dentista.
Sério, sério mesmo, me peguei outro dia narrando, no carro, em alto e bom som, o gol do Rogério Ceni na peleja entre brasileiros e italianos, na transmissão que tinha comentários de Daniel Fernandes, reportagens de campo de Fernando Pança e Ricardo Cáuboi, reportagens especiais de Pedro Poeta, com o plantão esportivo coordenado pelo Álvaro Correa e com a direção nacional de jornalismo de Renato Parente. Não sei se os carros ao lado acharam que eu era louco de grade ou só mais um motorista precisando desestressar.
“Abrem se as cortinas do espetáculo...” Muito embora fosse na voz de José Silvério que acompanhava a bola, a locução de Fiori Giglioti era conhecida por todos. O bordão do balão subindo, do balão descendo e da “torcida brasileira” era bastante repetido nas transmissões ao vivo da rádio que acompanhava os clássicos das brincadeiras de futebol de botão. Maluquice de criança, saudável como todas as maluquices, lembrando Ziraldo e o genial Menino Maluquinho, irradiava os jogos lá em casa, num ritmo frenético. E eram várias as “equipes esportivas”, pois eram vários jogos no campeonato. Uma das variações, e a predileta, era a que imitava despudoradamente o trio titular da rádio Jovem Pan, Silvério, Orlando Duarte e Vanderlei Nogueira. Mas existiam outras, como a que imitava o impagável Silvio Luís, e os inesquecíveis “Olho no lance” e “é dele a camisa número sete”, Fiori e Osmar “ripa na chulipa” Santos. Jogos inesquecíveis, narrados ao vivo.
Jogo começado, os jogadores procuram seus espaços. Uns procuram a bola, outros se desmarcam e esperam por ela, numa melhor posição. Guardam-se posições, procuram-se espaços. Ocupados os flancos e desenhadas as disposições táticas. A bola rolando e a beleza do jogo, todinha lá. É impossível não tropeçar nas inúmeras bolas e carrinhos espalhados pelo chão da sala. Mas nunca um chavão funcionou tão bem: Treino é treino. Jogo é jogo.
O chavão preciso, o que é uma raridade, mostra que por mais que os treinos e os coletivos simulem situações de jogo, durante a partida surge o inusitado. O inesperado. Mas, sem treino, não há entrosamento. E sem entrosamento, meus caros, todos os times estão fadados ao mais retumbante fracasso. Vejam Bebeto e Romário, em 94. Romário é genial e quase dispensa treino. Mas foi mais genial quando esteve entrosado com alguém. Futebol é jogo coletivo, queiram ou não. O cansaço é evidente, entre noites dormidas em claro, fraldas, choros e colos.
Desconfio que eles estão se estudando, treino a treino. Jogo a jogo. A sintonia entre eles vai sendo desenhada, diagramada, costurada. Num ritmo muito mais veloz do que podemos perceber. Nas manhãs, todos os dias, é notável que um toca e o outro, imediatamente, se desloca. Leonel sorri para o irmão. Enquanto o Marco Antônio tagarela coisas sobre bruxos, sapos, brincadeiras de escola, cantarola o hino do tricolor e come maçã, banana, bolacha, requeijão e bolo, o irmão vasculha com o olhar aquele mundo todo de possibilidades. No começo, tímido. Óbvio, é um jogador que chegou com a temporada em andamento. Depois, chorando, urrando, querendo ser notado. Evidente, para ele eram só os primeiros treinos, os jogos iniciais. Agora, ri, chora, solta grunhidos que só o outro entende. Pai e Mãe, zumbis muitas vezes, eufóricos outras tantas, dão seus passes. Acertam e erram. Mas a graça do jogo também é esta. O outro já teve dias de inconformismo constante, pois tocava a bola e não recebia de volta. Os “bom dia” Lêo, Léo, Nel, irmãozinho, pequenininho, acompanhados de sorrisos e gargalhadas deliciosas mostram que a bola vai encontrando o seu caminho.
Se a gente topa, as maluquices vão nos contaminando. Isso é uma coisa maluca, maluca mesmo, neste jogo. O futebol ganha ares de brincadeira, mesmo sabendo que de brincadeira teremos pouco. Já vi rota-vírus, vômitos, caganeiras, o preço de materiais didáticos, entrada de teatro infantil com preço de show da Broadway, já tive que explicar porque um cara numa motocicleta pegou a bolsa de uma mulher na rua e saiu em disparada e as razões do choro da mulher. Mas se brincarmos aqui e ali, com eles, conosco, o jogo vai fluindo. Pode ser que fique mais fácil. Mais saboroso, não tenho dúvida. Brinco, então, da crônica. Posso ser o Torero, o Juca ou o Deco. Faço textos dos jogos, das vitórias e das derrotas. Imagino jornais impressos, diários eletrônicos premiados. Uma Soninha de terno, um PVC de prancheta e tudo. Quem sabe, até, um Tostão.Digitando o texto, daqui, ouço o ronronar reclamão do mais novo. Ele quer a bola. Talvez um colo. Julinha, Lourenço e o pequeno Lucas, zanzando por aí nas mais plásticas jogadas.
Dizem por aí que futebol é só um jogo. Já disse, inúmeras vezes, que não é. Espalham por aí que o nosso diário é uma ferramenta moderna das telecomunicações, um “blog”. Duvido. Cá é o nosso radinho. Daqueles de pilha, surrados. Narrando um pouco dos memoráveis jogos que temos pela frente. Narrando as nossas Copas do Mundo.
Ah se essa moda pega no Brasil....seria o fim definitivo do futebol carioca
Jogadores do Colônia querem indenizar torcedores por vexame
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da Folha Online
Os atletas do Colônia querem indenizar os seus 3.500 torcedores que acompanharam a derrota do clube para o Werder Bremen por 6 a 0, no último sábado. O resultado rebaixou a equipe para a segunda divisão do Campeonato Alemão.
Os torcedores percorreram, entre ida e volta, 600 quilômetros para acompanhar a partida em Bremen. Segundo Marvin Matip, zagueiro do Colônia, os jogadores reembolsarão a torcida com os valores dos ingressos --algo em torno de R$ 118 mil.
Além de Colônia, o Duisburg também já está rebaixado para a segunda divisão. A última "vaga" do descenso será decidida entre Kaiserslautern e Wolfsburg, que se enfrentam no próximo sábado pela última rodada do Campeonato Alemão.
O Banco suíço UBS, desde a Copa de 1970, tenta advinhar quais serão os finalistas da Copa. Os economistas do banco usam quatro variáveis: o número de participantes no torneio, quantas vezes cada time chegou às semifinais, a quantidade de jogadores excepcionais de cada time e um tal ranking Elo. Atualmente, a lista de jogadores excepcionais tem por base a lista feita por Pelé na comemoração do Centenário da FIFA, que mistura jogadores como Shevchenko e El Hadji Diouf. O ranking Elo foi criado pelo físico e enxadrista húngaro-americano Arpad Elo para classificar mestres do xadrez, e foi adaptado para o futebol, sabe lá Deus como.
O UBS acertou todas as vezes os finalistas, exceto em 1990: achou que a Itália chegaria na final, mas ela acabou sendo eliminada pela Argentina na semifinal. Acho que o UBS esqueceu de levar em conta que a semifinal foi disputada em Nápoles, Argentina. Para a Copa de 2006, o UBS prevê que a Itália será a campeã, e o Brasil, o vice. No texto que estou lendo no trem que peguei para Dortmund, não há qualquer informação a respeito de quantas vezes eles acertaram o campeão da Copa. O texto termina informando que a derrota afeta negativamente o desempenho da bolsa de valores do país perdedor. Já a vitória não tem efeito algum. Me lembro que em 1998, a bolsa brasileira chegou a cair mais de 15% em um único dia. Grande merda.
O índice de acerto do UBS me irrita profundamente, como uma porra dum banco de investimento consegue acertar tantas vezes os finalistas da Copa? Mas há um alívio: dessa vez UBS errou, Brasil e Itália vão se enfrentar já nas oitavas. Espero que ele também erre o vencedor. A lista do Pelé deve estar afetando as suas previsões.
Quanto mais próximo o trem fica de Dortmund, mais ansioso eu fico. Não consigo para de pensar na Copa de 82. O gol do Sócrates. O recuo de Cerezo. A cabeçada do Oscar. Paolo Rossi. Dino Zoffi. O mestre Telê. Eu no fundo do quintal, chutando pedras no chão. Meu pai vindo, ô filho, fica assim, não, é só um jogo, vamos lá comer brigadeiro. Mas eu preferi ficar ali mesmo, longe de todo mundo. Quando decidi voltar, o brigadeiro já tinha acabado, as outras crianças já tinham comido tudo. Paciência, faz parte, se você leva o futebol tão a sério.
Finalmente chego. Saio do trem e procuro algum lugar para almoçar, enrolo um pouco e vou ao estádio, com um frio na barriga. Não deveria ter me prontificado para ver esse jogo, porra, o Amaral que escolhesse outro. No estádio, vou em direção à torcida brasileira. Tenho a impressão de ver o Ju Basile no meio da torcida italiana, olho de novo, mas não o vejo. Acho que me enganei.
Começa o jogo. Marcação forte dos dois lados, divididas ríspidas, nenhum dos dois times consegue fazer um ataque efetivo. Ronaldinho Gaúcho está sendo parado pela marcação, Kaká está mal, e a bola não chega nos atacantes. A Itália está um pouco melhor no meio de campo, mas seus atacantes erram muitos passes nas poucas vezes em que pegam na bola. E assim foi até os 31 minutos do primeiro tempo, quando Del Piero consegue fazer um belo lançamento, nas costas do Roberto Carlos, para o atacante italiano, que entra livre dentro da área. Dida sai desesperado em cima dele e faz pênalti. De quebra, se contunde e é substituído. Del Piero bate o pênalti, preciso, alto, no canto. Itália 1 x 0 Brasil. O frio no estômago piora muito, não vejo como a seleção brasileira, jogando mal, conseguirá fazer um gol sequer. E o que ocorre em campo depois do gol tampouco é animador: o Brasil tenta atacar, mas de forma desordenada, a Itália recua e passa a jogar como gosta, na base de contra-ataques perigosos. Aos 47 minutos, final de primeiro tempo.
O intervalo é uma tortura, que parece durar algumas horas.
Começa o segundo tempo, já com um escanteio a favor da Itália. A defesa afasta. Ronaldinho Gaúcho pega a bola, se livra do marcador, pela primeira vez no jogo, e mete a bola para o Fenômeno, entre dois jogadores italianos. Foi de bico, com raiva: Brasil 1 x 1 Itália. Mal comemorei, senti apenas um alívio imenso. Um gol logo aos cinco minutos do segundo tempo era tudo o que o Brasil precisava para botar a cabeça no lugar e começar a entrar no jogo finalmente. E foi o que aconteceu. Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Adriano e Fenômeno trocam passes impressionantes, alguns chutes a gol, com boas defesas do goleiro italiano. A Itália parecia assustada, e cada vez mais eu tinha a sensação de que tudo daria certo, dessa vez. Mas, o futebol tem dessas. Em um contra-ataque rápido, a zaga brasileira bate cabeça, pra variar, e Del Piero chuta livre, sem chances para o goleiro: Itália 2 x 1 Brasil. 25 minutos do segundo tempo. O gol abala o time brasileiro, que quase chega a se entregar em campo. Nos cinco minutos seguintes, a Itália fica próxima de marcar mais um gol outras duas vezes, mas damos sorte.
Então, eis que Parreira decide partir para o desespero: saca Zé Roberto, coloca Robinho. O Quinteto está em campo. Já no primeiro lance, Robinho passa por três, centra o bola, mas Adriano chuta pra fora. A seleção adquire novo ânimo e passa a atacar alucinadamente, mas a porra da bola não entra. Quando parece que a agonia não vai acabar nunca, ela piora, novo contra-ataque: Itália 3 x 1 Brasil. 40 minutos do segundo tempo. É como se eu tivesse sido noucauteado. Minhas mãos e pés estão formigando, não consigo ter reação alguma. Fico parado, olhando o campo e escutando os italianos comemorando.
O Brasil dá a saída de bola, Ronaldinho Gaúcho a chuta do meio de campo, dando impressão de puro desespero, mas não era: goleiro adiantado, ainda comemorando o terceiro gol, bola no ângulo: Brasil 2 x 3 Itália. Esse placar de novo, não, pelo amor de Deus. 43 minutos do segundo tempo. A seleção parte com tudo pra cima dos italianos, que agora só defendem. Nada dá certo. Sobe a placa de três minutos de acréscimo. 46 minutos do segundo tempo: escanteio para o Brasil. Pode ser a última chance, todo mundo na área. Ronaldinho Gaúcho bate, a bola vai em direção ao segundo pau, o goleiro italiano tenta interceptá-la, mas não consegue, Adriano tenta cabeceá-la, mas fura, Nesta tenta afastar, mas também fura, e aí Rogério Ceni cabeceia e marca o gol.
Hein!? Rogério Ceni!? Sim, Rogério Ceni, convocado no último minuto por Parreira, num raro momento de lucidez do técnico, tinha entrado no lugar de Dida e estava lá, na área adversária, para fazer o gol. Estava tão nervoso que não tinha percebido quem entrara no lugar de Dida. Finalmente consegui ter uma reação, pulava, abraçava todos, ficava gritando gol. Brasil 3 x 3 Itália
Prorrogação.Os italianos estavam visivelmente abalados com o gol de empate. Todas as iniciativas de gol eram da seleção brasileira. Na melhor, aos oito minutos da prorrogação: passe de Ronaldinho Gaúcho, Fenômeno chuta, bola no travessão, Adriano cabeceia, bola na trave, Robinho pega de primeira, defesa inacreditável, Kaká emenda uma bicicleta, outra defesa inacreditável, bola para escanteio. Não deu, o primeiro tempo da prorrogação acabou.
Segundo tempo da prorrogação. Os italiano se refazem um pouco do empate e o jogo fica um pouco mais equilibrado. Um susto: italiano entra sozinho na área, correndo para pegar um lançamento, mas faltam pernas e ele não consegue chutar forte. Ceni agarra tranqüilamente. Na verdade, todos estão muito cansados e tudo indica que teremos pênaltis, mais uma vez. É hoje que eu tenho um troço.
16 minutos do segundo tempo da prorrogação: Kaká rouba a bola no meio campo e toca para Ronaldinho Gaúcho, que lança Robinho, o único que ainda tem fôlego, na ponta esquerda. Ele entra na área e chuta. A bola toca na trave, corre ao longo da linha, toca na segunda trave e sai. Nesta chega e manda um bico pra frente. Mas. Mas, Adriano está na frente dele. Até agora ele jura que tentou cabecear aquela bola conscientemente. A verdade é que ela bateu na testa dele, e entrou no gol. Tanto que ele nem pode comemorar, ficou estirado no chão, com todo os jogadores pulando em cima dele. Brasil 3 x 3 Itália, no tempo normal. Brasil 1 x 0 Itália na prorrogação. O UBS errou, de novo.
É mais ou menos assim que eu me lembro do jogo, a emoção e o porre não me ajudaram muito a memória. Acho que tenho de ver o VT do jogo, se o coração deixar. E acho que não agüento mais ver um jogo do Brasil nesta Copa, chefe.
Your name is big brother You say that you're watching me on the tele, Seeing me go nowhere, Your name is big brother, You say that you're tired of me protesting, Children dying everyday, My name is nobody But I can't wait to see your face inside my door.
Your name is big brother You say that you got me all in your notebook, Writing it down everyday, Your name is I'll see ya, I'll change if you vote me in as the pres, The President of your soul I live in the ghetto, You just come to visit me 'round election time.
I live in the ghetto, Someday I will move on my feet to the other side, My name is secluded, we live in a house the size of a matchbox, Roaches live with us wall to wall,
You've killed all our leaders, I don't even have to do nothin' to you, You'll cause your own country to fall.
I’ve been waiting a long time I was just hoping I might find Ah, the right kind of lover for me
Well you know I’ve been lonesome God knows we all been lonesome Some people think being lonesome really means being free
But, I would give it all up for you Yes I would give it all up for you Yes I would give it up Settle down Stop looking around I finally found something true
We live in a world full of confusion A culture based in illusion Ah, some people think it’s amusing But its really just fantasy
I would give it up for you Yes I would give t all up for you Yes I would give it up Settle down Stop looking around I finally found Ah, yeah
I would give it all I would give it all up for you now baby I would give it all I would give it all It would give it all up for you now baby
Did you believe it, when they told you they discovered you? And that everything is free, as long as you do what they tell you to. You think it's true?
But nothing could be farther from the truth, my love.
Did you even listen, when I told you to change your name? Now, no body wants honesty, when luck can let our perfect frame, play the game.
Nothing could be further from the truth, my love.. And nothing is more powerful that beauty in a wicked world. Play it girl, play it girl, play it girl.
Does it make you feel good, when they tell you what you want to hear? And after they suck all your soul, well that's when they'll disappear. Disappear. They disappear forever..
Like a prince in your little fairy tale. And you will find, one day you put you soul on sale..
Nothing could be further from the truth, my love.. And nothing is more powerful than beauty in a wicked world.
Por toda o continente europeu, os tablóides estampavam manchetes parecidas com “França apanha da Coréia na bola e na briga” e depois “França protagoniza a grande marmelada da Copa”, estes últimos fazendo menção ao efeito suspensivo que anulou todas as expulsões decorrentes da batalha campal entre franceses e coreanos.
Passada a humilhação da goleada sofrida, os franceses, com o espírito extremamente machucado, se preparavam para enfrentar a seleção Ucraniana em Hanover.
Eu havia tirado alguns dias de descanso, para fazer uma segunda lua-de-mel na paradisíaca Praga. Alguns dias de amor com a minha pequena Priscila, longe do cheiro de mijo-suvaco-cerveja dos estádios iriam me fazer bem para o espírito e o corpo, já que o meu aparelho digestivo dava sinais de exaustão e o meu redator-chefe, homem sério, se preocupava com a minha saúde. O dever chamava e, assim, eu tinha que abandonar as tardes de ócio na Staromestke Naméste e rumar para a fria Hanover. Malas prontas, rumo à estação ferroviária.
Hanover é, na verdade, um gigantesco Anhembi, ou seja, uma cidade que desabrochou graças à vocação para sediar gigantescas feiras, de automóveis, produtos eróticos e escovas de dente. Desta vez Praga, ah Praga e a minha pequena Priscila haviam tornado o meu espírito mais leve e eu estava achando aquela frieza robótica o máximo. Para melhorar o meu dia, fui visitar a gruta de Niki de Saint Phalle, ornamentada com as suas famosas Nanas, mulheres tropicais gordas, algumas das quais enchem de charme a Pinacoteca paulistana.
De lá, direto para o hotel Biarritz, pulgueiro indicado por um romeno (malditos romenos!!) em Praga. Naquela noite, um vento muito forte, nuvens carregadas e um jantar italiano num restaurante muito simpático, no bairro gótico.
Na volta, eu não sabia dizer, mas aquele matreiro vento gelado parecia querer me dizer algo.
No dia seguinte, acordamos tarde, comemos um belo sanduíche e fomos direto para o estádio do Hannover 96, um antigo estádio, inteiramente reformado para a Copa.
Chega a hora do jogo, perfiladas estão a seleção francesa, novamente completa, graças ao efeito suspensivo dado aos expulsos, com Fabien Barthez no gol, o respeitável Thuram na zaga, um ataque com Henry e Cissé, já que Trezeguet se contundiu no meio do sururu com os coreanos e a figura já lendária de Zizou. Do lado Ucraniano, um monte de sujeitos loiros com cara de pinguços e sobrenomes terminados em “enko” e o perigosíssimo Shevchenko, o Sheva, outrora quase o melhor jogador do mundo. Destaque para um jogador ucraniano que é a cara da Renata Sorrah.
Começa o jogo e a França, ligadíssima, mostra que não se deve tripudiar de uma seleção que já foi campeã do mundo e parte para calar todos os difamadores, adiante, com um ímpeto de um leão. Makelele toca pra Zidane, que erra a bola. Contra-ataque Ucraniano freado com categoria por Thuram. Ufa, as coisas haviam voltado ao normal. De novo Makelele, que toca pra Diarra, que avança como um Concorde pela linha de fundo e cruza para Henry, que chuta uma vez, rebote, domina e arremata com fúria, para fazer França 1x0. Belo gol, que eu e minha pequena aplaudimos por instinto.
A Ucrânia não se deixa abater e começa, de forma gélida e viscosa, como vodka, a equilibrar o jogo e a deixa-lo truncado. Aos 28 minutos, Nazarenko, batendo falta, cruza para a cabeçada precisa do velho Sheva. Tudo empatado.
Aos 43 do primeiro tempo, Cissé apanha a bola no meio de campo e avança, como um jogador de Rugby rumo ao gol de Kernozenko, que sai desesperado. Cissé dá uma meia-lua no goleiro e fuzila. França 2x1. Um dos gols mais bonitos da Copa faz com que a ressabiada torcida francesa se manifestasse, cantando a plenos pulmões a Marselhesa. Confesso que choramos diante de tal dramaticidade.
Fim do primeiro tempo e aquele miserável vento matreiro trouxe a escuridão e a chuva. A torcida francesa não parava de cantar e deixei a minha pequena hipnotizada na cadeira para buscar duas cervejas. Ainda tive tempo de conhecer um grupo de brasilienses que tinham estudado com o Renato e com o Deco, em algum momento, na UNB e estavam pilhados. Todos foram se sentar conosco e aproveitaram para perguntar aonde andava “aquele figura que era o cara que dava o melhor som nas festas”. Perguntaram também do Deco, que “parece que estava escrevendo altas crônicas de futebol”
Começa o segundo tempo e chovia, uma chuva sinistra. O jogo estava mais truncado que no primeiro tempo, embolado no meio de campo. Aos 10 minutos, após triangulação com Nazarenko e Radchenko, Shevchenko toca no ângulo de Barthez, que ainda se esticou inteiro. Empate em 2x2 e o vento aumentava, na medida em que os franceses paravam de cantar e se abrigavam em suas bandeiras azuis.
Aos 19 minutos, em escanteio, Diarra sobe no terceiro andar para fazer um gol igual ao primeiro da final da Copa de 98 e colocar os franceses novamente em vantagem. Agora, França 3x2 Ucrânia. O vento se tornava cada vez mais frio.
O jogo continuava disputadíssimo, até que aos 29 minutos, após falta violenta de Cissé e revide de Nazarenko, ambos foram expulsos. A França perdia o melhor jogador da partida. Logo em seguida, em cobrança precisa como um tiro de Kalashnikov, Radchenko empata novamente a partida. Agora 3x3 e o vento continuava intenso.
Dentro do pequeno fórum de brasileiros entusiasmados com a dramaticidade da partida, foi sentida a falta dele, do gênio Zinedine Zidane, que não se sabe por que, parecia alheio à partida.
Aos 42 minutos, o lance que definiu a partida e entrou para a história do futebol; contra-ataque rápido ucraniano, parado por Makelele com falta na linha de fundo. Centro rasteiro de Radchenko para o meio da área e Zidane, num lance atabalhoado intercepta a arremetida de Shevchenko com um carrinho atrasado. Penalidade máxima. O velho Sheva bate e converte. Ucrânia 4x3 França.
Neste instante, o vento produzia um assobio lúgubre e Zinedine Zidane, um semideus do futebol abaixou a cabeça e rumou, sem qualquer aviso de substituição para o vestiário. O estádio inteiro observava, em espanto, os últimos passos da carreira de um dos maiores ídolos do velho continente. Quanto a nós, tagarelávamos como nunca. Lembramos, que, afinal de contas, Waterloo estava a apenas algumas centenas de quilômetros dali.
Fim de jogo, nada de festa de ninguém, nem de franceses, alemães ou sequer ucranianos. Silêncio, aquele vento irritante e fomos para uma taverna quente no bairro gótico para nos esquentarmos e continuarmos a falação. Mas afinal, que fim tinham levado o Deco e o Renato?? Quanto ao jogo, a Ucrânia, novata em Copas já estava nas quartas, tendo batido a França num memorável 4x3.
Podem me prender, podem me bater. Eu não mudo de opinião. Não mudo. Para mim, o Castrili não errou naquele distante Lusa e Corinthians, já no século passado. O zagueiro luso, acho que foi o César, foi de uma imprudência atroz ao matar aquela bola com o peito, quase com a pelota no chão. Resvalou no braço, e se mudou o trajetória, cal. Mas sou o único, além do próprio Javier, e da mãe dele, que acham isso.
Escrevo isso para afirmar que é preciso, indispensável até, que sejam criados mecanismos para mitigar, palavra bonita esta, a interferência dos erros de arbitragens nas desculpas nos jogos de futebol. Vejam a noite de quarta feira, Morumbi lotado. O Lance, periódico esportivo, chegou a dizer que o Palmeiras era freguês até no apito! Mas, alguém acha que foi falta do André Dias naquela lambança com o Edmundo? O árbitro foi triste durante a peleja, muito triste. Quis aparecer mais que os vinte e dois em campo e os sei lá quantos mais na banca de suplentes. Mas não houve nenhum erro absolutamente grosseiro, incontestável, evidente tal qual a luz do sol. A arbitragem foi ruim, truncou o jogo, amarelou todo mundo e depois não teve peito de expulsar os exagerados. Porque expulsar o Leandro até o Marcelo Portugal Gouveia ia expulsar. O fato é que não se pode mais conviver com recursos extraterrestres de imagens e sons e a solidão do homem do apito. Não se pode e ponto. Quase final. Não mudo de opinião, para mim foi pênalti do Cristian, foi penalidade aquela bola na mão do tal do Wendel e foi falta do Edmundo. E no primeiro tempo, o Fabão segurou o Washinton, dentro da área.
Não quero defender uma junta para decidir questões de arbitragens. E nem acho que um erro aqui e outro acolá não façam parte do charme e dos mistérios que fazem do futebol este jogo fascinante. Acho que os árbitros devem ter suas atuações analisadas com mais rigor e que se deve emprestar o videoteipe para o quarto árbitro. Mas, fundamentalmente, prefiro que não se erre a cobrança de penalidade, se acerte duas vezes. É treino, não é sorte.
Oitavas de final da Copa do Mundo. Brasil e Itália. Nosso grande trauma futebolístico. As imagens do jogo de 82 são repetidas e comentadas à exaustão nos noticiários esportivos, rádios e jornais. Graças à qualidade do atual time brasileiro, quase tão bom quanto o de 82, esse jogo é visto como a verdadeira revanche, apesar do Brasil ter vencido a Itália na final de 94. O clima no estádio é tenso, diferente do clima que vi nos jogos da fase classificatória. Me dirijo à torcida brasileira e aguardo ansiosamente o início do jogo.
A partida começa morna, com os times se respeitando demais para o meu gosto. Isso até os quinze minutos, quando Ronaldinho Gaúcho mete uma bola nos meio das pernas dum italiano, manda um chapeú no seguinte, cruza pra área e Adriano completa de bicicleta; Brasil 1 x 0 Itália. Foi o que bastou para a seleção brasileira perder o respeito pela Itália, o que se viu a seguir foi impressionante.
Aos 20 minutos, depois de sete pedeladas em cima de Nesta, Robinho centra a bola para Ronaldo Fenômeno: 2 x 0.
Aos 27 minutos, lançamento de Gaúcho, Ronaldo enfia o pé: 3 x 0.
Aos 30 minutos, novo lançamento, Adriano enfia o pé: 4 x 0.
Aos 36 minutos, tabela fantástica entre Robinho e Gaúcho dentro da área: 5 x 0.
Acaba assim o primeiro tempo, com inacreditáveis 5 x 0 pro Brasil. Me divirto xingando os italianos, que já começam a sair do estádio.
Segundo tempo.
Já aos 2 minutos, escanteio, Kaká de cabeça, 6 x 0.
Aos 5 minutos, Gaúcho chapela dois, mete debaixo das pernas do terceiro, corre em direção ao gol, finge que vai chutar, mas trava a bola, goleiro de bunda no chão, passe para Robinho: 7 x 0.
Depois disso, o Parreira começou a fazer substituições para poupar os titulares. A Itália descontou, e o Brasil só fez mais um, penalti.
Brasil 8 x 1 Itália.
Acordo e me preparo para pegar o trem. Acho que o jogo real não vai ser nada fácil.
Categoria: A Nossa Copa do Mundo Escrito por Zecão às 16h23
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Análise imparcial do Timão
Pessoal, o momento é difícil para os corinthianos e não devemos tripudiar. Segue análise imparcial do Timão, feita por um repórter estrangeiro...
En Foco: Corinthians de Sao Paulo
Apenas acumula 4 Brasileiraos y se lo reconoce como a un equipo 'grande' por los 25 campeonatos Paulista que logró. Jamás ganó la Libertadores, ni ningún torneo internacional. ¿Qué ganó la Copa Mundial de Clubes? Sí, papelón de por medio.
Desde que Carlos Tévez logró escaparse de la tacañería de Mauricio Macri, los medios argentinos hablan del Corinthians como si se tratara del Real Madrid. Que el Timao es el gran campeón, el equipo sensación de Brasil y bla bla bla. Todo vale a la hora de inflar a un equipo que -a nivel histórico- está muy lejos de ser lo que muchos intentan aparentar.
No se duda de que tiene varios millones de torcedores y que solo eso lo convierte en un equipo de gran importancia a nivel mundial, pero tampoco se puede obviar que únicamente en San Pablo viven más de 20 millones de habitantes. Entonces, ¿cómo no ser popular en la ciudad más popular de Latinoamérica?
En el aspecto deportivo, se podría decir que el conjunto paulista es una especie de Vélez, algo así como un equipo medio pelo que emergió a partir de los 90. Es que recién al comienzo de esa década (en 1990) se consagró por primera vez como campeón del Brasileirao, el campeonato más importante de Brasil. Hasta ahí sólo había acumulado 20 torneos Paulistas, título que disputan únicamente los equipos del estado de Sao Paulo y que se reparten año a año entre Corinthians, Palmeiras y San Pablo. O sea, su obtención está lejos de ser una epopeya.
Hoy cuenta con 4 Brasileiraos, 25 Paulistas y una Copa Mundial de Clubes, la cual ganó 'inevitablemente' en el 2000. Ese torneo lo disputó por haberse consagrado campeón en su país en 1999 (¿? River también lo fue y no recibió ninguna participación), aún cuando el Timao ¡jamás ganó un título internacional! Que ese Mundial haya tenido sede en San Pablo explica esos interrogantes. Como también ayuda a entender que la final se haya jugado entre los dos anfitriones del certamen (el otro equipo fue Vasco da Gama de Río de Janeiro) cuando participaron clubes como el Real Madrid y el Manchester United.
Perdón, mejor retractase y poner cada cosa en su lugar: Vélez será un equipo medio pelo, y si bien no tiene millones de hinchas (apenas cuenta con una pandillita), nadie le regaló nada.
Por Alejandro Lopez Mateo para La Página Millonaria
Há algum tempo, o grande cineasta paulistano Ugo Giorgetti descreveu a importância dos erros de arbitragem como consolo para os torcedores derrotados. Penalidades mal marcadas, impedimentos inexistentes, cartões vermelhos infundados – eis o elixir para a dor de cabeça pós-derrota. O roubo do juiz seria o analgésico dos derrotados. Ou alguém duvida que o trauma de 82 seria menor se o terceiro gol do Rossi tivesse sido feito com a mão?
Ocorre que nos últimos tempos, o uso exagerado do remédio, além de não reduzir as enxaquecas, vem produzindo um efeito colateral insuportável. Vide as indefectíveis mesas redondas do domingo à noite (que não são mesas, nem redondas e não só aos domingos à noite). É um tal de imagem congelada, câmeras lentas, tira-teimas, comentaristas de arbitragem e um veredicto implacável para as discussões da segunda-feira: se não fosse o maldito árbitro, era Deus no céu e o caneco pra fiel.
Como se o futebol não fosse mesmo o esporte do erro. Como se a riqueza do esporte não estivesse nas poucas e simples regras, arbitradas, de modo binário, pelo homem de preto. Como se o futebol não estivesse evoluindo para um esporte de contato tipo rugby. Como se não fizesse parte do esporte, por óbvio, que alguém sempre vai perder a peleja.
Por trás deste excesso de “zelo” com a arbitragem, uma única constatação: como é difícil internalizar a derrota. Como aceitar que a Itália de 82 jogou muita bola, que a França era o melhor time de 98, que a mão de Deus de 86 foi genial, que o Márcio Rezende de Freitas é ruim mesmo.
Internalizada a regra, viciados em barbitúricos, eis a tragédia do jogo de ontem: o Corinthians jogou bem. Não tem um bom time, é verdade. Mas jogou muito bem. Mas perdeu o jogo. Sem nenhum erro do juiz. Sem querer justificar a selvageria de ontem, tenho pra mim que se o terceiro gol do River tivesse sido roubado, nada teria ocorrido. A torcida teria saído do Pacaembu enfurecida, odiando os paraguaios (ou os latinos conterrâneos do juiz). Mas imagino que os alambrados do Paulo Machado teriam sido poupados.
Diante da derrota, vale ainda a velha e boa lição: ao vencedor as batatas.
4 times se classificaram conquistando os 9 pontos: Costa Rica, Gana, Brasil e Coréia do Sul.
4 times não conquistaram ponto: Polônia, Sérvia e Montenegro, Estados Unidos e Espanha.
O melhor ataque: Holanda, com incríveis 15 gols (destaque também para a Coréia, com 11).
A melhor defesa: Brasil, que não foi vazado.
Melhor Saldo: Holanda, com 13 (A Coréia tem impressionantes 10 gols de saldo).
Os piores ataques foram: Espanha, Estados Unidos e Polônia, com 1 gol.
A pior defesa foi a da Argentina: 14 gols sofridos (Trinidad levou 11; Sérvia, 10).
O pior saldo: Trinidad, com -9 gols.
8 jogos tiveram 6 ou mais gols: Tunísia 6 X 4 Arábia, Arábia 3 X 3 Ucrânia, Japão 3 X 4 Croácia, Holanda 11 X 0 Argentina, Argentina 6 X 2 Sérvia e Montenegro, Paraguai 6 X 0 Trinidad, Trinidad 1 X 5 Suécia e Costa Rica 5 X 1 Polônia.
A cobertura desta 1ª Fase da Copa desenhou momentos inesquecíveis. Roubalheiras deslavadas. Surpresas. Prisões. Tumulto. Sururus dentro e fora de campo. Inesperadas incontinências.
Selecionados tradicionais caíram. Novatos ascenderam. Algumas tristes aposentadorias. O sopro de novos craques. Decepções e esperanças.
A Copa é o quarto do Imponderável. Aqui ele se despe das meias e refestela o corpanzil na cama.
Pega o controle remoto, ajeita a cabeça na almofada e sorri, antevendo mais uma jornada de trabalho.
Bolonistas, é isto o que vê o Imponderável:
Costa Rica X Inglaterra – Munique
Holanda X Portugal – Leipzig
Suécia X Alemanha – Stuttgart
México X Costa do Marfim – Nuremberg
Gana X Croácia – Kaiserslautern
Coréia do Sul X Tunísia – Colônia
Brasil X Itália – Dortmund
Ucrânia X França – Hanover
E ele, o Imponderável, busca um punhado de salsichas enquanto sorve um generoso gole de cerveja de trigo, encharcando seus bigodes de morsa. Gargalha, gargalha.
10 minutos do primeiro tempo: escanteio, gol da Holanda.
20 minutos do segundo tempo: Tevez entra na área sozinho, o goleiro holandês faz penalti, quebrando os dois joelhos de Tevez, que se aposenta. Sururu.
30 minutos do segundo tempo: Mascherano vai bater o penalti, mas inacreditavelmente, chuta a grama, quebra o tornozelo e arrebenta o joelho. Também se aposenta. A bola fica intocada. Alguém finalmente bate o penalti e erra.
31 minutos: gol da Holanda.
35 minutos: gol da Holanda.
37 minutos: gol da Holanda.
40 minutos: gol da Holanda.
42 minutos: gol da Holanda
44 minutos: gol da Holanda.
46 minutos: gol da Holanda.
47 minutos: gol da Holanda.
48 minutos: gol da Holanda.
49 minutos: gol da Holanda.
50 minutos: gol da Holanda.
Fim de jogo.
Holanda 11 x 0 Argentina.
Holanda
VALE UM REGISTRO DA HERÓICA DESCLASSIFICAÇÃO DO GOIÁS, NA LIBERTADORES. INFELIZMENTE AMADORISMO E LIBERTADORES NÃO COMBINAM. DE QUALQUER FORMA, OS JOGADORES ATUARAM COM BRIO E RAÇA E A TORCIDA DEU UM ESPETÁCULO DE APOIO E CIVILIDADE. PARABÉNS GOIÁS!! Escrito por Ogro às 09h13
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Jogo de Copa do Brasil é muito foda.
Definidos os semifinalistas!
Em uma partida marcada pelo confronto entre dois veteranos, ambos com passagem pela seleção, Edílson brilhou. Túlio não.
O Capetinha marcou dois. O primeiro: um golaço.
Parabéns, Vasco! Que partida!
Parabéns!
Ah, já ia me esquecendo: não, me esqueci de nada não.
Existem jogos em que não torcemos para ninguém, em que os dois times são adversários detestáveis. São os Fla-Flu para os torcedores do Vasco, os Cruzeiro x Atlético para os torcedores do América, e os Palmeiras x São Paulo para os corinthianos. Nesses jogos em que não temos preferência para time nenhum – muito pelo contrário, detestamos ambos –, queremos mesmo é que ninguém ganhe, que ninguém se classifique, que caia uma bomba no estádio. O juiz Wilson, no jogo de ontem, foi essa bomba. A explicação para a sua arbitragem é uma só: Wilson de Souza de Mendonça é corinthiano. Jogou bombas no Palmeiras e no São Paulo. Desagradou os dois, enquanto se divertia surdamente pela baita confusão que criou.
Para provar que Wilson é corinthiano vamos aos fatos.
No começo do jogo, Wilson, o corinthiano, claramente se lembrou das eliminações do timão para o Palmeiras. Apitou todas as faltas para o São Paulo e, lá pela metade do primeiro tempo, distribuiu três cartões amarelos seguidos para os verdes. Foi uma curta vingança contra as duas eliminações consecutivas em 98 e 99. O Corinthians merecia melhor sorte do que perder duas vezes nos pênaltis para o maior rival. O Corinthians naquelas Libertadores tinha um baita time, pensou Wilson.
Então, o São Paulo começou a ensaiar uma goleada e o juiz Wilson, o corinthiano, lembrou-se de como é irritante a arrogância tricolor. Como os são-paulinos se acham os maiorais, pensou. Como cantam “vamos golear” aos 15 minutos do primeiro tempo. Como falam dos títulos mundiais. Como não reconhecem o títutlo da Fifa de 2000. Neste momento, Wilson deu alguns cartões para os são-paulinos e inverteu algumas faltas, alguns escanteios para os palmeirenses. Wilson ensaiou um apoio tímido para o Palmeiras, até porque não dá para corinthiano apoiar o efusivamente o porção.
O primeiro tempo acabou e o juiz corinthiano claramente foi percebendo que estava ficando clara a classificação tricolor. O São Paulo jogava melhor, tinha a torcida a seu favor, ganharia facilmente. Então, ocorreu o lance capital do jogo. E foi antes mesmo de a bola voltar a rolar. Edmundo se aproximou de Wilson e o juiz lembrou que o animal lutou bravamente pelo timão numa Libertadores nos anos 90. Edmundo brigou com equatorianos, chegou a ficar preso no país de latitude zero. O timão voltou e o animal ficou só no hotel. Tudo porque batalhou pelo Corinthians, fez gol contra o Grêmio de Felipão. Os corinthianos detestam o Felipão. Wilson se lembrou da luta de Edmundo pelo timão e apontou falta de André Dias, quando quem fez a falta foi o próprio Edmundo. Na cobrança, o Palmeiras empatou e o juiz Wilson se sentiu o Marcelinho Carioca. Só faltou correr girando os braços, debochando do Morumbi.
Em seguida, Wilson expulsou o desertor corinthiano Leandro. “Saiu do timão para ser tricolor, agora, saia já do jogo!” E o Palmeiras ensaiava mais um vitória na Libertadores, quando Wilson pensou: "Putz, podemos cruzar com o Palmeiras lá na frente e eles sempre eliminaram a gente". Então, o juiz cortou uma bola palmeirense com os pés e armou um contra-ataque do São Paulo. Junior recebeu a bola avançou e foi derrubado na área. “Eliminaram o Corinthians nos pênaltis, agora tomem essa”, pensou o juiz. Baita vingança contra o Palmeiras. Mas eis que quem se apresentou para bater foi o Rogério Ceni, detestável aos corinthianos. Ceni é, para o povo do Tatuapé, aquele símbolo da arrogância suprema são-paulina. Wilson, então, anulou o gol de pênalti de Ceni. Mandou voltar por um fato inédito. Uma invasão de dois passos na meia lua, invasão que nem a televisão pegou. “Toma, Rogério Ceni”, pensou Wilson, lembrando de quando ele tomou frango pela seleção num jogo contra o Barcelona e negou que tenha falhado. Aí, Ceni bateu novamente e Wilson, o corinthiano, teve que validar o gol. Mas, logo em seguida, se arrependeu. É que Ceni o encarou com a "empáfia são-paulina". E o placar marcou o recorde de Ceni: 63 gols de goleiro, o maior goleiro artilheiro. Então, no lance seguinte Wilson deu tiro indireto contra Ceni e amarelo para o goleiro. Depois, arrastou o jogo para desespero dos são-paulinos. “Vou fazê-los sofrer”, pensou. E fez. Mas, no final, lembrou-se de que haviam palmeirenses em campo e distribuiu alguns vermelhos após o fim jogo. “Tomem, seus porcos! Fora! Pra fora!” Wilson, o corinthiano, teve uma noite quase plena de realizações, ontem. Seu único arrependimento é que não dava para eliminar os dois times. Ele bem que tentou, pôs os nervos dos dois em frangalhos, expulsou para ambos os lados, amarelou times inteiros, deixou rolar caneladas, socos e etc. Mas, infelizmente, para Wilson, o corinthiano, um time tinha que avançar. Escrito por Jubas às 14h09
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Adoro o Conde. Juro por Deus.
"Gostaria de parabenizar também a presença do espanhol Zubizarreta, um dos maiores goleiros da história do futebol mundial "
Luís Paulo Conde, vice-governador do Rio, se referindo ao presidente do Comitê Olímpico Paraguaio, Ramon Zubizarreta, durante a reinauguração do Parque Aquático Júlio Delamare.
Com alguns dias de folga, fui para Brugges, na simpática Bélgica, para alguns dias de descanso, antes de encontrar minha pequena e animada Priscila e seguir na peleja da Copa de 2006. Realmente foram dias muito saborosos de caminhadas à toa por uma cidadezinha medieval, muitas horas de sono e aquele clima bucólico.
A Bélgica é um pequeno país que sempre me vinha à cabeça por um dos melhores episódios de Asterix, por cervejas maravilhosas feitas por monges, pelo singular e delicioso hábito de se comer mexilhões com batatas fritas, pela revelação de alguns dos melhores goleiros que eu vi jogar, algo que me trouxe a lembrança do Pança (aonde andaria aquele Bolonista vagabundo??) e pela adoração a uma estátua de um molequinho mijão de meio metro de altura.
Bom, convocação da redação e da minha casa, saí do descanso e fui para a frenética Paris. Descobri que o Franklin e a Elke estavam desvairados na cidade luz e fui atrás deles. Pouco depois, já estávamos bêbados em uma Brasserie do Quartier Latin e em seguida num clube de música africana, aonde o Franklin, com a sua cara de árabe já tinha feito amizade com um punhado de tunisianos que iriam para a Alemanha assistir o fenômeno Francileudo.
Sem tempo para dormir, fomos buscar a Priscila no Charles de Gaulle e, de lá, fomos direto para uma estação ferroviária, para conseguir um trem para Leipzig. Dormimos no trem.
Nos últimos dias, acompanhando a crônica esportiva da Bélgica e da França, pude perceber que todos estavam tratando o prélio com a Coréia com um imenso desdém e escárnio, graças às alegações de favorecimento ao time coreano contra a Itália e Espanha em 2002 e o próprio time coreano e a Coréia, em geral, com um asco preconceituoso.
Ao chegarmos na cidade, de 500 mil habitantes, monótona como a maioria da Alemanha, percebemos o clima, um clima tenso, não um clima de clássico, mas um clima hostil. Comemos num restaurante que mais parecia o refeitório de um quartel, tomamos algumas cervejas, por insistência do Franklin e fomos ao estádio. Belíssimo estádio, o Zentralstadium, com as suas arquibancadas formando ondas.
Já dentro do estádio, nos perfilamos junto a um bando de alemães, numa zona neutra. Do nosso lado esquerdo, um grupo de torcedores franceses, hostis, enrolados em bandeiras azuis. Do outro lado, um grupo de coreanos, com uma aparência não menos hostil, ostentando gigantescos instrumentos de percussão. Realmente o ar do estádio era pesado.
A Coréia é um país com uma cultura milenar, que no século XX se transformou em marionete de interesses japoneses, chineses e estadunidenses e é lembrada pelo mundo ocidental como um país que teve uma guerra que a dividiu no meio, sempre mal retratada, uma economia que cresceu rapidamente com os seus “chaebol” e, principalmente, como um país aonde se come carne de cachorro.
No campo, perfiladas as seleções, a França trazia a segurança de Barthez, a experiência e categoria de Thuram, a agressividade de Henry e Trezeguet e o gênio Zidane. Do outro lado, o “odioso” time coreano trazia muitas caras parecidas e nomes quase iguais, desconhecidos, com a exceção de Park Ji-Sung, do Manchester United. A vingança européia contra aquele time que havia desonrado duas grandes seleções daquele continente estava por começar.
Naquele dia cinzento, no meio do campo, nós quatro podíamos ver a figura imponente do Dr.Sobrenatural de Almeida, impávido e risonho. Só nós quatro. Delírio nas torcidas, começa o jogo. A França começa, impondo o seu toque de bola refinado. Bola pra Makelele, pra Vieira, pra Zidane, passe magistral para Makelele, bola roubada por Lee Young Pyo e passe longo, no meio da zaga francesa para o arremate fraco de Park Ji-Sung, no canto esquerdo, deslocando Barthez. Cinco minutos de jogo e Coréia 1x0.
Logo na saída de bola, lambança de Diarra, que tocou a bola para trás e arremetida coreana, com o rápido Park Ji-Sung, que tocou para o platinado Lee Chun-Soo avançar sozinho e tocar por cima de Barthez. Coréia 2x0.
O pânico tomou conta da seleção francesa e a seleção coreana, longe da desconfiança de 2002 se travestiu de glória, aquela glória do dentista Pak Doo Ik na Copa de 66 e se agigantou. O encantamento se traduziu na cara da minha pequena e entusiasmada Priscila, que sorria como uma menina e nos outros, que ríamos compulsivamente. Decididamente, o que se via, para a alegria do grande cronista Demétrius, era um baile de orientais voadores.
Aquela dança ia fazendo com que Thuram, já não mais um menino, corresse sem rumo e Barthez, outrora uma fortaleza, se convertesse numa linha Maginot, prestes a ser tomada pelo inimigo.
Aos doze minutos do primeiro tempo, Park Ji-Sung marcou um golaço de voleio, trazendo o estádio abaixo. Nesse momento, a Alemanha era coreana. Coréia 3x0.
Após minutos que pareciam séculos para os franceses e uma resistência bravíssima, um petardo disparado por Park Jae-Hong em cobrança de falta cravou o 4x0 para os franceses. Eram 32 do primeiro tempo. Nove minutos depois, Park Ji- Sung driblou, de maneira humilhante, três franceses e tocou para Chung Kyung-Ho, que devolveu na medida para que a bola fosse empurrada suavemente para dentro do gol. Coréia 5x0 e revolta absoluta na torcida francesa, que passou a hostilizar fortemente os seus jogadores.
No final do primeiro tempo, após um carrinho violento em Park Ji-Sung, Thuram, num ato de piedade, foi expulso pelo árbitro. Era o ocaso do guerreiro. Fim do primeiro tempo. Na saída, troca de empurrões entre as equipes fazia prever um segundo tempo tenso.
Dentro do pequeno grupo brasileiro, Elke contemplava aquela confusão, eu me divertia com o fato de estar presenciando um fato histórico e o Franklin e a Priscila, eufóricos ao extremo, falavam pelos cotovelos e queriam ir, a todo custo, para o meio da torcida coreana. Consegui convence-los de que não era uma boa idéia.
Começa o segundo tempo e o ritmo era o mesmo, com orientais voando e franceses aparvalhados. O placar de 5x0 para a Coréia havia desesperado definitivamente os franceses. Aos 11 minutos, após outro carrinho violentíssimo, Henry, que não havia feito nada, foi expulso. Quatro minutos depois, uma troca de sopapos entre Lee Chun-Soo e o recém-entrado Cissé fez com que o juiz expulsasse os dois. Nesse momento, a França tinha oito jogadores e a Coréia dez. Aos vinte minutos, a jogada que enterrou o jogo; drible de Zidane em Choi Jin-Cheul, falta violenta deste e a lenda viva do futebol francês se levanta, descontrolado, desferindo um murro que arrebenta o nariz do Coreano. O caos, uma briga generalizada se instala e um coreano dá um chute na cara de Zidane. Socos para cá, chutes para lá e a polícia alemã consegue finalmente apartar os brigões. O juiz expulsa três franceses e três coreanos. Com isso, a equipe francesa fica com cinco jogadores e a coreana com sete. Assim, o jogo é encerrado.
A polícia toma o campo e conduz as seleções ao vestiário. Todos os expulsos foram condenados a punições que variavam desde um jogo de gancho até a suspensão imposta a Zinedine Zidane, de cinco jogos. Desta forma, o maior astro francês estava banido da copa. Resultado final, Coréia 5x0 França.
O numeroso grupo de franceses se retirou silenciosamente, com aparência de derrota, apesar das excelentes chances francesas de seguir adiante. Para eles, aquele seria certamente um dia amargo, difícil de se esquecer.
Quanto a nós brasileiros, finalmente nos aproximamos dos coreanos, que praticavam a sua percussão com força e nos receberam abertamente. Fomos para uma taverna obscura e, muitos e muitos chopps depois, a integração Brasil-Coréia já era total e até arriscávamos um sambinha naqueles tambores imensos.
Fortaleza x São Caetano pelo Campeonato Brasileiro de 2006, em 29 de abril, sabadão à tarde. Eu gostaria de deixar aqui registrado que eu vi, ao vivo, um dos lances mais fantásticos em um jogo de futebol, que merece destaque aqui nesta seção.
Não dá para descrevê-lo, por isso, todos devem ver o lance no kibeloco ou no youtube. Não basta ver a imagem, o áudio é essencial para a apreensão de toda a dramaticidade do lance.
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