Matutando, queria mesmo era escrever algo sobre Fidel. Sim, sobre o Comandante. Queria escrever sobre a extraordinária personagem do século vinte. Queria conversar sobre o ato de “renúncia”, sobre o futuro da ilha, sobre o que está e esteve em jogo durante todos esses anos pós Sierra Maestra.
As contradições, os discursos, os erros e acertos desse homem que demonstra que para determinadas histórias não há como caber a indiferença. Queria escrever com todas as letras que o nosso semanário mais patético mais uma vez confunde a crítica legítima com a estupidez crônica dos imbecis. E queria, por outro lado, não bajular aquele velho senhor revolucionário. Seria um texto de paixão, com certeza. Torcer por Cuba é quase uma extensão das nossas almas. Almas ingênuas. Descalços. Futebol de Botão e figurinhas para o bafo.
Discorrer horas sobre os índices de mortalidade infantil, analfabetismo, atendimento à saúde, desemprego. Debater as nossas frivolidades, os nossos carros chiques, vinhos importados, cervejas “pilsen” e charutos. Entender, ou tentar compreender, o que é a tal liberdade de ir e vir. Dialogar com a nossa apatia, nosso conformismo, nossa falta de sonhos. Ser sincero na crítica, no reconhecer. Extenuar as utopias.
Mas o texto não saiu. Fidel Castro é um senhor convalescente e lúcido. Minhas letras não conseguem expor o que quero dizer. Talvez noutra ocasião. Naquelas que são inexoráveis. Talvez algo saia e monte um panfleto, um texto, uma crônica. Talvez, quem sabe?
Naqueles dias que o tempo caminha sorrateiro, o sono envolve e o mundo gira, penso que não há melhor metáfora para definir o centro avante genial do que a denominação de “Comandante de Ataque”. Os geniais vão além dos goles dos trombadores, das plasticidades dos finalizadores de efeito, dos tentos de cabeça de Jardel, das nuances da pequena área. Os geniais são aqueles que exercem o comando da ação: Não sendo os meias de ligação ou os armadores do time, definem a estratégia do jogo, as ações de domínio do campo e atemorizam os zagueiros só com olhares de esguelha. São insubstituíveis e quando param de jogar exigem que se altere o esquema tático, para reforçar as linhas de defesa. São afiados e demolidores. Mas deixam nos torcedores sempre acessas as chamas da esperança na vitória, na virada, no gol de placa e até na derrota com dignidade.
Num 25 de fevereiro, como hoje, um Comandante de Ataque de estirpe, o melhor que vi jogar num estádio de futebol, estufava as redes do Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas, e empatava uma das partidas mais emocionantes da história do ludopédio. Naquele campeonato o tal Comandante fez coisas e coisas improváveis, esotéricas, apaixonadas, triunfantes, delirantes. Foi genial até o fim, quando errou na disputa das penalidades, como todos os gênios.
Ah, o futebol, aquele que além de uma caixinha de surpresas, como diz a máxima já popular, é uma roda-gigante:
Observo a classificação das três primeiras divisões do paulistão:
PRIMEIRA DIVISÃO: O Guaratinguetá lidera, com o Barueri em terceiro lugar. Dez anos atrás, alguém que previsse isso seria motivo de chacota. E para completar o quadro, o simpático e aguerrido Mirassol, do Caubas, está na frente, em sétimo, do Palmeiras, da Portuguesa e do Santos. O Juva segue na berlinda, como sempre;
SEGUNDONA: Em outros tempos, o Botafogo e o Comercial faziam um derbi de arrancar os cabelos, o famoso Come-Fogo, levando 20 ou 30 mil pessoas (ou às vezes até um pouco mais) ao Santa Cruz ou ao Palma Travassos (os seus estádios, outrora belos, por sinal). No ano passado, rodei por Ribeirão Preto e o que vi foram dois esqueletos morféticos. O Botinha está na 16ª posição, entrando na zona de rebaixamento e o Comercial está bem assentado na penúltima posição. O chopp do Pinguim está uma merda e Ribeirão Preto vai para o buraco. Do outro lado da moeda, Sorocaba, que no máximo produzia escretes razoáveis como São Bento, o "Bentão", tem na primeiríssima colocação o Atlético Sorocaba, time do Reverendo Moon (com um belo estádio) e na quinta, beliscando a fase final o "Bentão. Sorocaba virou uma nova Meca do futebol. De mais a mais, a histórica Ferroviária, de tantas glórias, deixou a quarta divisão e devagarzinho (está na sétima) vai subindo de volta para o lugar que lhe pertence: a primeira divisão.
TERCEIRONA: No meio de clubes mambembes (um deles se chama SEV/Biônico e outro pertence á Força Sindical), o meu Nacional vai tropeçando nas posições intermediárias e na zona de rebaixamento está o XV de Piracicaba, patrimônio do futebol paulista
O precoce ingresso de uma criança no mundo futebolístico, momento em que ela começa a entender os urros animalescos que seus pares mais velhos dão, o amor a algumas cores, a lágrima no rosto do seu pai, que você pensava que não chorava, a cantoria coletiva e a orquestra de fogos de artifício acontece logo que dão a esta criança uma bola e uma determinada camisa, certo?
Mais ou menos...
A criança ganha a bola, a bola corre como um instrumento indomável e a criança logo se encanta com o desafio de domar aquela linha reta, de transformá-la em zigue-zague, curvas, parábolas e o que mais a sua destreza permitir (a minha, todos sabem, era limitada). A camisa recebe diversos elogios e a criança se enche de orgulho. Temos aí um futebolista nato, certo??
Não, ainda não. O processo só se completa quando estas crianças, em grupo, perceberem as suas afinidades, simpatias, inimizades e desconfianças. Grande parte das crianças se aninha no colo do pai, o super-herói da hora e assume a missão divina de consuzir o seu legado. Outras crianças revelam traços precoces de rebeldia adolescente e se rebelam contra tudo o que o pai significa, inclusive as suas cores do coração. Além desses citados, um grande grupo tem como referencias adultas pessoas que esnobam o futebol, logo não se relacionam com o futebol em família. Estes, mais do que os outros, terão o seu destino traçado pelas já citadas simpatias, antipatias, amizades e inimizades.
Finalmente, além da definição de suas cores e do interesse pelas glórias dos que as vestem, ou vestiram, o verdadeiro boleiro é forjado através da escolha do seu antípoda, o seu adversário, aquele cujas cores causam repulsa e os infortúnios regozijo. Um são-paulino que vai jogar um torneio no Laos jamais sente nada, até que a final do torneio misteriosamente seja contra o Corinthians. O torneio Laociano é, então, o evento do ano.
Eu cansei de assistir com grandes amigos, amantes das mais variadas cores, partidas na Rua Javari, em que todos trajavam grená. Porra, é o Juva, o moleque travesso, o segundo time de todos. Este é a sua maldição; por não ter uma antípoda, o Juva, como Bonsucesso e o Jabuca dificilmente são as cores que grudam na pele de alguém. No máximo um time simpático, capaz de num único evento congregar milhares de simpatizantes - que os digam os 90 mil simpatizantes do Bangu, presentes no Maracanã na final de 85.
São-paulino que sou, fui definitivamente batizado no dia em que aprendi a detestar palmeirenses e corintianos, exatamente naquele dia em que fui sacaneado, vejam bem, após um jogo sensacional em que as minhas cores foram indiscutivelmente batidas pelo belo time da democracia corintiana. Um ano antes, como numa pré-estréia, senti o meu sangue ferver, sem entender por que, quando assisti no Morumbi, a casa dos meus, o manto tricolor ser derrubado por um bando de gremistas carniceiros. Os adversários (nunca inimigos) forjam no seu espírito a couraça mais dura, que faz com que, após doze anos da doce experiência de estar no topo do mundo, num boteco sujo em Taguatinga, eu estivesse pulando bêbado às 7 da manhã, cantando com um sujeito suado, desconhecido, apenas pelo prazer de ver um inglesinho metido de joelhos chorando, enquanto o manto tricolor estava de novo no topo do mundo.
Por esta razão, em nome do meu amor ao São Paulo Futebol Clube, eu agradeço, de coração, a todos os palmeirenses, corintianos, Vascaínos, Gremistas e muitos outros, apenas por vocês existirem.
Cada um com a sua peculiaridade idiota. A minha é buscar nações que podem se tornar times de botão no futuro. Funciona mais ou menos assim: Quando vejo que algum país declara a independência, umas das primeiras coisas que penso é como será o seu time de botão. Conseguirei comprá-lo em alguma loja? Chegará à semifinal de algum torneio botonístico importante? Virá com as cores e a bandeira do país, ou será meio falsificado?
Leio sobre a independência de Kosovo. Que há bombas, protestos, tiros, talvez, uma guerra. Que está morrendo gente lá e que a Sérvia e a Rússia não irão reconhecer. Mas, o que me chama a atenção é se terei a novata seleção na minha coleção de imaginárias pecinhas arredondadas. Penso até num jogo vermelho, sem bordas pretas, com aquela águia de duas cabeças no centro, a águia da bandeira da Albânia com a qual eles estão comemorando a independência. Águia ou seria um urubu? Se for águia será um jogo de botão meio nazistóide. Se for urubu será logo identificado com o Mengo. Poderá ser odiado ou adorado, dependendo do jogador-treinador que conduzir as peças.
Ou será um jogo azulado com as seis estrelas e o mapa kosovar em amarelo? Se for amarelo, iria “amarelar” literalmente. Se for azul, o que significam as seis estrelas? A superação das fronteiras da antiga Iugoslávia, hoje dividida em seis nações? Leio que Kosovo seria a sétima nação da ex-Iugoslávia. Iugoslávia, que já foi vice-campeão mundial de Botão. Perdeu para os tchecos na final, e sem a presença da Eslováquia. Eliminou o Brasil de Zagallo na semifinal. Perdia por 3 a 1, até que acertei um chute improvável da lateral do meio campo. Bola por cima do goleiro. Depois, Savicevic, o 10, fez outro golaço. 3 a 3. Os pênaltis e a obrigação de não favorecer o Brasil puseram tudo a perder. Brasil eliminado. Carnaval na Iugoslávia.
Estranho como começo a imaginar o futuro que teria a seleção de Kosovo nos campos de madeira. Clássicos com a seleção da Eslovênia, um dos jogos mais bonitos que adquiri: verde, preto e cinza, com desenhos indecifráveis e as letras NZL. Quando vi pela primeira vez, achei que era a Nova Zelândia. Afinal, NZL. É a seleção de mais difícil identificação. Mas, a beleza do uniforme faz milagres e a Eslovênia bateu Portugal de Felipão na última Eurocopa de Botão. 6 a 4, um jogo histórico. Tirou Portugal do próximo Mundial botonista, do qual a esquadra é a atual vice-campeã. E tiraria a Inglaterra. Estava 1 a 0 para os eslovenos até o começo do segundo tempo, quando Beckham acertou três cruzamentos e virou para 3 a 1. Kosovo versus Croácia seria outro grande jogo. A quadriculada Croácia eliminou as tradicionais Suécia e Hungria na última Eurocopa de Botão. E, para completar, Kosovo versus Sérvia, jogo para duas expulsões de cada lado. Seria como quando Líbano e Israel se enfrentaram pela primeira vez. O capitão libanês Hizbollah, camisa 10, foi expulso no primeiro minuto, o que não impediu sua equipe de marcar 4 a 0. Líbano foi à semifinal da Copa Afro-Asiática de Botão e acho que só perdeu por estar diante de outra equipe árabe, os Emirados.
Outro dia, fiz história. Comprei a seleção da Sérvia e Montenegro. Essa é única. Formada para apenas uma Copa, a da Alemanha. Não fossem os Fifa Soccers da vida, acredito que poderia vendê-la por uma baba num leilão futuro. Seria a raridade das raridades entre botonistas. Agora, vivo uma dúvida cruel. Devo usar o manto da Sérvia e Montenegro para abrigar apenas Montenegro? Afinal, uso o manto que era da Iugoslávia para abrigar a Sérvia. Os distintivos são parecidos – da Sérvia, da Iugoslávia e de Montenegro. Montenegro, onde nasceu Savicevic, o antigo 10 da Iugoslávia. Ocupava o lugar de Kaká no Milan. E a seleção de Montenegro jogaria com o artilheiro da Roma, o Vucinic. Kosovo versus Montenegro. Sérvios na torcida. Bombas em campo. Jogão!
E por que não Kosovo versus Brasil?! Seria uma barbada. Jogo para 8 a 1. Não fossem as zebras, como um Brasil e Líbano há uns dez anos. Ronaldo abriu o placar. Mas, Hizbollah estava demais. Líbano virou para 4 a 1. Suei frio. Mas, aconteceram uns pênaltis improváveis e o Brasil empatou. O resultado mínimo que precisava para avançar à próxima fase. Aí, tivemos Brasil versus Iugoslávia. Savicevic bem que tentou. Mas, Ronaldo, Rivaldo e Romário estavam naquele time. 3 a 1, fora o chocolate. Na final: Brasil e Bulgária. Stoichkov fez um. Ronado, dois. Final: 4 a 2. Cafu também fez gol e ainda levantou a taça.
A mão que segura o manche não sabe que estamos cem metros sob o rio. Acima das pequenas ilhas tomadas por pinheiros. Abaixo das nuvens que clareiam o Prata. A mão controla o manche, enquanto a outra segura com a mesma força um aviãozinho miniatura de um Legacy com a ponta de suas asas fatalmente inclinadas para cima. A mão no avião real e a outra no avião imaginário. Os dois parecem ter o mesmo valor para Lucas. Como se ele não distinguisse significados de sensações. Tudo, para ele, é o instante.
Comprimido na cabine, em meio a números, setas e o manche, olho para baixo e vejo o Sol reluzir nas águas barrentas como pequenos fachos de lanternas que cegam a visão. Torço para Lucas não olhar para baixo. Sentirá um fiasco de medo? Mas, ele continua firme na cabine. O olhar atento, o pulso reto, a nuca suada. 37 graus aqui dentro e nada de choro sob o manche. Nada de exitação. Nenhum movimento brusco. Nada como quando ele foi para o banco do motorista de um carro, há um mês. Ele mexeu nas setas para todos os lados, ligou o farol em todas as intensidades, girou o volante até travar. Acionou o párabrisa e riu quando saiu aquele jato de água com sabão. Ali, o motor estava desligado. Agora, as hélices giram a toda velocidade, fazendo um barulho quase ensurdecedor. “O avião tá bravo!”, comentou ele, enquanto a mão esquerda ameaçava apertar algum botão inusitado.
Vento batendo a toda a força na janela e o piloto Raymundo sorri com os olhos esbugalhados. Raymundo, décadas de vôo que o fazem ficar tranqüilo diante de eventuais inexperiências sobre o manche. O piloto fascinado pelo garoto que já no aeroporto falava: “Avião, avião, outro, mais outro”. No asfalto da pista, seus braços faziam o movimento de vôos imaginários. Até que entramos naquela cabine e o Raymundo trouxe o pequeno para o manche sob o olhar indiferente de um co-piloto que não disse o seu nome e continuou apertando botões e mexendo nos controles, enquanto Lucas permaneceu imerso em sua sensação de voar, rarefeito de significados.
Subitamente, somos interrompidos em nossa concentração, pela mãe. “Agora, chega”, diz ela, meio que rindo para não chorar para logo, em seguida, aumentar a voz. “Por favor, parem com isso!” O pequeno não dá muita bola. Continua concentradíssimo. Apontou para frente com o nariz. Balançou levemente as orelhas em direção aos ombros, como se ajeitasse os pensamentos. Ameaçou arrumar o gigantesco fone de ouvido, mas, num ímpeto, retornou às mãos para controlar o impacto de outra curva eventual do vento.
O manche treme devagar e me lembro que há 20 meses essa mesma mãozinha buscava o líquido amniótico em pleno ar. A mão fazia um movimento de concha: do ar à boca. Não encontrava nada. Ali, também não chorou. Nâo exitou. Esperou sair do berço aquecido, em formato de incubadora, para voltar para perto da mãe e se confortar.
Agora, conduz um avião tranqüilamente sob o rio da Prata. Uruguai à frente e o piloto Raymundo sorri enquanto nos aproximamos das árvores. Por um momento, acho que ele vai pedir para o Lucas fazer o pouso. Vejo a pista feita de grama e sinto uma inafastável responsabilidade de pai. Se, hoje, durmo com um olho aberto pensando no pequeno, como deixá-lo dentro de uma cabine, quase 40 graus, hélices ensurdecedoras, Legacy na mão direita, iminência de impacto com o solo e a mãe no limite do choro? Encerro a brincadeira, pensando nos significados. Não nas sensações. O pouso é tranqüilo, quase não sentimos a grama. Raymundo continua sorrindo, sabendo que foi um pouco irresponsável, sendo também responsável ao mesmo tempo. O Uruguai parece um vasto bosque, uma imensidão de gramados e pinheiros. Sem morros. Só horizonte.
Descemos do avião e, aqui também, nada de choro. Raymundo toma Lucas dos nossos braços e caminha em direção às hélices. Elas giram e Lucas sorri. Então, as hélices páram, ganham um beijo e todos sorrimos. E passamos o resto dos dias ouvindo: “Avião, adolei; avião, adolei; avião, adolei...”. Avião, carro, berço. Quantas sensações! Quantos significados!
Ainda sabendo que quase todos ou a totalidade de nossos leitores admiram e acompanham o Xico Sá, eu deixo seu rastro eletrônico para os interessados ou desavisados.
Amigo, reserva o joelho para dobrar pelas mulheres, para fazer prece, para, no máximo, bater uma bola com o Ronald
AMIGO TORCEDOR , amigo secador, homem que é homem chora em público, aos soluços, seja qual for o motivo, chora pela circunstância e chora pelo conjunto da obra, porque o choro de um homem nunca é um choro isolado, homem chora a dureza represada de ser homem, e triste dos homens que não choram nunca. Guga e Romário, por exemplo, choraram nesta semana o crepúsculo dos ídolos, a difícil hora de voltar para a vida normal de todos nós. Ronaldo chorou a mesma dor da outra vez, como ele mesmo disse, a dor que por mais que se repita é sempre capaz de surpreender até aquele homem doente, mau e desagradável que habita um subsolo perto da minha casa. Agora chega, amigo, reserva o joelho para dobrar pelas belas mulheres, para fazer uma prece, para, no máximo, bater uma bola no churrasco com o Ronald. Chega de sofrer em público, esquece essa loucura cristã e masoquista de dar a volta por cima. Vai ser craque na vida, menino, chega de provar para todo mundo que não precisa provar nada para ninguém, vai para a noite e transforma todos os dias seguintes em dias de Mastroianni, como os belos dias sugeridos pelo Cuenca, não o Deportivo da Libertadores, amigo, mas o João Paulo, escriba decente da aldeia carioca. ""O Dia Mastroianni", como relata o livro homônimo, é aquele gasto em pândegas excursões a flanar na companhia de belas raparigas, à brisa das circunstâncias e alheio a qualquer casuística. Ronaldo, amigo Fenômeno, os sádicos já estão lá fora, salivando à espera do seu novo sacrifício, de uma nova via-crúcis, de que abra a mão da vida livre e farta em nome de uma tal superação masoquista. Pensa bem, amigo, se a meta é se recuperar para as artes ludopédicas, levará pelo menos um ano, e olhe lá, é muito tempo. Se a recuperação é só para a vida e suas delícias, basta tirar os pontos e começar o estrago logo aí mesmo em Paris. Asseguro que terá mais boas festas do que o Ernest Hemingway; garanto que Henry Miller vai se debater no túmulo com a doce inveja das suas mulheres. Ora bolas, amigo, esquece os gramados, esquece essa torcida chata de Milão, esses doentes por futebol são um saco, nem conseguem enxergar os jogos, consagram e condenam num piscar de olhos. Vem para o Rio, meu rapaz, esquece as famosas e vê quantas belas bundas anônimas e menos trabalhosas. Sim, despede-se no Maraca, num jogo entre amigos, um tempo com a camisa do Flamengo e o outro com a indumentária do divino São Cristóvão, o berço, onde até aquela cabrita magra que pasta na grande área sente saudades dos seus primeiros gols.
O corvo lamenta Lamentável que a Copa do Brasil, torneio sagrado dos grandes secadores espalhados pelo país, tenha perdido um pouco do seu charme. Como mostrou esta Folha, muitos clubes estão largando seus grotões para jogar nas capitais e até fora de seus Estados. Esse abandono da aldeia, incentivado pelas malditas transmissões da Globo, é criminoso. Meu corvo Edgar estava tão triste anteontem que nem viu os jogos. Preferiu ver o Tarcísio Meira no filme ""Eu", do genial Walther Hugo Khouri, no Canal Brasil.
Eu, argentino de alma, aproveito a seca que povoa a minha cabeça, neste momento chuvoso de Brasília para publicar, sem pedir autorização, diga-se, um texto a mim remetido por um grande amigo, Luis Eduardo Patrone Regules, uruguaio da gema, companheiro de biritas e parrilladas, fã de futebol, do tricolor paulista e do tricolor uruguaio (Nacional). Grande profissional, seria uma bela contratação para equipe do nosso governo.
A cultura contemporânea acirrada, talvez, pelo espírito altamente competitivo que o capitalismo em desenvolvimento nos reserva, parece difundir a crença generalizada na “vitória” como valor supremo, quase único. Explico. O pensamento dominante nos induz a acreditar – e, sobretudo, a sonhar – na busca frenética por vitórias, como se o revés, a derrota jamais tivessem alguma serventia à condição humana.
Neste contexto, o homem–modelo é aquele que coleciona vitórias e, ao mesmo tempo, afasta-se, como o diabo da cruz, de tudo aquilo que tenha o cheiro de derrota. Vitorioso é o ganhador da Mega-Sena, o primeiro colocado no campeonato brasileiro de futebol (já ser vice é uma desgraça), aquele que vira chefe ou dono da empresa com menos de 30 anos de idade, e por aí afora. Se o universo de vitórias torna-se um tanto seletivo, não seria absurdo inferir que a extensa massa humana compõe-se de indivíduos, por assim dizer, não-vitoriosos.
Por óbvio, não se está aqui a reduzir a relevância das conquistas, dos sucessos humanos, aliás, desejáveis por natureza. Quem não quer vencer na vida? Contudo, não mais se sustenta a idéia corrente, tosca por essência, de que ou você coleciona vitórias ou você não é ninguém. É como se a condição humana pudesse apenas ser classificada em blocos bipolares, “vitória ou fracasso”, uma espécie de “tudo ou nada”, sem que por detrás desses conceitos existam diversos matizes, variadas experiências e realidades.
Em verdade, parece razoável admitir que certas derrotas deixam-nos algum ensinamento. O futebol, na sua plêiade de paixões, nos apresenta essa realidade bipolar de maneira intensa e, talvez, incomum. Não obstante, a derrota pode abrir novos caminhos.
Neste sentido, cumpre observar que alguns espertos do futebol julgam a derrota do Brasil na Copa do Mundo de 1950, marcado pelo sofrimento do “Maracanazo”, como elemento aglutinador e catalisador de posteriores vitórias que se tornaram históricas, a exemplo dos campeonatos mundiais de 1958 e 1962, respectivamente, na Suécia e no Chile.
Aliás, o esporte se revela fenômeno repleto de situações em que o ser humano busca superar seus limites, o que não afasta, de forma alguma, a experiência da derrota. É justamente nos momentos de adversidade – e, mesmo, de fracassos – que podem aflorar lideranças, bem como novas estratégias de jogo. Os esportes coletivos, sobretudo, nos deslocam para o refinado equilíbrio entre as aptidões individuais e a força do grupo. Em suma, não é apenas a vitória que nos ensina algo, normalmente os campeões são forjados na avaliação dos próprios erros ou acertos de seus adversários.
Mas, idéias como estas, ainda que mereçam discussão, não tenho dúvida disso, se afiguram aparentemente pouco comoventes no universo contemporâneo.
Neste sentido, fiquei bastante surpreso ao constatar, por intermédio do Jornal Metro (6/12/2007 – p. 10 - “São Paulo quer torcida de ‘vira-casaca’ – clube lança projeto para converter rivais” ) a existência de campanhas em clubes brasileiros para a conquista de torcedores de outros times. A chamada conquista do “vira-casaca”.
O mote dessa estratégia, aplicável a times que conquistam liderança no campeonato de futebol, vem associado à idéia de vitória. Afinal, segundo seus defensores, o torcedor não quer saber de times derrotados, não existe graça alguma nos “fracassados”, melhor mudar para o time campeão.
Desafortunadamente, o São Paulo Futebol Clube, time de minha preferência, se dobrou a essa estratégia frágil, pouco consistente, ao buscar a ampliação de sua torcida até mesmo em outras fileiras, mediante a entrega de presentes e outros agrados. Em relação à organização administrativa e eficiência na gestão temos que “tirar o chapéu” à diretoria desse clube, o que não nos habilita, por outro lado, a defender estratégias de “conversão” de torcedores.
Recordo dos tempos de infância, dos jogos nos campinhos de futebol ou na quadra da escola, o pouco prestígio que detinha o sujeito “vira-casaca”. Era o Corinthiano ou o Palmeirense que virava São-paulino ou vice-versa. Atualmente parece que há dirigentes interessados em transformar esse fenômeno numa conduta corriqueira, para a tristeza do futebol. No caso do São Paulo F.C., penso que os seus dirigentes, de reconhecida competência, devam esquecer a idéia da “conversão” para centrar fogo naquilo que realmente interessa.
É importante observar que a diversidade também é boa para o futebol. Qual o sentido em amesquinhar a rica e generosa diversidade entre times e torcidas no futebol brasileiro? Porque devemos torcer em quantidade avassaladora para determinado time? Quem disse que o Corinthians de nossos dias, em plena segunda divisão do Brasileiro, outrora campeão em várias oportunidades, como na memorável final de 1977, não estará em breve na primeira divisão acompanhado da sua imensa e fiel torcida? E para isto também terá que apostar numa gestão moderna.
Aqui retomo o ponto que me parece crucial: a maneira confusa pela qual a sociedade contemporânea enxerga a vitória e a derrota (ou será que enxerga?).
Em outro giro, mais precisamente no contexto essencialmente político, o antropólogo Darcy Ribeiro, autor de obras clássicas como “Maíra” e “O Povo Brasileiro”, ex-ministro da educação do governo João Goulart, com relevantes serviços prestados ao país, cunhou a famosa frase carregada de auto-ironia: “Somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas detestaria estar no lugar de quem venceu”.
Darcy lutou pela democracia, mas perdeu em 1964 com o advento da ditadura; engendrou as bases da UnB (Universidade de Brasília) numa perspectiva de emancipação nacional, contudo se viu alijado do processo de consolidação daquela universidade por razões meramente políticas. Perdeu novamente. Estes, entre outros fatos relevantes, justificam a sua frase-célebre.
Todavia, o portentoso legado intelectual deixado pelo saudoso Darcy Ribeiro, a sua paixão incomum para desvendar o Brasil e, sobretudo, indicar novos rumos ao povo brasileiro, denotam, sem exagero, que integrou o rol das personalidades mais marcantes do século XX.
Deste modo, avalio que a reinante bipolaridade “vitória-fracasso” cansa, extenua, embaça a visão sobre as coisas e, sobretudo, presta desserviço às pessoas na medida em que “vende” uma imagem distorcida da realidade, espécie de “sucesso sem derrotas”.
É formidável ganhar. Mas é imprescindível compreender a derrota. Mais do que isto: o fracasso pode fazer o homem avançar, refletir, renovar suas práticas e, porque não, aprumá-lo em direção à vitória seja no esporte, seja na vida. De mais a mais, para além do mero ensinamento, por vezes, um fracasso representa verdadeiro imperativo ético. Darcy que o diga.
Ponte Preta e Juventus. Campinas. Moisés Lucarelli. O estádio, uma poça de lama de dar gosto. Testemunhas: 2 mil pessoas. Televisão: Sim, no tal pague para ver. Quinta feira braba, com trânsito e chuva na capital. O jogo do Tricolor com o São Caetano tinha acabado. Entrevistas de vestiário. Muricy, para variar, absurdamente mau humorado e puro sarcasmo, ótimo. Sofá. Repeteco dos goles, entre eles o do Adriano. Decisão: Vou ver o jogo da Ponte.
Sábia decisão. Cheguei no segundo tempo, cinco minutos. 2x1 para o time de Campinas e um cruzamento para a área: Juventus 2x2. Vampeta comandava a meia cancha do time da Mooca. Renato, um habilidoso camisa dez, talvez digno da herança do genial Dicá, e antes que me malogrem, repito, talvez, comandava a Macaca. O árbitro, um fanfarrão.
Que jogo, meus caros bolonistas. Que jogo!!! Em campo, a bola sofria de lado a lado. O campo em estado lastimável, antro de poças e de buracos. Os jogadores se esforçando, e muito. O repórter de campo, devia ser foca, errou o nome dos jogadores, errou a tabela de classificação, errou os próximos jogos, mas se portava com uma elegância incomum. Que jogo!
Vampeta é expulso. Chegou tarde e deu um sarrafo, digno de amarelo. Pelo que entendi, era a segunda admoestação. Vermelho. Alguém do Juventus reclamou e também foi guindado ao chuveiro. Nove contra onze. E a Ponte deitou e rolou. E goleou, inapelavelmente. Antes, o centro avante perdeu uma série de goles impossíveis, improváveis, espetaculares. O camisa 11 da Ponte fez uns três, desconfio. O tal Renato foi substituído. O técnico da Ponte Preta é o ex goleiro Sérgio, aquele bom arqueiro que defendeu a meta do Santos nos tempos de vacas magérrimas na década de 90.
Vou confessar um trem. Pouco edificante, desconfio. Mas eu gosto mesmo é de Ponte Preta e Juventus, num campo de lama, num horário ridículo. O futebol é assim, aquela coisa que começa no campo de botão e termina no tampo amarelado da mesa enferrujada de um boteco.
Bolonistas, foi o jogo do ano. Acabou a peleja e fui dormir, satisfeito. A Ponte, desconfio, está no topo da tabela. Mas, sincera e honestamente, isso pouca importa. Alguém aí sabe a posição do Olaria?????
Clássico contra o Fluminense será disputado pelos reservas rubro-negros neste domingo Eduardo Peixoto Do GLOBOESPORTE.COM, no Rio de Janeiro
Os reservas do Flamengo que entrarem em campo contra o Fluminense serão privilegiados. Eles participarão da partida de número dois mil do Rubro-Negro em campeonatos cariocas.
Até este domingo, Fla disputou 1.999 jogos, com 1.218 vitórias, 390 empates e 391 derrotas. O clube marcou 4.583 gols e sofreu 2.235, com saldo de 2.348. Com tal retrospecto, foram conquistados 29 títulos - um a menos do que o Fluminense.
Eduardo Peixoto Do GLOBOESPORTE.COM, no Rio de Janeiro
Salve Mengão! Domingo o rubro-negro completa os dois mil jogos no clássico mais charmoso do futebol mundial. Uma pena entrar com o time reserva, mas tenho certeza da vitória! Ou talvez um empate muito do safado... De qulaquer maneira, celebrarei domingo!
Grande abraço, Pedro.
P.S.: Os estaduais podem acabar?? Parabéns meu velho Demas!!! Que Deus te abençoe sempre! Escrito por Pedrão às 15h19
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Dia de boas memórias...
Dois bolonistas. Celulares. Diálogos de sempre.
Adriano? Bem. O time? Ainda não sei. Rogério? Mais que santo. Muricy? Impagável.
E lembranças...
Muller fez goles impossíveis. Inesquecíveis. Geniais. Quem esquece daquele na Católica, na final da Libertadores. E do gol no Milan???
Oxalá Raí, sempre. A genialidade de quem jogava sem a posse da bola, que fazia lançamentos precisos, goles preciosos, raros.
Sincera e honestamente, hoje não é dia para textos.
É dia para afagos. Abraços. Mesa de boteco, enferrujada.
Cerveja gelada. Listas dos melhores times de todos os tempos.
Futebol. Dia de declamar poesia. Dia de boa saudade.
O ex-meia pediu desculpas ontem pelo gol que marcou com a mão na Inglaterra na Copa-1986. O gol, batizado por Maradona de ""Mão de Deus", ajudou a tirar os ingleses da Copa do México. ""Se pudesse mudar a história, mudaria. Mas o gol segue sendo gol. A Argentina foi campeã. Não posso mudar a história. O que posso fazer é seguir adiante", disse ao jornal inglês ""The Sun". E adicionou que, se não tivesse usado cocaína, ""nunca haveria dúvidas sobre quem é o melhor da história".
Vejamos. Se desculpar, porque? Conhecendo um pouco o Maradona, ele deve ter sido, no mínimo, irônico em seu comentário, ou melhor, em seu pedido de perdão. Afinal, contra a Inglaterra, com gol de mão, na sequência ganhando a Copa, têm coisas que o dinheiro ou as desculpas não compram.
Quem é o melhor da história? Ele mesmo falou que não pode mudá-la. Como pode dizer que sem o pó do demo ele é, apesar das dúvidas, o maior de todos os jogadores? Escorrega na lógica, inclusive. Se cheirou o dito e se acabou, problema do cheirador, tenha o encontro com o Monstro Ressacão, companheiro do grande Geraldão, e se cale. Eu nunca achei o caro argentino nem o segundo melhor! Me batam meus amigos Bolonistas e os queridos leitores deste blog, mas prefiro outros para o pódio.
No mais, a "Mão de Deus" foi um dos maiores momentos do futebol. Que continue sem desculpas...
PS: Alguém aí tem uma camisa da seleção argentina, a camisa dez, óbvio, para me emprestar? Vou sair fantasiado de Maradona no Carnaval. A pança eu já tenho, a cabeleira ao meu modo, alguma marra besta, só o cuidado com a pelota que não vai longe, mas é só uma fantasia, é a idéia!