Bolonistas, me orgulho da neutralidade da ciência...
Todos sabem que no futebol sou absolutamente imparcial. Uma imparcialidade crônica e atávica. Os comentários são sempre marcados por um distanciamento crítico de minhas paixões pessoais e clubísticas. Por esta razão é que a credibilidade é um dos pontos altos dos textos que compõem as páginas desta Coluna.
Mas nem sempre foi assim, confesso. E esta confissão é feita com um pouco de aflição e de vergonha. Admito que por vários anos minhas convicções pelo São Paulo Futebol Clube turvaram minhas opiniões. Com alguma perplexidade vejo nos meus cadernos de anotação que eu cheguei a escalar o Nelsinho na vaga do Júnior ou do Branco, nos amistosos preparatórios para a Copa de 86. Zé Teodoro era tão titular daquele time que o Josimar não aparecia nem numa lista de cem jogadores. E há outras insanidades, como escalar o Getúlio na vaga do Leandro, em 82, ou a convocação sistemática do Almir para fazer dupla com o Falcão. Enfim, se dependesse destas minhas turvas concepções, Taffarel nunca teria sido goleiro da seleção nacional, pois Gilmar e Zetti cansaram de defender o escrete nacional nas pelejas do Estrelão entre o fim dos anos 80 e o começo dos anos 90.
Mas este tempo passou. Hoje sou um cientista pagão.
Então, numa mesa de bar, veio a proposição: "Quem seriam os seus onze titulares?" Percebi que era o momento ideal para a maturidade. E foi assim, com estes pensamentos mágicos, que resolvi escalar um time, afastando-me por completo de toda a passionalidade e subjetividade do passado. Um time só com os melhores. Um time para dignificar o Estrelão.
No gol, Júlio César. O homem que opera milagres. E olha que esta decisão foi antes do jogo contra a temível seleção do Equador. As outras opções não foram tão óbvias, entretanto. Como é difícil acompanhar todos os jogadores tupiniquins espalhados por este mundão, é muito complicado escolher os melhores.
Enfim... Na lateral direita, sei que vão me criticar, mas escalaria o Ilsinho, lá do time da Ucrânia. Jogador com rara visão de jogo. Claro, o titular era o Cicinho, mas este está machucado. Na zaga, sem dúvidas, os quatro convocados seriam Miranda, André Dias, Alex Pirulito e Breno. Na lateral esquerda, Fábio Aurélio. E para o banco, a opção letal de Jorge Vagner.
No meio campo, óbvio que Hernanes. Mineiro e Josué, juntos, porque separados são tão chatos quanto os discos solo do Art Gartfunkel. Danilo para compor o meio também me parece essencial. Poucos tem o poder de passe e a precisão de chute de Danilo. E para o banco, o polivalente Julio Batista e o menino Denílson do Arsenal, com vasta experiência internacional, fariam companhia para o excelente Jean do São Paulo, uma aposta. A outra vaga ficaria para o versátil Souza do Grêmio.
Por fim, no ataque, Adriano Cachaça, imprevisível mas goleador, Washinton, um prêmio pela perseverança deste centro avante goleador do Brasil por várias temporadas e o Ronaldo Fenômeno, por puro divertimento. Confesso um ato falho, convoquei o Borges para compor o ataque. Mas foi o único escorregão, justificado, porque Borges não perdoa.
Fiquei orgulhoso do time e da imparcialidade. Objetiva, precisa.
Alguns podem estranhar a ausência de Kaká. Mas acho o Kaká tão chato, mas tão chato, mas tão chato, que no meu time ele não joga. Pode ganhar o prêmio FIFA, a bola de ouro, a bola de araque ou o Oscar. Não joga. Acho que tenho direito a não escalar este pentelho. Sem contar que este desprezo comprova meu distanciamento crítico, pois Ricardo “Kaká” foi revelado, como todos sabem, pelo clube seis vezes campeão nacional, três vezes do continente e três vezes do Planeta.
Ceni? Rogério? Bolonistas, não vamos brincar com coisas divinas. Deixa ele quieto e no canto dele. Rogério outro dia fechou o gol no Estrelão. Jogou no time do Zidane e pegou uma penalidade do Cruiff. Sim, neste jogo o Raí vestiu a oito, para deixar o Diego com a dez e o Platini com a onze. Mesmo assim fez dois goles e deu o passe para o Romário marcar o outro tento. Outra galáxia, outros times.
Bandos de canetas marca-texto murchas, apagadas; Desvirginadas por um santo.
O império do mal vencido;
O professor em trajes de pastor evangélico sem poder colocar a culpa em ninguém;
Um jogador de apelido K9 (o nome é impronunciável) anulado pela melhor defesa do país;
Um palhaço chamado Del Nero, do circo arrelia, de férias por 3 meses, vendo que, apesar de seus esforços, o tricolor poderá mandar a meninada de 17 e a 18 anos conhecer Presidente Prudente.
Tudo isso sabendo que a nossa prioridade é a Libertadores da América, competição em que time de verdade não leva olé de chilenos em seu estádio.
POR TUDO ISSO, CREIO QUE SABOREAREI UM TENRO SALSICHÃO DE CARNE SUÍNA NO JANTAR.
Quando comecei a acompanhar o tricolor no Morumbi, sempre tínhamos os "campeonatos de aspirantes", em que aqueles jogadores que estavam esquecidos no elenco suavam a camisa e entretiam a galera que esperava pelo jogo principal. Tínhamos o troféu Ramon de Carranza, o Teresa Herrera e outros, como a Conmebol, só levada a sério por atleticanos (até por que um torneio que já teve o CSA como vice não pode ser sério mesmo). E principalmente, tínhamos o expressinho, equipe montada com jogadores esquecidos nas categorias de cima, misturados com os melhores moleques dos juniores. Me lembro da minha surpresa, quando enfiamos 6x1 no Peñarol com um goleiro novinho, vindo do Sinop, um tal de Rogério, um molequinho do Ituano, um tal de Juninho e um moleque de 16 anos, um tal de Denilson. Quanta petulância...
Ultimamente temos formado belos times para a Taça São Paulo de juniores, sempre coma expectativa de subir um ou dois (o ano mais produtivo foi aquele que, na falta de um time titular bom, trouxemos o Kaká, o Júlio Baptista e o Fábio Simplício). Depois disso, os juniores fornecem um ou dois moleques, que são trabalhados só para serem vendidos por uma nota e as contas do futebol baterem (vide o Breno). Os outros ficam jogados nos CTs. A instituição "expressinho" é passado e, o máximo que arrumam são torneio caça-níqueis na Asia. A política é a de emprestar moleques para times medianos, esquecendo que esses moleques com fome de bola, jogando junto a uns veteranos picaretas, em times pequenos esquecem muito do que sabiam. O melhor jogador do ano passado, Hernanes, esteve a um fio de bigode de ser emprestado para algum Náutico da vida, após um importantíssimo torneio caç-níqueis na India, país cujo esporte principal é o críquete.
Wagner Diniz, Andrá Lima, Joilson, a falta de um meia de origem que jogue pela direita, um único lateral-esquerdo de origem (o Filisbino não conta) e o JWagner rende mais no meio são exemplos, meia dúzia de volantes me trazem a pergunta; Quando eu verei o "futuro"craque Oscar jogar?? Quando mandarão o André Lima embora e colocarão o Henrique, com fome de gol para ter uma chance?? E o pior de tudo, temos goleiros sendo preparados com carinhinho e o tal Denis foi bem, quando teve que entrar). Lembremos, por fim, que o Juan do Flamengo era um desses encostados no São Paulo. Por isso, ao invés de emprestar 15 jogadores ao Toledo (que apesar da inesperiência ficou a um ponto da zona de classificação e ganhou do Atlético Paranaense), remonte-se o expressinho para Sulamericana e mandem embora do time o já citado bando de pernas-de-pau.
Tentei, mesmo, assistir ao prélio entre São Paulo e o Norusca na televisão. Foi difícil. Não quero repisar argumentos, mas não consigo entender as razões que nos fazem colocar o time considerado “titular” no campeonato regional. Consigo... tem o patrocinador, tem o time que precisa de ritmo de jogo e blá blá bla´... Mas será que um quarto caneco continental não mereceria um “esforço” maior?
O jogo foi de uma feiúra medonha, o que tem sido hábito nos jogos do meu São Paulo. Washinton fez um belo gol e Rogério Ceni fez uma defesa espetacular, mas a bola já tinha entrado e o juizão cravou gol. Uma injustiça. A defesa do Imortal foi tão espetacular que o árbitro deveria apelar para as leis divinas que regem as relações humanas e desconsiderar o detalhe da bola ter ultrapassado a risca. Enfim...
Gosto do campeonato paulista. Mas estes últimos têm sido enfadonhos. Não sou daqueles que acham que o campeonato Piratininga deve ser extinto. Mas vinte times com dezenove rodadas e mais uma fase final, criam um certame muito longo e tedioso. E os times são ruins demais. Não há rivalidade que sobreviva quando os jogos são tão ruins. O São Paulo e os mortais - Sociedade Esportiva, Sport Club e o SFC – acabam por apanhar da bola também, pois a ruindade nivela expectativas e deixa os jogadores com pouca sede. O melhor, creio, era diminuir o número de times que disputariam a primeira série para oito ou dez times, no máximo, com rebaixamento de duas equipes e concentrar a disputa pela vaga nesta elite numa bem estruturada segunda série, que certamente atrairia maiores interesses e disposição.
Verdade, porém, que a Sociedade Esportiva nutre um afeto mais ardoroso pelo Piratininga. A Sociedade quer ganhar o campeonato. Por isso os jogos do time esmeraldino tem sido um pouco melhores que a média. O “manager” verde gosta do campeonato estadual e o seu carinho por este tipo de torneio é notável. E o tal Keirrison é um ótimo avante.
Portanto, já que não iremos poupar ninguém e vamos nesta toada de jogos tétricos até o fim, muita água no chope deles. Com jogo feio ou bonito, com gol de placa ou gol de bico.
Bolonistas, vocês precisam conhecer o Museu do Futebol...
Aos domingos, sempre com um radinho de pilha, nunca pela televisão, acompanha aos jogos do seu time de futebol. Vê lances imaginários que só acontecem nas suas transmissões. A bola descreve parábolas perfeitas e a gritaria da torcida é sempre reverberada pelo coração. Que bate forte.
Era catedrático na Escola de Psicologia. Tinha vários diplomas, mestrado, doutorado, cursos, palestras, conferências, seminários. Era um estudioso nato. Figura carimbada dos programas de televisão, de rádio, da rede mundial de computadores. Mantinha uma página na rede e um espaço para pequenas reflexões diárias. Seu assunto predileto era o amor. Sim, o indecifrável amor era seu objeto de pesquisa, seu flerte, sua paixão, seu... amor.
Não definia o amor. Rejeitava todas as possibilidades de criar parâmetros objetivos, escalas de sentimento, definições de dicionário. Para ele era o amor algo que se definia no caso concreto. Tinha horror a gráficos.
Poucos sabem, mas foi seu amor de infância, evidentemente não correspondido, que o fez devorar livros e livros e mergulhar numa pesquisa infinda sobre este sentimento humano. Considerava o amor humano demais, uma das cinco, ou seis, características fundamentais que somente os seres humanos poderiam sentir, na plenitude. Rejeitava, porém, os rótulos fáceis, o romantismo e as teimosias.
Amava aquela menina, percebeu anos depois. Um amor profundo, mas um amor idealizado. Amava um simulacro, uma imagem, uma idéia. Ao identificar esta característica daquele amor passou a querer entender as razões, os mistérios e descobrir uma tal verdade. Tentou, em vão e em equações, provar que aquele amor não era amor de verdade. Escorregou nos sentimentos.
Desde o fim daquela pesquisa, e com o resultado mais fértil que pode encontrar, amou e “desamou” pessoas de verdade e escreveu tanto sobre o assunto que lhe fizeram doutor. Conseguiu entender a dor de cotovelo, compreendeu Lupicínio e passou a ter Roberto Carlos na sua coleção de vinis. E deu o nome de “Deckard e Rachael” ao curso que ministrava na graduação.
Numa aula, quarta feira, quase onze horas da noite, um aluno fez a pergunta habitual, e de quem não entendeu patavina: “Professor, então não há diferenças entre amor e paixão?”.
Coçou a cabeça e deu uma boa risada, mas tímida. “O jogo do futebol... Começam e findam com o apito do juiz, que pode ser um olhar, uma coceira ou um flerte, uma mentira, a morte ou mesmo o simples fim de jogo. Meu amigo, a paixão é o jogo bem jogado, a partida de craques e suas jogadas plásticas, lindas pinturas e quadros de cinema. Se o jogo é feio, não há paixão que sobreviva. Ao amor, meu caro, não importa os três pontos, a vitória ou a derrota, o gol feio, a plástica. Ele é.”.
"Então, professor, a paixão é sempre mais bonita?". Outro sorriso, mais tímido que o primeiro, mas da alma:" O jogo bonito não é necessariamente a partida bonita.... é o jogo, menino. O jogo.". Fechou os apontamentos, e alguns poucos já entenderam, ligou o radinho de pilha, tirado da mala surrada. E se despediu: “Está começando o segundo tempo. Até a próxima semana.”.
Posso estar moribundo de memória. Mas não é isso que nos interessa. O meu Tricolor, três vezes campeão do Planeta, está na sua quarta temporada com o bom Murici. E creio que está cometendo os mesmos erros de 07 e 08 no torneio que importa. Estamos nos empanturrando de jogos e mantendo o campeonato paulista em um foco que não nos interessa.
Ganhar o Paulista ia ser bom, sem dúvida. Tripudiar os mortais locais é sempre bom. Mas o problema é que se trata de um campeonato desgastante demais. Gramados ruins e rivalidades intensas minam os humores e o apetite de nossos jogadores. Nossas rivalidades com alguns dos mortais que disputam o torneio estadual são muito hostis e perder jogos desta natureza sempre trazem culpas e crise.
Mas o fato é que a Libertadores é o torneio que queremos ganhar. Deixem a Lusa ganhar o caneco paulista. Que a Ponte Preta saia da fila em um torneio desta envergadura. Que o Sport Club e seu camisa Nove tenham felicidade e benção no torneio da Federação Paulista de Futebol. Que a Sociedade Esportiva e seu treinador galã conquistem pela dodecatésima vez à taça bandeirante. Que a praia do Gonzaga fique intransitável pela comemoração do título. Paciência. São coisas da vida. Ninguém ganha sempre. Mas a Libertadores, não.
Murici tem um esquema no coração. Mais do que uma preferência tática, nosso treinador gosta e entende que o futebol se joga com forte marcação no campo do adversário, diminuindo espaços, dificultando ações. Os times do SPFC precisam de fôlego e de obediência tática. O time de 2007 era de uma beleza singular quando entrou nos eixos, pois não deixava os adversários respirarem, sufocava os times mesmo jogando fora de casa. Aquele time foi o melhor SPFC da era Murici.
As derrotas para o Grêmio e para o Fluminense estão muito presentes em minhas azias. Repetir erros é burrice. O São Paulo não pode ser um time de segundo semestre. Se a questão é a necessidade de treinos e de entrosamento, se o problema é ter preparo físico para marcar pressão durante todo o jogo, deixemos de lado as panelas e as questiúnculas de entrevistas coletivas: Vamos jogar com o time reserva no estadual. E ponto final. Aproveitemos os jogos que nos restam para treinar variações impossíveis, como escalar o Dagoberto no meio, preparar jogadores como Oscar e Henrique para momentos de decisão, achar alguém para ocupar aquela lateral direita. Mas o time tem que estar pronto para Independente, América e Defensor. E para quem vier depois.
Chegar às semifinais do Paulista com nossos adversários mais tradicionais e entrarmos nesta disputa querendo tudo, teremos é o nada.
Deixemos de hipocrisias, mentiras e enganos em nossos textos. Pedaladas do Robinho, gols mágicos, em momentos mágicos, jogadas plásticamente perfeitas, esquadrões formados por jogadores que tratam a pelota com um carinho não dado nem para os seus filhos – todos os momentos lindos do futebol, que já nos fizeram verter rios de lágrimas; momentos em que sempre nos lembramos onde estávamos. A consagração da beleza do futebol, belo, misterioso e perfeito como a musa que cada um de nós já conheceu. Chega de nos prendermos a esses momentos “Poliana” do futebol, sob pena de virarmos um bando de Armandos Nogueira.
Jamais podemos nos esquecer dos momentos em que batemos com o punho cerrado em nossos peitos e exibimos o nosso lado animalesco, agressivo, burlesco, cínico, sádico, cientes que já que o futebol não deixa de ser uma representação fantasiosa de uma guerra, sempre existe o final dos dias de prélio, em que uns estão em glória, outros humilhados; com bom ou mau humor. Pensemos em uma outra visão dos clássicos do futebol, que ao invés de um drible inesquecível de Mané, tem seu retrato fiel na foto de Hugo de León com a cabeça quebrada, campeão da Libertadores em 83.
O futebol arranca o urro entalado em nossa garganta, o murro que jamais daríamos, normalmente, em um televisor ou em uma parede, ou aquele palavrão que normalmente nos envergonharia, se gritado. Nesses momentos, retiramos de nosso corpo qualquer piedade que pudéssemos ter com a dor do rival batido e lamentamos de forma mesquinha a alegria de nosso melhor amigo. Tripudiar é exercício obrigatório. A sensação de ver o mundo parar e se sentir invencível, por vezes abraçado a uma turba suada, que você jamais tinha visto, todos a compartilhar a visão dos rivais eternos, se retirando cabisbaixos para lamber as feridas, são parte da essência do futebol.
No fundo, essa essência que vai indo embora no processo de elitização dos estádios, transfomados em “arenas”, caras, com dezenas de outras atividades caça-níquel, com poucos torcedores abastados, bem apresentado pelo Massonetto ( e bem retratado pelo hooligan do Chelsea, quando descreve o desconforto de adentrar o moderníssimo estádio de Stamford Bridge, lugar em que algum dia já tinha sido rei, numa época em que aquele espaço era apenas um monte de gente suada e concreto – descrita no livro “Como o futebol explica o mundo”), mas permanece clara na picardia do velho Demas, são-pauliníssimo, em texto que também assinei, quando pudemos encontrar, de forma soberba, um ponto fraco em um rival alvinegro para zombarmos, tal qual aqueles moleques “donos da bola” que infernizavam, nos gibis, a molecada, submetendo os que não tinham uma bola de capotão, às suas vontades. Tudo isso é a parte que dificilmente assumimos da alma do futebol, mas que está lá. Graças a Deus.
O maior problema é que grupos de idiotas, em todas as torcidas, não entendem exatamente isso e resolvem tentar transformar esse lado ácido e satírico, que sempre foram combustível de nosso futebol, em algo grotesco, repleto de sangue, que justificaria a sua existência medíocre nos momentos em que o futebol repousa e nos dias de jogo, em que agem como reis, acreditando que a sua fixação tosca e psicótica representa amor ao time, sem entender que gritos, urros, provocações são parte de um exercício praticado contra rivais, nunca contra inimigos
Esses idiotas, além de violentos trazem junto toda a escória fascista de covardes políticos e servem de ninho ideal para gangues de criminosos organizados. Assim, alimentam teses altamente repressivas de realização de clássicos com a presença de uma só torcida, algo que feriria de morte o nosso futebol. E assim vemos, quando públicos de trinta e poucas mil pessoas em clássicos no Maracanã, Morumbi ou Mineirão são celebrados, enquanto que, na minha infância, jogo entre os grandes com públicos menores de 80 mil pessoas era deprimente, sem contar a alegria de saber que mais de 100 mil pessoas estavam numa final.
É essencial que alardeemos sempre que seres humanos normais, ao final de um prélio, caminham para casa, tiram as suas camisas fedidas, tomam um banho (a maioria) e vão abraçar aqueles que vestem o mesmo manto e sacanear os rivais em mesas de boteco, ou onde quer que seja. E que venha a próxima batalha.
Escrevo essas linhas movido pela polêmica lançada há um mês no blog e também como introdução a uma narrativa de um clássico argentino (os mais fanáticos torcedores do mundo) que tive o imenso prazer de assistir no estádio, com a minha pequena Priscila.
Amaral, o meu comentário para o seu texto vem assim...
Ou para nós que somos todos Gorduchos, fora o Demas, é claro!
Ronaldo jogou o fino...
Ontem assisti ao jogo do segundo time mais popular do país na companhia do meu amigo Pança, apelido bastante apropriado para um fã de Ronaldo, e me deslumbrei com a atuação do craque. Sim, do craque. É espantosa e assustadora a diferença, e porque não dizer a distância, do futebol do Gordo para os demais jogadores de quaisquer times brasileiros. Esse é craque. Ponto final. O resto ou é boleiro ou é projeto.
Pois o Fenômeno jogou desde o começo e sobrou. Não adiantou a saúde e a disposição dos seus companheiros de equipe e da sempre complicada trupe azulada para desestimular ou cansar o meio-pesado. Ronaldo jogou o fino (gostaram?).
Esse rapaz, quase da minha idade, faz de tudo com a bola, como faz na vida. Nesta curta biografia, porque biografado deve ter pelo menos uns sessenta anos para merecer essa homenagem ou no mínimo estar morto – biografado vivo e jovem é demais. Mas parei aonde? Ah, sim. A curta vida do Fenômeno é de uma riqueza infinita. Nasceu pobre e carioca, saiu do rio para ficar famoso em Minas, foi para a Europa, participou de uma copa ainda infante, e ganhou, vá lá! Consecutivas vezes demonstrou ser o melhor jogador do mundo, sofreu a primeira queda e por aí foi, não quero ficar enfadonho descrevendo o livro que todos já leram.
Uma biografia de vários estilos, como diversos estilos seu futebol tem. Passa do romance à tragédia, da comédia à auto-ajuda, não importa. Mas, sobretudo, joga bola. E aí desbanca críticos, surpreende torcedores, maravilha jovens colegas que choram num canto de vestiário por terem visto o improvável, participado de um jogo ao lado do ídolo, do herói. Não é isso o herói? O contraditório, o idiossincrático. E no jogo muda, como muda seu corpo, sua idade e sua vida. Continua craque. Problema para comentaristas, colunistas e outros homens que queriam jogar bola e não puderam, ou já jogaram e não tiveram na bola e na vida tantas reviravoltas e retornos. Ronaldo se reinventa, se adapta. Esse é o seu segredo e exemplo. Nas palavras de Veríssimo (Jubas, obrigado pela lembrança), o fato é o mesmo para todos, mas cada um volta ao fato à sua maneira. Ronaldo faz da memória, futuro, e do futebol, arte.
Em um dito da mais moderna filosofia carioca: Cada um no seu quadrado. Aos críticos eu digo calem-se, e assistam ao vídeo-teipe, que é o gol feito literatura (essa eu só pus porque achei ducarai, também do Veríssimo), vejam o gol de ontem. Arte. Porque entre as quatro linhas aquele garoto sabe o que faz, mais que vocês.
Ontem eu assisti ao jogo do time mais popular do país, porque mesmo flamenguista comemorei o gol como se fosse meu. Ai, meu cotovelo...
Entre leituras maravilhosas, aqui e ali, entre seres inimagináveis, poderes fantásticos, fantasmas, alegorias circenses, simbólicas, deuses e deusas, sapos encantados, flores que voam e ruivas nuas besuntadas, fico imaginando quem escreverá sobre Ronaldo. Dos seres fantásticos, a fênix, aquela que sempre se recupera.
Confesso com certa compaixão que estive torcendo pelo nosso avante. Sim, torci para que Ronaldo voltasse a jogar, ainda que alguns minutos, que voltasse a marcar goles, ainda que numa partida irreconhecível de quarta feira de cinzas em algum gramado perdido em algum canto do mundo. Era uma torcida de quem reconhece os joelhos da vida, os meniscos, os ligamentos cruzados e que só de ouvir esses nomes tem lá dores psicossomáticas. Mas uma torcida pelo Nove, que ele bem que merece.
Poucos jogadores descobriram o mundo como Ronaldo. Sou de um tempo e de uma geração que aprendeu a gostar de futebol por causa dos times de futebol. Para nós o importante é o time. Nossos vínculos iniciais eram com os jogadores do nosso time. Por isso os heróis de nossas HQs eram Reinaldo, para os atleticanos, Zico, para os flamenguistas, Serginho e Zé Sérgio, para os torcedores do Espetacular, Sócrates, os corintianos. Os jogadores tinhas histórias em nossos clubes e nossa devoção nascia nas pelejas ouvidas pelos radinhos de pilha, porque não era todo santo dia que tinha jogo na televisão.
Ronaldo é de outra época. Ronaldo é idolatrado não por sua passagem no clube. Os cruzeirenses podem idolatrar Ronaldo, mas certamente sabem que Dirceu Lopes é que apareceria na galeria das memórias celestes. O vínculo do Nove é a televisão. O Nove é o jogador da mídia, aquele que desfilava o talento nas pelejas do canal fechado e que ajuda a vender bilhões de material esportivo. O talento do Nove era o talento dos videoteipes, das matérias especiais no Jornal Nacional.
Mas a verdade que o Nove também tem um vínculo muito forte com a Seleção Brasileira. E é este o vínculo que nos emociona mais e mais. Até porque torcer pelo Barcelona, pelo Real Madrid ou Internazionale é o mesmo que comer chicabon com luva. Eram os jogos do Nove com a seleção que nos emocionavam. Talvez, infelizmente, o último dos moicanos...
E a vida de Ronaldo está exposta todos os dias, desde 1994. Sempre algum periódico carrega alguma linha sobre a vida do centroavante. Imagino que nem os servis idiotas de “reality shows” tenham sido tão expostos. E Ronaldo, ainda assim, consegue mandar as favas a lógica do bom mocinho, do gaiato que vende roupa, do trouxa que ganha milhões mas nem desconfia do quanto faturam no lombo dele. Ronaldo vai a puteiros, bebe sua cerveja, extrapola os limites do bom senso, namora a Cicareli.
Enfim, o Nove está de volta. Outra vez. E agora tem a chance de se imortalizar ainda mais, como se isso fosse possível. A responsabilidade do resgate não é do Nove, que fique bem claro, mas na sua parceria com o clube mais popular do país, ele pode restaurar o futebol de Serginho Chulapa, de Renato Pé Murcho, de Chicão, Teodoro e Bezerra. De Nelinho, de Adílio, de Assis, de Tarcísio, de Figueroa, de João Leite. De Ataliba, de Biro Biro, de Geraldão. Podemos reviver nossos álbuns de figurinhas em gomas de mascar. Sinceramente, o campeonato paulista, o preferido dos corintianos de todo o mundo, merecia aquele gol de ontem.
Por fim, uma pilhéria, que ninguém é de ferro: Ver a cara do Luxa nas desculpas do pós jogo, como o cartão de crédito, este dinheiro de plástico tão revelador dos “profissionalismos”, rival do patrocínio do Timão no jogo de ontem: “Não tem preço.”
Eu ainda acho que aquela bola do Oscar entra. E que Zoff não vai agarrar a pelota. E mais, acho, com convicção de um burro de carga, que o juiz vai dar aquele pênalti escandaloso do Gentile no Zico. O Galinho saiu com a camiseta rasgada! É impossível que o árbitro não marque a penalidade. Basta apitar. E pronto. Tenho tanta certeza disso...
Ainda acredito piamente que Zico vai vencer Batts naquela penalidade em Guadalajara. A jogada magistral do Zico e o passe para o Branco vão resultar na mesmíssima penalidade. E o Galinho vai colocar a pelota num canto e Batts vai cair do outro lado.
Também tenho fé que o São Paulo vai vencer o time campeão do mundo em pleno Maracanã. Sim, tenho certezas absolutas que Renato fará o gol naquele lance em que está sozinho na área e desbancaremos o campeão. Raul nada poderá fazer...
Nada disso. Zoff vai chegar na pelota, a defesa monumental vai reprisar em todos os sonhos, sempre. O juizão não vai marcar a cal e a camisa rasgada de Artur continuará inexplicável. Batts irá defender mil vezes e do mesmo jeito a cobrança do Galinho. Renato não fará o gol.
Mas Zico continuará a fazer das suas, alterar jogos improváveis, ganhar canecos e mais canecos, ser artilheiro, referência de uma paixão. Hoje é aniversário do Artur e eu deixo aqui uma pequena lembrança...
Curtam o teipe. Vejam a arrancada. E marquem a cerveja, para um bom brinde. Parabéns!