Quando me disseram que ele viria, sinceramente, não acreditei. Tinha jogo na televisão. Era o time que poderia ser o campeão que tinha que ser secado. Enfim, achei que ele iria secar e esqueceria de nosso encontro. Duvidei e errei. No horário marcado ele estava lá. Sorriso no rosto e uma cara de contente, pontual.
As primeiras cervejas tiveram aquele gostoso gosto de nostalgia. De bola de papel no quintal da escola, da Copa de 82, de refrigerante e campeonato de arroto, das meninas e das saias das meninas no uniforme do colégio. O uniforme rendeu boa prosa. E outros tantos outros sorrisos. Lá pelas tantas, já devidamente acompanhados por pastéis e lingüiça, o papo enveredou pelos caminhos e descaminhos. Pelas opções, pelos arrependimentos, pelas certezas, pela vida que cada um de nós levou e leva. Sim, não fugimos da ausência prolongada e como vinho entendemos que a ausência pode ser saudade ou posse. Quando saudade é saudável e querida, como marmelada de que não se come todo dia, mas tem sabor que não se esquece. Quando posse é aquele monstrinho chato e irritante que se transforma em obrigação e, consequencia, puro fastio. A marmelada vira dietética. Ao fim desse papo, a velha promessa improvável de outro encontro, em breve tempo.
O que se seguiu foram as conversas sobre política, desencanto, um pouco de caderno de cultura, filmes, novelas, misturado com revista de fofoca e “Playboy”. Estranhamente ninguém falou do Nacional de Futebol. Entendi como um acordo sem palavras, ambos torcíamos pela mesma gente e estávamos definitivamente secando um outro time qualquer. As vezes é nestes momentos que mostramos o quanto gostamos do nosso time, sem dizer nada , revelando tudo.
Foi o garçom que entregando a conta deu a senha: “Foi quatro a zero. Eles ganharam.”. Ombros e pedimos a saideira, sagrada. “E aí, vamos ganhar mais esta?”. “Evidente!”. “Até, meu velho. Saudade.”.
Creio que todos concordam que o Planalto Central precisa de um time na Libertadores de 2010. Sim, o país sede da Copa de 2014 precisa consolidar a geografia do futebol. É inadmissível que tenhamos a imensidão do Centro Oeste sem jogos internacionais em suas arenas esportivas num ano de Copa do Mundo.
Todos devem compreender a gravidade deste momento. Não há como admitir, tolerar, concordar e acreditar que no torneio sulamericano de clubes, o mais importante torneio do hemisfério sul, concebamos que o país sede do campeonato mundial de seleções, a maior paixão do Globo Terrestre, não haja um único representante da região onde está a capital da república federativa em que vivemos.
E hoje é um marco para esta luta necessária para o vigor pátrio. Nossa alma verde e amarela precisa de toda a força e comunhão neste momento difícil. Fosse o Vila Nova, o Brasiliense, o Gama, o Brasília, o Sobradinho, o Misto, o Operário, fosse o CEUB: Não é dia de bandeiras. É dia de luta!
Vociferem. Rezem. Praguejem. Mas não desistam.
E, se puderem, tenham na lembrança que o Fluminense não é só o time do Bóris. Telê Santana, Chico Buarque, Nélson Rodrigues e tantos outros não merecem lágrimas desta dor infinda, especialmente hoje. Não peço compaixão. Rogo compreensão.
Outro dia mesmo estive a zanzar pelas ruas estreitas dos meus vagos pensamentos. Entre ruelas repletas de idéias que nunca se encontram, encontrei uma esquina com o seguinte pensamento: “Ganhar, vamos. Mas sem gol do Rogério é impossível.”. Fiquei matutando aquela aporrinhação. De fato era barbada a conclusão de que um caneco sem um mísero gol do Imortal era improvável. Nem gol de penalidade máxima, observei. Ruminando tais considerações decaí em profunda agonia.
De fato o ano não está muito bom para o arqueiro, capitão, imortal e recordista de goles da Galáxia. Contusões e lavanderia. E um ar macambúzio, de enfado, ouso até: triste. E nas outras ruas em que caminhei, pensamentos em vão, teria encontrado uma das razões para o ceticismo que tomou conta do Dileto nesta temporada. O Imortal estava cansado.
Todos merecem um descanso. Ainda mais quem tem no mural defesas épicas, goles heróicos e a taça de campeão do mundo. E com esta conclusão de quem está com sono decidi não mais pensar neste assunto.
Final de semana sem muitas preocupações terrenas, exceto as camisas do Flamengo anunciando o novo concorrente. Navegando pelas ruas do Rio de Janeiro, feijoada em Santa Tereza, depois de uns bolinhos de bacalhau nas Laranjeiras, teria sido uma estupidez atroz acompanhar ao jogo do São Paulo com ares de crítico de música. Resolvi só torcer.
Zero a um. Palavrão. Um a um. Golaço estupendo, magnífico. Um a dois, caçarolas múltiplas. Dois a Dois. Entusiasmo. Três a dois. O campeão voltou. Três a três, juras de ódio. A feijoada já encontrava com o bolinho, trocavam idéias com a pimenta, encontravam desculpas na água com gás, culpavam as geladas cervejas, a caipirinha de pinga e até os chopes da manhã. Era uma confusão daquelas aquela que se anunciava.
Olhar atento. Falta. O Imortal caminha. Batata. A pelota mansa. Escrito. Bola no canto da barreira, contrapé do goleiro alheio. Insisto. A bola encontra a morada, sorridente, faceira, feliz. Caneco. Quatro a três. Não há mais dúvidas. Previsto. As ruelas todas comemoram interditadas para acompanhar o passeio das alegrias infames. Nem um tiquinho de sal de fruta foi gasto no carnaval.
Só para ilustrar o post do Pedrão logo ali abaixo, as fotos do grande evento supracitado foram tiradas pelo incorformado colorado vice-campeão (as usual), Zé Gotinha, do http://bolaetudo.blogspot.com/.
O pior cego é aquele que não quer ver: Trata-se esta de uma frase milenar, de conteúdo científico, que salta das páginas dos zilhares de compêndios de auto ajuda espalhados pelo planeta, ditas nos rincões da Mongólia e nos agitados convescotes das coberturas do Leblon. Mas a cegueira é voluntária, pergunto com um ar de desesperança?
Escrevo esta filosofia de liquidação para tentar compreender o que está a desmoronar as esperanças do São Paulo Futebol Clube neste campeonato nacional de futebol. Que a vaca foi para o brejo, não há dúvidas. Até os alpendres da sede social do clube reconhecem tal episódio. O time não consegue e é isso. Não há falta de vontade, inaptidão, técnica ou tática. O que tem acontecido é que simplesmente não mais podemos. A alma trancada em si mesmo. Depressão. O obituário do desejo.
Vejam nossos atacantes. Todos os três “titulares”. Dagoberto, Borges e Washinton retratam amiúde este painel de lágrimas densas que descrevo neste instante. Não vejo nessas três almas que perambulam vestindo o manto pelos jogos do Nacional falta de vontade ou caráter. O que percebo, nas entrelinhas dos passos, é que estas almas não podem mais, não suportam mais. Esgotamento. Fim. Acabou-se o que era doce.
A inexorável conquista do título de 2010, declamada em todos os panegíricos jamais escritos, é descrita com coragem, lucidez, bravura. A depressão é algo que nos acolhe, abraça, teima, seduz. Para a ponte que transpassa o vão entre este estado de letargia e a gana da conquista dependemos de esforços sobrenaturais, da benzedeira ao divã, do místico e da psiquiatria clínica.
Reconheçamos que o ciclo acabou com a demonstração de fé que nos tirou da zona do desterro para o grupo dos quatro. Naquele momento o time provou que era tricampeão. E esgotou ali a possibilidade.
Portanto, para o caneco transcendental que nos aguarda, precisamos de seres novos, sangue renovado, almas leves. Oscar, Henrique, Aislan, Diogo são necessários, vitais, essenciais.
Repito o que dito em alguma coluna perdida: não nos importa o título, já o temos. Temos é que sair da letargia e das ferragens que nos prendem a este futebol de desencanto.
Negócios interrompidos por uma salva de palmas. No geral, sorrisos de aprovação. Alegria genuína mesmo, só a dos garçons. A executiva ao lado acha tudo um absurdo, típica indignação da burguesia paulistana.
O garçom mais eufórico simplifica a história: "Este Lula não é brincadeira não".