Os Bolonistas


Os Mistérios do Ludopédio

 


Bolonistas do além...


Quando se descobriu morto, mortinho da silva, incólume entre avenidas, ruas, metrô e casamentos, mesmo que trajasse nu, sentiu pela primeira vez que não viria o seu time ser campeão. Se exasperou. Afinal, faltavam só duas rodadas, cinco pontos de vantagem para o segundo colocado e tinham sido esgotados todos os ingressos para as duas últimas pelejas, numa demonstração de convicção absoluta do caneco inédito.


No início vagou por aí. Não sentia nada. O peso de nada, o vento de nada, o calor do nada. Gritava, ninguém ouvia. Definiu-se morto. Falecido aos quarenta e três anos de vida, dois casamentos e uma união estável, três filhos e uma avó viva. Mas sem título de campeão nacional de futebol, uma verdadeira frustração, dessas equivalentes a nunca ter trepado em árvore.


Como um personagem de filme americano, mas sem a Demi Moore para lhe animar, quando se apercebeu no além tentou descobrir que raios fazia zanzando por aí. Uma alma penada. E olha que mesmo sabendo de uns pecados, alguns até bem feios, achava que o máximo de gancho que o Tribunal Celestial aplicaria era um purgatório, com direito a conexão direta ao fim da punição, em razão dos infortúnios futebolísticos. E foi procurar almas especiais, destas com terceira visão ou cousa parecida, para procurar respostas. Entrou, inclusive, em diversas igrejas, cultos, terreiros. E nada de resposta. O máximo de contato, jurou de pé junto, foi com uma menina no ônibus lotado. Jurou que ela lhe piscara duas vezes.


Por aqueles conhecimentos que todos sabemos de coisas do além, do tipo “brincadeira do copo”, foi vagando pela cidade procurando alguém para encostar. Não achou. Procurou pelas ex mulheres, pelos filhos, pelos amigos. Alguns sinceramente tristes, e ele quis consolar, em vão. Alguns indiferentes, e ele sentiu algum desapontamento. E alguém feliz, mas não valia a pena ficar perdendo o sono por causa disso. Sim, não tinha sono. Entrou madrugada adentro, viu gente em motel, viu gente bêbada, foi voyer e cúmplice de assassinato. Mas nada mesmo podia fazer.


Naquele indo e vindo, notou o domingo. A primeira risada em sei lá quantos dias. Bom, morrera mas ia ver, finalmente, o time campeão. Estádio lotado, encontrou lugar atrás do gol. E o time perdera vergonhosamente, sentindo a ingrata paúra. O segundo colocado tirara três pontos de vantagem e o clima no estádio era péssimo. Não sentira tristeza daquele jeito nem no próprio velório.


Segundo recordações, todas estranhas e confusas, nunca uma semana demorara tanto a passar. Devia ser o passamento do indivíduo uma eterna espera pelo campeonato? E sem nada para fazer, nem a barba cresceu, nem vontade de ir ao banheiro, ficou perambulando naquela busca terrível que lhe explicasse a agonia. A entidade dos céus tinha esquecido dele, chegou a concluir precipitadamente.


Na toada triste, trôpego, macambúzio como limão, chegou no outro domingo. Queria morrer de novo, se fosse possível, ao ter que ver a tragédia consumida de mais um campeonato falido. Mais um ano de fila, mais uma revolta no coração. Mas a constatação do não coração o convenceu a ir ao estádio, outra vez.


Um silêncio sepulcral calou as quase sessenta mil pessoas do estádio. Era o gol do time adversário, num peru digno de Natal. O um a zero acabaria com tudo. Quase tudo, porque ele ainda estaria lá, moribundo, mas morto morrido.


Num desespero frenético resolveu acompanhar todo time no último lance de ataque. O empate daria o título, no saldo de goles. Entrou no gramado sem chuteira e sem corpo, louco, furioso, frenético. A bola dócil e doce parou aos seus pés, no bico da pequena área. Tocou para o fundo da rede. E desapareceu no infinito.


A manchete do Estadão dizia tudo: “Gol de vento enlouquece o futebol”.



27.11.2009


 



Categoria: Coluna do Amaral
Escrito por Amaral às 12h18
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Xico Sá, FSP 27/11/2009

É o campeonato da disfunção erétil, amigo. Uns brocham por conhecer demais a mulher -caso do São Paulo de tantos títulos- e outros falham pela expectativa exagerada. Como cantassem uma mulher o ano inteiro e, na noite em que a dama se entrega, o cara debréia o seu caminhãozinho sob alegação de que realmente era muito areia.



Escrito por Luís às 09h28
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A (in)evolução do futebol brasileiro



Na década de 80, nossos laterais saiam do Brasil para serem o 10 dos times europeus.
Hoje, nossos laterais voltam de lá para serem os 10 daqui...
O que está acontecendo??

Dunga é um técnico(??) que não podemos mais sacar devido às conquistas(??) e às vitórias sobre a Argentina, que sofre pela falta de um técnico.

Falando em técnico argentino, o que acontecerá com a igreja do Maradona agora que descobriram que ele não é Deus?

Bom, voltando à Seleça: Será que não temos nenhum jogador para termos que usar o Daniel Alves, que não passa de um bom lateral que um dia jogou no Bahia, como meia de criação??

Me parece que Dunga quer um "coringa" na Canarinho.

Fosse 15 anos atrás, convocaria o Tupanzinho.

 

Beijo Grande, Pedro.



Escrito por Pedrão às 06h50
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Surrupios

Bolonistas,

Adoro eliminatórias, mas detesto surrupios. Confesso que acompanho até Bahrein x Nova Zelândia, Honduras x El Salvador e liguei a TV no segundo tempo de França x Irlanda. A França estava irreconhecível. Que lástima de time é esse? Como perdemos três copas para essa seleção?! E ganhou num triplo surrupio. Primeiro, o lance estava em impedimento. Depois, bola na mão do Henry. Em seguida, bola na mão de Henry de novo. Vejam que já é uma reincidência. E o passe do Henry para o gol do Gallas. Surrupiaram a Irlanda! Isso ficou claro como gelo.

À noite, Uruguai x Costa Rica. Torci para o Uruguai, afinal, durante a Copa é bem melhor vermos Alemanha x Uruguai do que Alemanha x Costa Rica. Dá mais graça, mais brios. O Uruguai joga como time pequeno, mas tem dois mundiais no bolso. É a única seleção que teve jogador expulso em jogo de Copa com menos de um minuto de partida. Eles vivem a sua decadência futebolística, mas ainda carregam o nome na camisa, o trágico estigma, para nós, do Maracanazzo. Lembremos que a Copa tem momentos necessários de tragédia. Sem a tragédia de uns não teríamos a glória de outros. Sem a convulsão de Ronaldo, talvez, não teríamos oito gols na Copa seguinte. Sem ser expulso contra a Argentina, Beckham não bateria o pênalti que os mandou de volta para casa na primeira fase da Coréia-Japão. Pois o Uruguai é aquele time duro de eliminar.

Só que veio o jogo contra a Costa Rica e, com ele, alguns surrupios. O gol de Loco Abreu teve um surrupio fantástico. O artilheiro se apoiou claramente no zagueiro para subir e mandar a bola para as redes. Foi daqueles surrupios que escondem uma beleza misteriosa, pois nos fazem torcer para que o juiz não veja. Uma apoiadinha clássica. Bela manha sulamericana. Me lembrou a cotovelada de Pelé na semifinal de 70. Se o juiz tivesse visto, Pelé não jogaria a final e não faria um dos mais belos gols de cabeça da história das Copas, na abertura daquele 4 a 1 contra a Itália.

Abreu, o louco, fez um gol-surrupio e o estádio centenário veio abaixo. Que bela festa! Socos no distintivo da celeste junto ao coração. Naquele instante, o Uruguai era o bom e velho time de brios. Só que, logo em seguida, a celeste apagou. Tomou um gol de um meia-atacante de 35 anos, o Centeno. E poderia ter perdido o jogo. Faltando uns cinco minutos para o fim, o desconhecido Chacon invadiu a área para fazer o 2 a 1 que deixaria o Uruguai fora da Copa. Era ele e o goleiro. Chacon arqueou o corpo e preparou o disparo. Todos no estádio prenderam a respiração. Todos focados naquele lance. E surge mais um surrupio. Chacon é ligeiramente deslocado por um puxão na camisa pelo zagueiro uruguaio. Pênalti? A imagem mostra que foi. E o juiz? Nada marcou. Surrupiaram a Costa Rica, assim como surrupiaram a Irlanda.

Tudo bem que a Copa fica mais interessante com França e Uruguai. São dois campeões mundiais. Mas que houve surrupios, isso houve. Pode ter sido em nome do interesse maior do torneio? Ainda não acredito em teorias da conspiração. Posso ser ingênuo, mas ainda acho que é apenas uma nuvem que paira nesses jogos e manda o time mais tradicional e de mais camisa para os caminhos da glória.

E no Brasil essa nuvem está alta. Tempos nublados nos gramados e fora deles. Aqui oficializaram os surrupios através do tal tribunal. Já temos os surrupios nos gramados que, diga-se de passagem, já ocorreram para todos os lados, prejudicando e beneficiando todas as torcidas. Mas, depois dos gramados, vem a Corte para fazer os seus surrupios, com teses e argumentações jurídico-passionais. E surrupiaram o Morumbi do campeonato, além de uma dupla inteira de atacantes e um dos melhores volantes do time, que ainda cumpre a escassa função de lateral-direito no elenco. Tudo bem que ninguém agüenta mais o mesmo time campeão. Já foram três anos seguidos com a Taça indo para a mesma casa. Three in a roll, diriam os americanos. Não querem mais jogos nessa casa nem para a abertura de Copa e muito menos para fechar o campeonato local. “Se der SP novamente, pode fechar o campeonato”, me disse um colega fanático pelo Mengo. O time dele está na secura desse título. São 17 anos sem chegar lá. As ruas da capital federal ficam literalmente desertas quando o rubro-negro joga. É muito tempo de espera para uma torcida daquele tamanho. É essa a nuvem que se formou e que aumenta cada dia.

Tudo somado, vamos continuar a viver de surrupios aqui e na Copa. Será assim até o dia 6 de dezembro, quando termina o Brasileirão num estádio não sabido, e também no dia 4, quando vão sortear os grupos do Mundial na Suláfrica. Até começar tudo de novo no ano que vem.

Quem disse que o futebol é justo?



Escrito por Jubas às 13h40
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Caros confrades....

Recebi a indicação de um texto fascinante sobre a paixão clubística. Repasso.

Vale a pena a leitura.

É certo que paixão é assim mesmo...

Mesmo errática, na minha modesta opinião, como a do Leandro.

http://anivelde.org/thepompeiatimes/2009/11/12/palmeiras-ate-breve.htm

 



Escrito por Amaral às 16h09
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Preguiça, mas necessária...

 


Bolonistas, vamos resolver no braço...



Queria ter mais tempo, argumento e paciência para discutir mais um pouco sobre o que estamos fazendo do nosso mundo. A questão da microsaia da menina que acabou em apupos de vagabunda, e outros de quilates menores, numa universidade do Estado de São Paulo, a locomotiva do país, revela uma perversa equação, que justifica a intolerância, reverbera a violência como solução de situações que possam causar desconforto e que mostra uma falsa indignação. Porque no fundo não vamos discutir as raízes. Vamos ficar nos xingamentos e no tamanho das vestes.


Não iremos parar e refletir sobre o porque milhares de estudantes resolvem engrossar um coro de xingamentos, numa onda que se propaga em movimento inercial. Porque esta onda se propaga, em segundos, sem reflexão, sem negação, sem reação adversa. Porque marmanjos crescem em demonstrações de virilidade e profunda estupidez.


Não iremos requerer dos avaliadores dos órgãos do Ministério da Educação uma investigação profunda sobre a estrutura das instituições de ensino e sua responsabilidade nesta imbecilidade. A questão não é curricular, somente. Tampouco se esgotam nas notas dos sistema de avaliação. O relevante, que se tem esquecido, é como se estruturam as redes de ensino privado no país, sobretudo as de nível superior. Quais as bases para que tais instituições tenham licenças para funcionamento, quais as relações entre estas instituições e a sociedade e se nestas instituições há garantias de respeito à diversidade, a tolerância ou o que vale mesmo é o preço do mensalidade e do diploma.


Enfim, irrita esta discussão. Agora vamos ao debate sobre a expulsão da aluna e sua reintegração. É muito pó.


E, lamentavelmente, percebemos que vamos mesmo é ficar na dicotomia tamanho da saia versus xingamentos e ameaças. E que estas demonstrações de virilidade estão arraigadas e que nossa indignação é sazonal ou de conveniência. O macho é o que diz que vai partir para a porrada, que diz que vai resolver as coisas no braço, que tem coragem de agredir. E o coro de “juiz calhorda e ladrão” toma conta da arquibancada.


10.11.2009



Categoria: Coluna do Amaral
Escrito por Amaral às 01h02
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Três Nove Avos ou mais..

 

Bolonistas, um feriado e uma das outras estórias...


Era matemático. Desde o primeiro emprego alternou os dias na sala de aula e em salas de pesquisa. Ia bem, não ia mal. Gostava das classes e era apaixonado por idéias. A matemática o completava, como o dois de um e um.


Estudava muito, também. Eram livros, mas eram anotações em cadernos, guardanapos, extratos bancários e até em livros. Tinha uma queda irresistível por análises combinatórias. Sim, este era o seu xodó. E gostava de suco de limão, sem açúcar, feito com água com gás.


Lecionara anos na mesma escola de segundo grau. E numa boa oportunidade trabalhou em um instituto de pesquisa. Reviu números de pesquisas, conferiu grades, observou eleições de perto se definindo aos poucos e aos números. Não gostou e para ficar em paz deixou de lado uns bons trocados.


Tinha um grande amor, Marta. Eram para ela os crisântemos que sempre comprava na mesma banca de flores no caminho de casa. Amarelos, vermelhos, azuis. Sabia dos corantes e no fundo não se importava. Gostava era do sorriso dela toda cesta.


Obcecado era por gibis de super heróis. Volverine, Batman e o Átomo eram os preferidos. Mas não negava sequer o Capitão América. Tinha uma imensa coleção de histórias em quadrinhos e adquirira recentemente o hábito dos desenhos animados. Dizia sempre que a lógica utilizada pelo Homem Morcego só poderia ser a resultante de bons conhecimentos de matemática. Nos sonhos era ele o professor de Bruce Wayne.


Um dia ensolarado e com algumas dúvidas quanto ao tamanho do mês e sua relação com o quantum dos vencimentos, recebeu uma proposta irrecusável para trabalhar em um jornal de esportes, como consultor e elaborando estudos sobre as chances de cada time no campeonato, usando a matemática para analisar as probabilidades de caneco ou de rebaixamento. Sim, também gastava preciosos neurônios com o futebol. Recusou, de forma insofismável: “Seria uma fraude terrível. Meus números sempre tenderiam a flertar com meu time”.


Uma vez o encontrei na praça, lendo jornal. Abriu um largo sorriso e me disse, com brilho no olhar: “Percebeu? Na matemática, já empatamos.” Vestia a camisa do time e tinha no semblante a convicção de que sete é a soma de quatro mais três.


02.11.09



Categoria: Coluna do Amaral
Escrito por Amaral às 01h11
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Ao Vicente Feola, chefe de cozinha

 

 

 

Bolonistas, que horas sai o pão?


Tomate é bom. Mas um pouco de azeite e sal lhe dá mais vida. Assim é com o quiabo, que com calabresa se transformam em casal de novela das oito, final feliz. Nestas bobagens costumeiras que passam pelas minhas divagações não posso encontrar outras comparações para o futebol do campeão brasileiro do que os quitutes da culinária simples, daquelas da cozinha de casa.


O jogo deste sábado foi uma das pérolas das iguarias sem tempero. E com direito a considerações demoníacas que fazem um simples bife frito nos causar indigestão. Sofremos na segunda metade da peleja pressões inexplicáveis, injustificáveis e até tremores. Não que durante a vida não encontremos exemplos de partidas duríssimas contra times considerados pequenos ou aberrações similares. Mas é que o hábito faz o monge e definitivamente não podemos nos acostumar com macarrão mole, café doce ou chuchu sem mistura.


Não queremos necessariamente cordeiros com molho de hortelã todos os dias de nossas vidas. Nem bacalhau, este santo processo, dá conta de ser o feijão com arroz. Mas temos o direito de querer um temperinho, um alecrim, uma acelga com bacon. Ainda que vegetarianos radicais, todos, um tofu só com tofu dá nos nervos.


Ninguém quer o impossível, notem bem. Ninguém quer um quadro de bienal em sala refrigerada. Queremos pouca coisa. Um limão. E só. O gol de falta do Hernanes contra o Santos nos satisfaz. Mas ninguém, em sã consciência, não deixa de ter uma fome por um capricho, um esmero, um toque de letra. E um time que não faça do Barueri um adversário temível, maligno, sorrateiro.


Enfim, caríssimos, nestas rodadas que seguem, quem sabe não encontramos uma polenta, uma carne moída, um molho de tomates frescos. Porque da cozinha dos outros, me desculpem, nem alface crespa vai para o prato com cara de verdura. Quanto mais os refogados...


31.10.09

ps.: Vicente Feola foi o treinador do Brasil na Copa de 1958. Dizem que este foi o melhor Brasil de todos os tempos. Pelé, Garrincha e Didi no mesmíssimo time. Os almanaques o chamam de bonachão. Mas o fato essencial foi que Feola dirigiu o São Paulo Futebol Clube por mais de quinhentas vezes. É o treinador que mais vezes coordenou nossa orquestra. Uma história de cozinha, sem dúvida.

 

 



Categoria: Coluna do Amaral
Escrito por Amaral às 01h06
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