Os Bolonistas


 
 

Comentários Imparciais de Uma Final de Mundial

 

 

O bom de ser um cronista que todos saibam imparcial é que qualquer abobrinha que escrevamos não vem com a nódoa da paixão clubística. Assim, posso dizer, sem medo que me crucifiquem num altar de oferendas, que o que faltou ao Santos no jogo contra o Barcelona foi a presença, ao menos no banco de suplentes, de um jogador como Marlos: objetivo, retilíneo, com faro de gol. Ou alguém com a raça e a entrega de um Juan, ou, quem sabe, de um Dagoberto.


Pataquadas a parte, o que mais assusta num jogo como esses, não é o resultado ou a forma como o Barcelona jogou. É como a grande parte da crônica esportiva "especializada" reage ao óbvio... De uma hora para outra o Santos de Neimar passou a ser um timeco de quinta série e o Barcelona uma espécime de glorificado seja o vosso nome. Nem tanto ao chão nem tanto ao nariz no chão.


O Barcelona é o que é. Todo final de semana tem jogo dos caras na televisão. Incluindo na TV aberta. Até a areia do José Menino reconhece que a posse de bola é para o Barcelona como os dinheiros extras são para as privatizações. Messi é um demônio e todos, exceto os argentinos que, pasmem, ainda creem que Carlos Gardel não era uruguaio, sabem que parar o cara é tarefa para um ordem inteira de cavaleiros do Graal. Não se trata Messi como mortal quando este está acompanhado pelos arcanjos Iniesta e Xavi. Portanto, a luz solar embasaria o definitivo prognóstico da peleja do último domingo: O Barça ganha, e fácil.


Além do trio do capeta, o time catalão ainda tem o Daniel Alves jogando na posição certa (cousa que somente o Dunga ousou escalar na seleça nacional) e o tal Fábregas, que dizem errou o último passe numa partida da sétima série C. Enfim, na lógica, era caixa, caixíssima, batata, batatíssima.


Mas o esporte em questão não é, ou não deveria ser, somente um jogo de onze contra onze. O futebol é outra coisa. Somente no futebol, e só no futebol, o Olaria da Bariri e o temível Juventus da Moóca podem sonhar, num único jogo, aprontar para cima de qualquer time: Do Santos de Pelé, do Flamengo de Zico, do Brasil de 58 ou do Barcelona, desde Evaristo até o time treinado por Guardiola. É exatamente esta possibilidade - remota, ínfima, patética, sobrenatural, sacrilégio, pecado, feitiço, macumba das boas - que embalou os sonhos dos santistas no embate do mundial. Mas só os santistas, repito para frisar e ser chato, só os santistas, tinham este direito. Os demais, façam-me o favor, que se “surpreenderam” com o resultado, só podem estar motivados por má-fé ou desabrigada ignorância de conveniência, aqueles que fingem não saber para tentar seduzir a patuléia a comprar mais um engradado ou um tênis de marca.


E mais, o Santos que “encantou” a nação nunca foi o Santos de Muricy. O Santos de Dorival Junior que tinha Robinho, André e Marquinhos como volante (!!!) era o Santástico. Muricy chegou exatamente para freiar aquela maravilha cósmica, para dar aquele time um pouco de pragmatismo, de razão prática, por saber que a torcida gosta do jogo bem jogado, mas aprecia mesmo um bom caneco. O time de Muricy era o do jogo com o Cerro, no Paraguai, ou o da final com o Peñarol. Aquele que encantou, e perdeu, no jogo contra o Flamengo foi a exceção. Portanto, nem o bom Muriça foi “surpreendido” com o Barcelona. Muricy apostou na jogada única de Neimar – ou até do Ganso – e que não veio. E errou ao mentir quando disse que o Santos ia ao Japão para se “divertir”. O semblante de desespero do time, e do treinador, passados os primeiros quinze minutos de jogo, diziam que o Santos não queria era fazer feio. Dançou.


A pergunta dos plantonistas das obviedades solares é: como vencer este time mágico do Barcelona? Ora, ninguém tem a receita pronta para todos os jogos e é por isso que o time catalão é o melhor. Mas outro dia mesmo o bravo Levante* deu uma de Paulista de Jundiaí e sapecou um a zero nos rapazes. E noutro dia ainda, o tão apupado – e charlatão, imodesto e chato como unha encravada – José Mourinho ganhou de 3x1 com uma Internazionale jogando numa retranca mágica, de dar gosto. E posso dizer mais uns outros jogos onde o time adversário tomou uma sonora goleada mas não se portou sem fidalguia.


Em resumo, o Barcelona de Guardiola é um timaço. E se o Rogério Ceni fosse o goleiro adversário e jogasse o que jogou naquela partida contra o Liverpool, o caneco poderia até ficar com outro dono. O resto é chuva.

 

19.12.2011

 * Como bem lembrado pelo incansável Chico Bicudo, santista, o Barça perdeu foi do Getafe.... Getafe, meus caros. Em dia de Norusca!



Categoria: Coluna do Amaral
Escrito por Amaral às 23h30
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Faço uma promessa: Se a emenda das Diretas passar eu não vou jogar na Itália e fico no Brasil

 

 

 

Puta dia triste. No meu Estrelão, sempre um espaço para gastar nostalgias, saudades, tristezas, alegrias, memórias, criancices, narrar jogos sozinho, gritar euforias de time, ser torcida e arquibancada, um refletor desligou. E um baita refletor. Daqueles que só de lembrar, da luz, da cor, da felicidade, dói tudo nas entranhas. O melhor do futebol é aquilo que guardamos de criança. E é sempre ruim, muito ruim, quando um pedaço deste infante se vai. Já não existe Papai Noel, já não existe mundo colorido, já não há andar descalço... e agora acabou-se 1982, acabou a única copa do mundo de futebol que, de fato, existiu.


Sócrates era corintiano. Era brasileiro. Era uma sumidade. Mas era palpável, próximo, do caderno de anotações. Era incongruente como nós, falava de política com os mesmos desatinos, acertos, erros miseráveis, sonhos e a doce utopia, a única que nos faz realmente gente, de querer um mundo diferente, menos macambúzio, menos marquetinque, menos comércio, mais papo de bar, mesa de ferro, futebol de botão. Sócrates não se acomodava na política do possível e por isso Sócrates nunca engoliu 94. Porque 94 é vitória, conquista, maravilha. Mas é a política do possível, é o governo sem reforma agrária, a inexpugnável vitória da real politik, da arena multiuso, da arquibancada com cadeirinha de espuma para a bunda.


1982 acabou. Zoff não vai mais me acordar durante o pesadelo. A cabeçada de Oscar no final do jogo nunca mais vai passar a linha. José Silvério nunca mais gritará “é campeão”. Zico nunca mais terá a chance de cobrar a penalidade que Gentile fez, a camisa do galinho nunca mais será remendada. Serginho não dará uns safanões naqueles italianos de ternos armani. Paolo Rossi não será alvejado por uma bazuca quântica de oito mil polegadas. Mestre Telê nunca mais fará a coletiva ao lado da taça FIFA, talvez a taça que mais bonita ficasse na sua coleção. 1982 ficará naquele gol espetacular, mágico, inenarrável, estupidamente soberbo do Doutor contra o maldito Dino Zoff, onde a pelota foi entrar cantinho da meta, no único lugar do mundo que deus pode ajudar.


Que os Deuses, na peleja de hoje a tarde, coloquem o Sócrates no time dos sonhos. É dele a braçadeira. É nossa a saudade. Que o Corínthians de hoje jogue por ele, menos pelo título, menos pelo campeonato, que o time do povo, sem demagogia alguma, possa, ao menos hoje, ser o time do povo. Sem o possível. De coisas possíveis estamos todos com o saco repleto, absolutamente farto.


Sócrates, peço benção Doutor. Te cuida.

 

04.12.2011

 



Categoria: Coluna do Amaral
Escrito por Amaral às 13h18
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