Almofadinhas...


 

As vésperas da Copa do Mundo no Brasil, algo que aconteceu tantas e tantas vezes no meu Estrelão e em todos os campos de botão de minhas casas (incluo as pelejas imaginárias também), o futebol no Brasil é "algo em disputa". (OK, reconheço que esse "algo em disputa" é mera escusa retórica para nossa cegueira - ou torcida, ou crença, ou amor)

De um lado, o negocinho. Das "arenas multi uso", do pijama novo da seleção canário lufante, das almofadinhas para bundas nas cadeiras numeradas, nas cotas de patrocínio até para o nariz dos jogadores, dos horários pós novelas. Um negócio lucrativo, rentável, miraculoso, Brasil 3 x 0 Espanha.

Do outro, a imensa resistência de torcedores e almas. Nada, repito, nada foi mais importante do que o acesso de Sampaio Corrêa e Santa Cruz para a Série B do campeonato nacional. Porque dois times de verdade, daqueles que fazem o futebol esta cousa mágica, esta peleja interminável em que a cabeçada de Oscar vence Zoff e o Brasil de Telê empata a última partida viva da história da seleção nacional. Também o Botafogo da Paraíba na série C. E a volta do Vila Nova para a B. São pedaços de resistência de cimento, de paixão, de bandeira, camisa e sanduba de pernil.

Durante muito tempo, por gostar muito do jogo e do meu time, por gostar de ver jogo em estádio, acreditei que o bom começo era a modernização dos estádios, a racionailização das tabelas, um pouco de conforto, o fim dos estaduais para poder me dedicar mais a todos os jogos são clássicos, pontos corridos para premiar mais o mérito do que a sorte.

É verdade que boa parte destes quereres e crenças são benvindos. Seria fantástico um sistema de compra de ingressos e de entrada e saída do Morumbi minimamente racional, razoável e sem aquele empurra empurra que vai dar merda alguma hora. Mas o efeito deste discurso foi demais perverso. Deu asas aos que enriquecem aos custos de sonhos alheios: dos que fabricam casas e prédios, dos que comandam rádio, tv, jornal, revista - e que agora também "usuram" o futebol. E defender o fim dos estaduais, me parece evidente hoje, que é ser ou inocente útil desta maldita roda de destruição de jogos de botão, ou de uma retumbante má-fé: não há a menor possibilidade de um bom futebol sem um Ferroviária versus América de Rio Preto, sem um Olaria versus Goytacaz, sem um Valeriodoce versus Tupi, sem um Galícia versus Fluminense de Feira de Santana, sem um Desportiva versus Rio Branco. O resto é discursinho de "playstation".

Um sanduba de mortadela, um copo de cerveja, um canóli de creme. Bandeira, bumbo, abraço. Xingar o bandeira, a mãe do juiz, o adversário. Mandar o lateral do nosso time vir atender o telefone lá na arquibancada. Camisa do time custando preço de gente e não preço de shopping. Vai ser difícil explicar...

 

Escrevi estas linhas como forma de desabafo. Porque vou torcer pelo meu time amanhã, o São Paulo. Porque para nós tricolores não há nada mais importante do que a Libertadores, do que jogar naqueles campos latinos, enfrentar catimba, ser campeón. Porque nossa vitória seria épica e é difícil imaginar a possibilidade deste acontecimento sem uma partidaça de Rogério ou de Ganso - e Ganso tem feito a gente torcer, secretamente, para que ele continue inconstante e assim não saia do plantel tão cedo em busca de dólares, salários, famas em outras praças, mas continue com a nossa oito arrancando sorrisos quando faz cousas como o quase gol no jogo com o Botafogo. Mas vou torcer sabendo que seria ótimo para a resistência a vitória da Ponte Preta e quem sabe o título, para cuspir na face da prepotência da diretoria sãopaulina e na própria lógica das arenas, almofadas, lanchinho de isopor.

E que no final de semana o grande, o imenso Icasa, do Crato, no interior do Ceará pode rumar para a série A, em pleno ano de Copa. Imaginem senhoures e senhouras a beleza de um jogo da série A em Crato ou em Juazeiro, com a benção de Padre Cícero!!!!

Sempre acho que aquela bola do Oscar entrou. Que a defesa de Zoff não existiu.