Os Bolonistas

Cacos de Existência



 
 

Nesses tempos de Fifa Soccer estou ensinando o meu pequeno a jogar o bom e velho futebol de botão



Escrito por Jubas às 23h10
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Alta Noite

A madrugada é um tempo imprevisível. Eu adoro a madrugada.

Tudo em silêncio. E tudo pode acontecer.

Outro dia, (ou melhor dizendo, outra madrugada), lá pelas três, ouvi um barulho no quarto ao lado e fui checar se estava tudo ok com o pequeno. Ele parecia apreensivo e levantou assim que pus a mão em sua testa suada. Olhou para mim bastante sério, com aquela cara de precisamos conversar e disse: “Você sabia, Ju: o  homem-aranha não é científico”.

Fiquei perplexo com aquela novidade. Nunca pude imaginar que o Aranha, Peter Parker para os íntimos, não teria nenhum grau de robustez científica em sua conformação morfológica.

“É mesmo, Lucas”, respondi com a voz cansada. Reuniões, um longo expediente e entrevistas coletivas me esperavam no dia seguinte. “Então, ponha a cabeça no travesseiro e volte a dormir.”

Ele me obedeceu meio que por inércia. Colocou a testa suada na imagem de um avião da década de 1910 que está estampada em seu travesseiro, voltou os olhos para o pingüim azul americano de nome espanhol em sua fronha e, dez segundos depois, pegou no sono novamente.

Fico imaginando de onde ele tira essas histórias. Claro que o Aranha, em ficção, é comprovadamente científico. Parker foi picado durante uma excursão de sua escola por uma aranha de laboratório. Daí, veio a sua força descomunal, capaz de levantar até 10 toneladas, a sua aderência, que lhe permite espionar os inimigos em arranha-céus, e o seu radar rastreador, que lhe avisa o perigo. Aranha, laboratório, é pura ciência. O que ele quis dizer com não-científico?

Então, veio outra madrugada. Outro barulho. Lá fui eu ver se estava tudo ok. A testa estava novamente suada e ele novamente levantou-se da cama arqueando a sobrancelha, um ar de “preciso te contar uma coisa”.

“Sabe, Ju: aquela montanha que sai fogo não é um vulcão.”

“Como não, Lucas?” (Novamente, ele estava errado e é dever de pai ensinar as coisas aos pequenos.) “Lucas, se é montanha e sai fogo, claro que é um vulcão.”

“Não, Ju. Aquela é a montanha do dragão.”

Um silêncio reinou no quarto por uns instantes. Pensei se deveria corrigi-lo. Explicar como funciona um vulcão ou se não seria melhor voltarmos a dormir, afinal, passava das duas e outro longo dia de trabalho me esperava assim que amanhecesse.

“Tudo bem, Lucas. É a montanha do dragão avermelhado. Agora, vá dormir!”

Às vezes, acho que Lucas me convence, nem que seja pelo cansaço. Eu é que estou errado. Nós, adultos alfabetizados, é que estamos errados. Lucas é que é científico. Afinal, o Aranha é mesmo uma ilusão. E a montanha é do dragão vermelho que vive no alto do Vale dos Dinossauros. Um picterodátilo à espreita. E nada de vulcão. São fatos claros como o ar que outra vez me acordou em meio a suspiros infantis na madrugada. Lá fui eu arrastando chinelos pelo quarto para vê-lo se levantar com uma paciência quase oriental e voltar-se para mim com toda a sua sabedoria.

“Sabe, Ju: aquela rocha não é a rocha voadora dos vikings. É a rocha de uma tempestade de verdade.”

“Lucas, vai dormir!”



Escrito por Jubas às 00h14
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Maldita Academia!

A Copa Europa foi duramente prejudicada por uma dissertação de mestrado. A média de gols caiu dramaticamente levando a fatos inéditos: pela primeira vez o Futebol de Botão teve inveja do futebol de campo. Vimos empates fantásticos em 4x4 no campeonato inglês, enquanto se sucederam placares mixurucas, como 2x0 e 2x1 no botão.

Os livros foram os grandes culpados. Colocados em sucessão em cima do campo criaram duas grandes áreas de tortuosidades. O gol próximo da janela está declinado para frente e o gol que fica perto do computador ficou torto para a esquerda. Como é possível jogar num campo assim? Telê ficaria petrificado!

O espanhol Manuel Castells, com o seu A Sociedade em Rede, é apontado como um dos maiores vilões do torneio. O livro é um catatau de mais de 600 páginas (e ainda vem com prefácio de FHC, o boca-mole). Gerou a tortuosidade extrema no gol da janela. Outros autores também provocaram as quedas em sucessão no gramado, como o português Nelson Traquina (três livros de 200 pgs cada) e o francês Dominique Wolton (quatro livros que envergaram o gol do computador para a esquerda prejudicando inúmeros ataques).

A Fiba já estuda a proibição desse tipo de atividade nos próximos anos.

Grupo 1

Alemanha 1x3 Croácia (3 gols do Eduardo)

Áustria 2x0 Croácia (zebra)

Alemanha 7x1 Áustria (austríacos sempre abrem as pernas para os alemães)

 

Grupo 2

Dinamarca 3x3 Bulgária (bom jogo)

Itália 4x2 Bulgária

Itália 1x0 Dinamarca

 

Grupo 3

Bélgica 2x2 Montenegro

Grécia 0x1 Bélgica

Grécia 2x1 Montenegro

 

Grupo 4

Portugal 2x1 Turquia

Rússia 1x2 Turquia (gol do Marco Aurélio)

Rússia 2x4 Portugal (Deco e Ronaldo fizeram 2 gols cada)

 

Grupo 5

Romênia 2x0 Eslovênia

Inglaterra 2x0 Eslovênia

Inglaterra 5x2 Romênia

 

Grupo 6

França 2x1 Israel

Suécia 4x2 Israel

França 5x1 Suécia (Henry acabou com o jogo)

 

Grupo 7

Irlanda 2x1 Irlanda do Norte

Holanda 4x2 Irlanda do Norte

Holanda 2x2 Irlanda

 

Grupo 8

Polônia 2x0 Suíça

Sérvia 2x2 Suíça (Petkovic fez um golaço)

Sérvia 2x1 Polônia (outro belo gol de Pet)

 

Grupo 9

Ucrânia 2x2 Hungria

Espanha 2x0 Hungria

Espanha 3x0 Ucrânia

 

Grupo 10

Noruega 1x1 Escócia

Tcheca 2x2 Escócia

Tcheca 5x5 Noruega (finalmente, um jogão)

 

Na segunda fase, Alemanha, Itália e Portugal caíram no grupo da morte:

Grupo A – Inglaterra, Bélgica e Polônia

Grupo B – França, Sérvia e Irlanda

Grupo C – Holanda, Espanha e Tcheca

Grupo D – Alemanha, Itália e Portugal



Escrito por Jubas às 11h24
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Eventos de junho

Povo, ficarei as próximas cinco semanas na terra do Obelix com a certeza de saber tudo o que acontecerá no Brasil até meu retorno. Seguem os acontecimentos:

1) O Timão vencerá a Copa do Brasil com dois gols do Gordo na final. Contra o Coritiba.

2) O São Paulo eliminará o Cruzeiro na Libertadores. E perderá de novo para o Grêmio. O Boca ganhará a Libertadores.

3) O Lula negará que pretende concorrer a um terceiro mandato.

4) O Caubói completará 35 anos de idade.

5) O Deco e a Ana completarão 3 anos de casados.

6) O Botafogo perderá.

7) O Atlético Mineiro perderá.

Mas tem uma coisa que não consigo prever: teremos mais um bolonista antropólogo?

P. S. 1: Na cena, estão Obelix e Asterix. Os dois estão escondidos observando um acampamento romano. Asterix: “Nossa, são milhares de romanos”. Obelix: “Eu diria mesmo centenas”.

P. S. 2.: Bóris, desolé.



Escrito por Zecão às 13h36
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Fórmula 1

Outro dia, fui ultrapassado por Nelson Piquet. Estava descendo a via que dá acesso à Ponte JK e vi um carro antigo pelo retrovisor. Branco, sem capota, linhas dos anos 50. Pensei que era um colecionador, um velhinho desses que chegaram à capital antes de ela ser capital, nos tempos do Juscelino. De repente, o carro acelerou de tal forma que me tomou a esquerda e emplacou reto rumo à ponte.

Piquet de calhambeque. Uma ironia. Um carro do passado. Claro que o calhambeque estava turbinado, provavelmente como ele fazia na Williams. E claro que aquela ultrapassagem não foi tão emocionante quanto a do Grande Prêmio da Hungria, em 1986. Piquet ficou literalmente na perpendicular do carro de Senna naquela vez.

Na Hungria, há uma reta imensa, não tão grande quanto essa da Ponte JK, mas propícia para ultrapassagens. Na primeira tentativa, Piquet acelerou no início da reta e foi para frente de Senna no final. Só que teve de frear no fim da reta, quando ela virou uma curva de 90 graus. O problema é que essa freada fez com que o Senna recuperasse a posição. Nada de ultrapassagem.

Então, lá foram eles para a volta seguinte. Ali se deu o momento fatídico. Piquet acelera na reta novamente e passa o carro preto do Ayrton. Quando chega a curva de 90 graus, Senna se aproxima para retomar o primeiro lugar. Aí veio a manobra decisiva. Piquet fecha Ayrton com a lateral do carro. Uma fumaça sai dos pneus de sua Williams bufando para que Senna não acelere até o limite de baterem. Senna resiste e não segura o carro. Há um quase-toque e Piquet ganha a posição.

Confesso que só reparei que era o Piquet porque tinha um “pardal” logo à frente e ele teve que desacelerar. Curioso como até os Piquets têm que desacelerar na ultrapassagem. Os carros são feitos com potência de 220 km por hora, mas as pistas nos limitam a 80 km. E ficamos cada um com a sua própria cota de velocidade. Existem sujeitos que só vão a 60 na pista de 80. E há outros que só andam a 120 na pista de 80. Uns querem andar o dobro do que os outros. As regras são iguais para todos. Mas cada um faz o que quer nessa sociedade individualista e confusa.

Jackie Stewart disse que aquela ultrapassagem foi como dar um “looping” com um Boeing 737. Pois Piquet tem um avião e, nos dias em que vejo uns jatinhos nos céus da capital, sempre me pergunto se não é ele que está lá em cima e se não terei o privilégio de ver um “looping” e aplaudir do quintal de casa. Ou quem sabe, nos esbarramos numa curva de 90 graus e serei novamente ultrapassado. Passado.



Escrito por Jubas às 11h06
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Bolonistas, um momento poético...

Os quatro erráticos elementos

 

Me sinto como o Ar

Leve como uma dor

Que sei que vai passar

 

Me sinto como uma Pedra

Duro como um impulso

Que sei que não se engedra

 

Me sinto como o Fogo

Esparso em labaredas

Sei que nunca chegarão ao topo

 

Me sinto como a Água

Por caminhos tão correntes

Que sei que acabarão em mágoa



Escrito por Jubas às 11h07
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A estréia

Disseram que seria muito cedo para ele. Que seria como tirá-lo de casa. Que ele ainda não tem condições de cumprir horários, regras, lições. Mas, a intuição me levou a colocá-lo no carro, mesmo com todas as dúvidas do mundo dançando pela minha cabeça, e levá-lo diretamente para a escola.

Ele ainda não vai ao banheiro e já vai estudar? Ele ainda usa mamadeira e vai comer no refeitório? Ele chama os iogurtes de “surpresas”, as letras e números de “esquadros”. Fala na terceira pessoa, que nem o Pelé: “Ele quer esse brinquedo.” “Ele quer mamar.” E, às vezes, me chama de “Seu pai”.

“Seu pai, você põe a música do arco-íris?”, pede o pequeno, ao entrar no carro. E continuamos os dois cheios de coisas não sabidas. Ele mal sabe que vai para a escola. E eu não faço idéia do que seja a música do arco-íris. Ligo o som e penso alto na lição de uma psicóloga que me contou que, entre os dois e os três anos, os pequenos estão numa fase em que não conseguem fazer descrições próprias dos acontecimentos. Essa fase se chama “especulare”. É mais ou menos como a grande imprensa brasileira: apenas repete o que os outros falam. Especulam. Daí, o uso da terceira pessoa pelos pequenos. Esse pensamento me leva à grave constatação de que o pequeno Lucas, uma vez na escola, não conseguirá contar o que aconteceu, a não ser pela versão da professora (e de outros colegas de dois e três anos). Fico nervoso por um breve instante, quando o som do carro, num lapso, me revela ao menos o que é a música do arco-íris: “Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel...”

Lucas ri irresponsavelmente da música, enquanto meus ombros pesam cada vez mais. Deixar um filho na escola é como soltá-lo no mundo. Você passa dois anos protegendo o pequeno e, de repente, larga ele como um passarinho. “Qualquer coisa, nós temos o seu telefone”, diz a professora, na chegada da escola, numa clara indireta para eu me mandar. Vou para o trabalho e nada de o celular tocar.

Um dia fui pego pelo braço pela minha mãe e parei ao lado de um grande mural. Havia vários desenhos rabiscados. Vi um dinossauro, um super-homem e a nave amarelada de Flash Gordon com riscos vermelhos ao fundo. Quando dei por mim, estava só ao lado da professora de óculos grandes e cabelos encaracolados. A mãe foi embora e pensei que fosse passar a semana inteira por lá. Só. Uma desolação tão grande que até perdi o interesse pela nave amarelada. De repente, estava sozinho num lugar estranho. Quanto tempo até voltar para casa?

Ainda acho que Lucas não sabia que estava indo para a escola. Conversamos brevemente no caminho. Eu tentando explicar o significado de ler, pintar, escrever. E ele: “Seu pai, você põe a música da cidade?” Falei que ele conheceria colegas, tias, letras, brinquedos. E ele olhando pela janela, as brumas subindo pelo lago. A música: “Deve ter alamedas verdes a cidade dos meus amores...”

Foi quando finalmente chegamos ao pequeno portão verde que abre para a casa transformada em escola. “Assim, eles não percebem tanto a diferença”, me explicou o professor Jason. Deve ser mesmo difícil sair de casa, onde tem rede e você pode dormir no chão, e ir para um lugar com salas de aula em seqüência. Sala de tarefas, sala de computador, sala de música, sala de livros.

Foi a professora Su, a dona da escola, que nos contou que, hoje, a maior preocupação dos pais é como proteger os pequenos deste mundo grande, complexo, perigoso e confuso. “No passado, a preocupação era como apresentá-lo à sociedade”, disse a Dona Su, com seus cabelos brancos e a expressão doce de uma vovó de cestas de pães-de-queijo. A minha preocupação é se ele irá aprender a diferença entre bemóis e sustenidos. Se ele entender o dilema das notas pretas do piano, o mundo ficará claro para ele e eu serei um pai satisfeito.

Subimos os degraus verdes e somos recebidos por um jacaré de areia na entrada. Lucas fica quieto por um momento e volta os olhos para os velocípedes coloridos no corredor. Pergunto se ele sabe onde está e nada de resposta. Talvez, saiba e não queira falar. Talvez, não faça a menor idéia e esteja apenas processando a mudança. Ponho o garoto no chão e todas as dúvidas se dissipam num único instante. Lucas corre para dentro da escola como se ela fosse feita de chocolate. Põe todas as forças na ponta dos pés. Passa pelos velocípedes e dobra à direita. Abre a pequena cancela e segue reto até a sala de brinquedos – chamada pomposamente de “Sala de Atividades”. Não hesitou em nenhum momento. Não olhou para trás. E eu, meio esbaforido, ainda fui tolo o bastante para me despedir – fato para o qual ele não deu a menor atenção (e nem deveria dar).

Um dia, a Dona Antônia perdeu a sua filha de dois anos dentro de casa. Procurou, procurou e nada. Então, vieram bater na porta dela para dizer que a pequena havia atravessado a rua sozinha. A menina foi até a frente da escola e disse que queria entrar. Hoje, é a mãe de Lucas.

O dia foi tranqüilo na escola, apesar da hesitação de alguns pais iniciantes como eu. Nada de telefonemas nas quatro horas até buscá-lo. Apenas uma reticente preocupação.

A manhã passou e, às 12h, volto a ver Lucas. Agora, ele está esparramado num mini-pufe verde assistindo ao dinossauro roxo que canta entre várias crianças. Calças sujas, bochechas manchadas. Barrigão para cima, como se tivesse dado pulos a manhã inteira. E, de fato, pulou.

Voltamos para a casa e eu pergunto como foi o dia na escola. Ele fala de carros, helicópteros e de uma menina chamada Valentina. “Muito linda”, arriscou o pequeno. Continuo com perguntas adultas e ele: “Seu pai, você põe a música do senhor?” Não faço a menor idéia do que ele está pedindo e deixo o CD rolar no caminho que, agora, ganha uma sensação de missão cumprida. “Senhor, senhora, senhorio...”

 



Escrito por Jubas às 20h39
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(Bolonistas, sou mais de prosa. Nunca fui muito de poesia - o que vocês poderão notar em alguns versos quebrados. Só que, ontem, recebi essa mensagem no celular: “Miguel chegou!” Simples assim. Mensagem do Amaral, que fez a cabeça entrar pela madrugada, pensando com muito carinho em Caubói e Stelinha e num beijo que eles deram lá em casa, na Vila Madalena, há uns bons tempos. Aí vai o resultado...)



Escrito por Jubas às 17h23
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Meu filho é boleiro

Meu filho finta

Empurra um carrinho

Entre pés adultos, brinca

Meu filho é Garrincha

 

Meu filho corre

Reto à cozinha

Ao pote de bolinhas crocantes, chocolate, café

Meu filho é Pelé

 

Meu filho ri

Pirueta, cabeça no sofá

Folha seca, soca o ar

Meu filho é Didi

 

Meu filho se esconde

Conta até três e, num lapso,

Surge atrás do armário

Meu filho é Romário

 

Meu filho é arteiro

Some, de repente, do nada

E volta, preciso, um gol certeiro

Meu filho é Mineiro

 

Meu filho chuta

Com a veia explosiva de um Adílio

Mais de cem mil em delírio

Meu filho é Basílio

 

Meu filho é malvado

Chora, simula birra

Espalha os dedos na comida

Meu filho é Rivaldo

 

Meu filho é sem medo

Coração de pai, mãe, pátria

Meu filho é Diego

 

Meu filho é um destino

Falta. Cobrança, passe, elástico

Um Rivelino

 

Meu filho brinca como um galinho

Tira a comida da boca e sorri, dentucinho

Um Ronaldinho

 

Meu filho resmunga

Joga a comida no chão, esperneia, ruge

Dunga

 

Meu filho acha um flanco

Cava a falta. Bate. Gol. No canto.

Branco

 

Meu filho é poeta

Declina versos, lançamentos, passes

Plurais, pontuações, exclamações, sintaxes

Cerezzo, Falcão, Zico e Socrates

 

Meu filho é serelepe

Drible da vaca, tabelinha, um verdadeiro moleque

Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe

 

Às vezes, meu filho é muito levadinho

Provoca, dá pulinhos e sai de fininho

Almir Pernambuquinho

 

Meu filho e eu desenhamos

Somos Monet e Modigliani, Picasso e Pollock

E se riscamos giz:

Washington e Assis

 

Meu filho e eu formamos uma dupla “levada da breca”

Bebeto e Romário, Ronaldo e Viola

Muller e Careca

 

Meu filho imita avião

Alcança a bola, estica a mão

Num vôo calmo e perene

Rogério Ceni

 

Meu filho é mordaz

Tem uma memória que nunca se desfaz

Arthur Friedenreich

 

Meu filho passeia no parquinho

Vai em todos os brinquedos:

Da gangorra ao pedalinho

Meu filho é Robinho

 

Meu filho nem precisa de babá

Traça a régua, é direto até chegar lá

Meu filho é kaká

 

Meu filho apareceu

Num lance improvável

Um chute curvado

De Tostão ou Dirceu

 

Meu filho:

Astronauta; Ator, Jornalista, Advogado e Escritor;

Dentista e Médico;

Arquiteto, Engenheiro, Piloto de Formula 1 e Canhoteiro.

Meu filho nasceu ontem, e já é um time inteiro.

 

 



Escrito por Jubas às 17h22
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A Suécia campeã

A estréia foi contra a Argentina. Não aquela que tomou de 6 a 1 da Tchecoslováquia em 58, mas contra a de 78 – a que ganhou a Copa na raça e nas armas. O meu time (aí vai a escalação, sem ajuda do google): 1-Svensson; 3-Bergmark e 4-Axbom; 2-Boergenson, 5-Gustavsson e 6-Parling; 7-Harim, 8-Grenn, 9-Simonson, 10-Liedholm e 11-Skoglund.

Era a Copa de Todos os Tempos, terceira edição. Eu joguei com o Brasil e a Suécia de 58 e a Tchecoslováquia de 62. O Chico ficou com a Argentina-78, a Itália-38 e a poderosa Holanda-74.

Na estréia, como eu estava dizendo, empate: Suécia 0x0 Argentina. Não me orgulho muito desse empate, pois, no último contra-ataque da Argentina, deixei o cronômetro correr e quando o Chico, quer dizer, o Kempes foi chutar, num lance com o gol aberto, disparei, como um Galvão Bueno: “Acabou. O tempo acabou.” O Chico ficou sem falar comigo o resto do dia. E com razão. Seria o gol da vitória da Argentina, mas não deixei ele nem tentar o chute. Até hoje ele me cobra por isso.

O Chico já merecia ter ganho o primeiro jogo. A sua Itália-38 marcou de pênalti o 1x0 faltando um minuto para acabar. Mas, na saída de bola, atrasei para Didi que lançou Mané que cruzou para Vavá na área: 1x1. Inapelável. E acabou assim.

A vingança do Chico veio no jogo seguinte, quando a sua Argentina meteu 4x3 na minha Tchecoslováquia. Chegou a ser 4x1, mas, em dois lances impossíveis na segunda metade do segundo tempo, fiz dois golaços, acho que com Scherer e Masopust. E o final do jogo ganhou um nervosismo terrível: as palhetas tremiam e não conseguíamos acertar um único passe. Chegamos até a rir desse nervosismo em pleno campo de madeira. Não controlávamos o tremor na ponta dos dedos e era apenas um jogo.

Nos outros jogos, os meus times de 58 ganharam os seus jogos. A Holanda decepcionou, talvez, pela proximidade de um jogo do técnico Cruyff com um certo time de Telê Santana. Como eu, o Chico é tricolor doente e meio que torceu contra o seu próprio Cruyff.

Até que, no jogo final, bastava uma vitória do Brasil contra a Argentina para levantar o caneco. Saí logo com 2x0: Pelé e Vavá. E fiquei cozinhando o jogo, bradando que seria  campeão. Esqueci duas coisas: 1-Era clássico – Brasil x Argentina; 2-Aquele time de 58 nunca parava de atacar, mesmo que estivesse com 2 gols à frente. O castigo veio com dois gols de Kempes e um de Bertoni. Foram três golaços, um atrás do outro, no segundo tempo. Ainda empatei com Didi – sempre ele nos momentos de crise. E, no último lance do jogo, a punição fatal. Errei um gol feito com Nilton Santos. O gol estava escancarado, mas o Nilton Santos nem chegou a encostar na bola. O 3x3 levou a Suécia, que havia batido os italianos por 1x0 e a laranja de Cruyff por 2x1 a levantar o caneco. O Chico, que hoje mora em Buenos Aires, ficou bastante satisfeito com a minha tristeza de não ter feito aquele Brasil campeão.

Leio hoje que Bergmark teve de trocar de posição com Parling para marcar Garrincha. E que, no meio do jogo, Parling acabou também sendo deslocado para marcá-lo. Saudades daqueles campeonatos.



Escrito por Jubas às 17h59
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Crônicas

DE COMO ACOSTA SALVOU A VIDA DE ARIANO SUASSUNA OU DE COMO O CORINTHIANS GANHARÁ SUA PRIMEIRA LIBERTADORES

 

 

Quarta-feira, 11/06. Estádio dos Aflitos. Sport x Corinthians. Quarenta e muitos minutos do segundo tempo. Acosta, dentro da área, recebe sozinho a bola. Naquele instante, ninguém, absolutamente ninguém, tem dúvida de que o gol do título corinthiano está feito. Feito. Não a fazer. É fato inquestionável. Inelutável. O Corinthians ganhou a Copa do Brasil de 2008 naquele preciso instante.

Porém, também naquele instante, Acosta lembra de Ariano Suassuna, enloquecido na arquibacada, e prestes a completar 81 anos. O gol do título seria fatal. Ariano não sobreviveria. Lembra de 2008, o ano dos times pequenos brilharem. Lembra do Centenário do Campeão dos Campeões. A primeira Libertadores tem de vir em 2010. E lembra da missão do Corinthians. Garantir a volta da Série A do Brasileirão para a primeira divisão.

Impávido ante a grandiosidade de seu destino, Acosta decide desfazer o gol feito. Uma encenação. Uma encenação cuja maestria jamais será esquecida. E jamais será igualada.

Acosta simula um lance ridículo, patético, imperdoável. Ele não chuta para o gol. Antes, finge tentar um drible em cima do goleiro. O arqueiro, sem perceber a generosidade do gesto de Acosta, faz o pênalti. Poria tudo a perder. Mas a determinação de Acosta não tem adversários à altura. Ágil, Acosta toca a mão na bola e garante ao juiz a marcação de uma falta inexistente. Brilhante. Faz a atuação de Marlon Brando nos quinze minutos finais de Apocalipse Now parecer uma peça de teatro de escola primária. Gênio. Gênio.



Escrito por Zecão às 18h26
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O novo time de botão...

Cada um com a sua peculiaridade idiota. A minha é buscar nações que podem se tornar times de botão no futuro. Funciona mais ou menos assim: Quando vejo que algum país declara a independência, umas das primeiras coisas que penso é como será o seu time de botão. Conseguirei comprá-lo em alguma loja? Chegará à semifinal de algum torneio botonístico importante? Virá com as cores e a bandeira do país, ou será meio falsificado?

Leio sobre a independência de Kosovo. Que há bombas, protestos, tiros, talvez, uma guerra. Que está morrendo gente lá e que a Sérvia e a Rússia não irão reconhecer. Mas, o que me chama a atenção é se terei a novata seleção na minha coleção de imaginárias pecinhas arredondadas. Penso até num jogo vermelho, sem bordas pretas, com aquela águia de duas cabeças no centro, a águia da bandeira da Albânia com a qual eles estão comemorando a independência. Águia ou seria um urubu? Se for águia será um jogo de botão meio nazistóide. Se for urubu será logo identificado com o Mengo. Poderá ser odiado ou adorado, dependendo do jogador-treinador que conduzir as peças.

Ou será um jogo azulado com as seis estrelas e o mapa kosovar em amarelo? Se for amarelo, iria “amarelar” literalmente. Se for azul, o que significam as seis estrelas? A superação das fronteiras da antiga Iugoslávia, hoje dividida em seis nações? Leio que Kosovo seria a sétima nação da ex-Iugoslávia. Iugoslávia, que já foi vice-campeão mundial de Botão. Perdeu para os tchecos na final, e sem a presença da Eslováquia. Eliminou o Brasil de Zagallo na semifinal. Perdia por 3 a 1, até que acertei um chute improvável da lateral do meio campo. Bola por cima do goleiro. Depois, Savicevic, o 10, fez outro golaço. 3 a 3. Os pênaltis e a obrigação de não favorecer o Brasil puseram tudo a perder. Brasil eliminado. Carnaval na Iugoslávia.

Estranho como começo a imaginar o futuro que teria a seleção de Kosovo nos campos de madeira. Clássicos com a seleção da Eslovênia, um dos jogos mais bonitos que adquiri: verde, preto e cinza, com desenhos indecifráveis e as letras NZL. Quando vi pela primeira vez, achei que era a Nova Zelândia. Afinal, NZL. É a seleção de mais difícil identificação. Mas, a beleza do uniforme faz milagres e a Eslovênia bateu Portugal de Felipão na última Eurocopa de Botão. 6 a 4, um jogo histórico. Tirou Portugal do próximo Mundial botonista, do qual a esquadra é a atual vice-campeã. E tiraria a Inglaterra. Estava 1 a 0 para os eslovenos até o começo do segundo tempo, quando Beckham acertou três cruzamentos e virou para 3 a 1. Kosovo versus Croácia seria outro grande jogo. A quadriculada Croácia eliminou as tradicionais Suécia e Hungria na última Eurocopa de Botão. E, para completar, Kosovo versus Sérvia, jogo para duas expulsões de cada lado. Seria como quando Líbano e Israel se enfrentaram pela primeira vez. O capitão libanês Hizbollah, camisa 10, foi expulso no primeiro minuto, o que não impediu sua equipe de marcar 4 a 0. Líbano foi à semifinal da Copa Afro-Asiática de Botão e acho que só perdeu por estar diante de outra equipe árabe, os Emirados.

Outro dia, fiz história. Comprei a seleção da Sérvia e Montenegro. Essa é única. Formada para apenas uma Copa, a da Alemanha. Não fossem os Fifa Soccers da vida, acredito que poderia vendê-la por uma baba num leilão futuro. Seria a raridade das raridades entre botonistas. Agora, vivo uma dúvida cruel. Devo usar o manto da Sérvia e Montenegro para abrigar apenas Montenegro? Afinal, uso o manto que era da Iugoslávia para abrigar a Sérvia. Os distintivos são parecidos – da Sérvia, da Iugoslávia e de Montenegro. Montenegro, onde nasceu Savicevic, o antigo 10 da Iugoslávia. Ocupava o lugar de Kaká no Milan. E a seleção de Montenegro jogaria com o artilheiro da Roma, o Vucinic. Kosovo versus Montenegro. Sérvios na torcida. Bombas em campo. Jogão!

E por que não Kosovo versus Brasil?! Seria uma barbada. Jogo para 8 a 1. Não fossem as zebras, como um Brasil e Líbano há uns dez anos. Ronaldo abriu o placar. Mas, Hizbollah estava demais. Líbano virou para 4 a 1. Suei frio. Mas, aconteceram uns pênaltis improváveis e o Brasil empatou. O resultado mínimo que precisava para avançar à próxima fase. Aí, tivemos Brasil versus Iugoslávia. Savicevic bem que tentou. Mas, Ronaldo, Rivaldo e Romário estavam naquele time. 3 a 1, fora o chocolate. Na final: Brasil e Bulgária. Stoichkov fez um. Ronado, dois. Final: 4 a 2. Cafu também fez gol e ainda levantou a taça.

Xô, Iugoslávia! Que venha o Kosovo!

 



Escrito por Jubas às 19h13
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Momentos bolônicos

Três bolonistas, três fãs e um primo. Um sábado, um tempo meio nublado, uma piscina e um jogo. Master. Lá pras tantas, um bolonista, antropólogo, escritor, DJ e produtor, o único nascido em Brasília, e há várias rodadas parado em "artes", se vê diante da singela pergunta: "Qual o primeiro nome do arquiteto Niemeyer que fez o projeto de Brasília?". Fácil, elementar. Mas não para o nosso glorioso bolonista. A indignação dos demais jogadores foi tamanha, que, excepcionalmente, foram concedidos 10 minutos para ser dada a resposta. Em vão. O bolonista ainda ensaiou um "João", mas desistiu. Vale o registro.



Escrito por Zecão às 16h39
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Genialidade

"O sujeito que não acredita em milagre é capaz de tudo. Basta ver-lhe a face espessa , o riso encharcado de saliva, o ríctus alvar e, em suma, toda uma inestancável estupidez a escorrer-lhe da figura abominável. É susceptível dos piores sentimentos. E conheci um que não respeitava nem as cunhadas! Quanto a mim, com satisfação o confesso: - acredito piamente em milagre. Ou por outra: - só acredito em milagre. A meu ver o fato normal, o fato lógico, o fato indiscutível merece apenas a nossa repulsa e o nosso descrédito. É preciso captar ou, melhor, extrair de cada acontecimento o que há, nele, de maravilhoso, de inverossímil e, numa palavra, de milagre. E não vejo como se possa viver e sobreviver sem milagre." (Nelson Rodrigues, Manchete Esportiva, 3/3/1956).
 



Escrito por Zecão às 17h09
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João.

João José Ferreira, o Joãozinho.

Já falei de sua imensa figura por aqui.

Falei da surpresa e do encantamento quando o ouvi, numa noite de Natal, entoar o hino da torcida brasileira na Copa de 38.

Falei de seu amor pelo mar. Ou mais: de seu compadrio com o mar. Falei que sua generosidade se espalha aos vagalhões.

Falei de sua torcida pelo Minas Gerais Futebol Clube. Sua formidável alegria quando Cruzeiro ou Galo venciam.

Pois bem, ainda há muito do que falar. Muito mesmo. Pedaços e mais pedaços de minha memória estão ligados aos seus abraços apertados.

E prometo fazê-lo. Prometo. Mas não hoje.

Hoje eu só quero que ele dê um abraço no Telê por mim. Bem apertado.

Vai em paz, vovô. Em paz.



Escrito por Demas às 13h59
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