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Cacos de Existência
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A estréia
Disseram que seria muito cedo para ele. Que seria como tirá-lo de casa. Que ele ainda não tem condições de cumprir horários, regras, lições. Mas, a intuição me levou a colocá-lo no carro, mesmo com todas as dúvidas do mundo dançando pela minha cabeça, e levá-lo diretamente para a escola.
Ele ainda não vai ao banheiro e já vai estudar? Ele ainda usa mamadeira e vai comer no refeitório? Ele chama os iogurtes de “surpresas”, as letras e números de “esquadros”. Fala na terceira pessoa, que nem o Pelé: “Ele quer esse brinquedo.” “Ele quer mamar.” E, às vezes, me chama de “Seu pai”.
“Seu pai, você põe a música do arco-íris?”, pede o pequeno, ao entrar no carro. E continuamos os dois cheios de coisas não sabidas. Ele mal sabe que vai para a escola. E eu não faço idéia do que seja a música do arco-íris. Ligo o som e penso alto na lição de uma psicóloga que me contou que, entre os dois e os três anos, os pequenos estão numa fase em que não conseguem fazer descrições próprias dos acontecimentos. Essa fase se chama “especulare”. É mais ou menos como a grande imprensa brasileira: apenas repete o que os outros falam. Especulam. Daí, o uso da terceira pessoa pelos pequenos. Esse pensamento me leva à grave constatação de que o pequeno Lucas, uma vez na escola, não conseguirá contar o que aconteceu, a não ser pela versão da professora (e de outros colegas de dois e três anos). Fico nervoso por um breve instante, quando o som do carro, num lapso, me revela ao menos o que é a música do arco-íris: “Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel...”
Lucas ri irresponsavelmente da música, enquanto meus ombros pesam cada vez mais. Deixar um filho na escola é como soltá-lo no mundo. Você passa dois anos protegendo o pequeno e, de repente, larga ele como um passarinho. “Qualquer coisa, nós temos o seu telefone”, diz a professora, na chegada da escola, numa clara indireta para eu me mandar. Vou para o trabalho e nada de o celular tocar.
Um dia fui pego pelo braço pela minha mãe e parei ao lado de um grande mural. Havia vários desenhos rabiscados. Vi um dinossauro, um super-homem e a nave amarelada de Flash Gordon com riscos vermelhos ao fundo. Quando dei por mim, estava só ao lado da professora de óculos grandes e cabelos encaracolados. A mãe foi embora e pensei que fosse passar a semana inteira por lá. Só. Uma desolação tão grande que até perdi o interesse pela nave amarelada. De repente, estava sozinho num lugar estranho. Quanto tempo até voltar para casa?
Ainda acho que Lucas não sabia que estava indo para a escola. Conversamos brevemente no caminho. Eu tentando explicar o significado de ler, pintar, escrever. E ele: “Seu pai, você põe a música da cidade?” Falei que ele conheceria colegas, tias, letras, brinquedos. E ele olhando pela janela, as brumas subindo pelo lago. A música: “Deve ter alamedas verdes a cidade dos meus amores...”
Foi quando finalmente chegamos ao pequeno portão verde que abre para a casa transformada em escola. “Assim, eles não percebem tanto a diferença”, me explicou o professor Jason. Deve ser mesmo difícil sair de casa, onde tem rede e você pode dormir no chão, e ir para um lugar com salas de aula em seqüência. Sala de tarefas, sala de computador, sala de música, sala de livros.
Foi a professora Su, a dona da escola, que nos contou que, hoje, a maior preocupação dos pais é como proteger os pequenos deste mundo grande, complexo, perigoso e confuso. “No passado, a preocupação era como apresentá-lo à sociedade”, disse a Dona Su, com seus cabelos brancos e a expressão doce de uma vovó de cestas de pães-de-queijo. A minha preocupação é se ele irá aprender a diferença entre bemóis e sustenidos. Se ele entender o dilema das notas pretas do piano, o mundo ficará claro para ele e eu serei um pai satisfeito.
Subimos os degraus verdes e somos recebidos por um jacaré de areia na entrada. Lucas fica quieto por um momento e volta os olhos para os velocípedes coloridos no corredor. Pergunto se ele sabe onde está e nada de resposta. Talvez, saiba e não queira falar. Talvez, não faça a menor idéia e esteja apenas processando a mudança. Ponho o garoto no chão e todas as dúvidas se dissipam num único instante. Lucas corre para dentro da escola como se ela fosse feita de chocolate. Põe todas as forças na ponta dos pés. Passa pelos velocípedes e dobra à direita. Abre a pequena cancela e segue reto até a sala de brinquedos – chamada pomposamente de “Sala de Atividades”. Não hesitou em nenhum momento. Não olhou para trás. E eu, meio esbaforido, ainda fui tolo o bastante para me despedir – fato para o qual ele não deu a menor atenção (e nem deveria dar).
Um dia, a Dona Antônia perdeu a sua filha de dois anos dentro de casa. Procurou, procurou e nada. Então, vieram bater na porta dela para dizer que a pequena havia atravessado a rua sozinha. A menina foi até a frente da escola e disse que queria entrar. Hoje, é a mãe de Lucas.
O dia foi tranqüilo na escola, apesar da hesitação de alguns pais iniciantes como eu. Nada de telefonemas nas quatro horas até buscá-lo. Apenas uma reticente preocupação.
A manhã passou e, às 12h, volto a ver Lucas. Agora, ele está esparramado num mini-pufe verde assistindo ao dinossauro roxo que canta entre várias crianças. Calças sujas, bochechas manchadas. Barrigão para cima, como se tivesse dado pulos a manhã inteira. E, de fato, pulou.
Voltamos para a casa e eu pergunto como foi o dia na escola. Ele fala de carros, helicópteros e de uma menina chamada Valentina. “Muito linda”, arriscou o pequeno. Continuo com perguntas adultas e ele: “Seu pai, você põe a música do senhor?” Não faço a menor idéia do que ele está pedindo e deixo o CD rolar no caminho que, agora, ganha uma sensação de missão cumprida. “Senhor, senhora, senhorio...”
Escrito por Jubas às 20h39
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(Bolonistas, sou mais de prosa. Nunca fui muito de poesia - o que vocês poderão notar em alguns versos quebrados. Só que, ontem, recebi essa mensagem no celular: “Miguel chegou!” Simples assim. Mensagem do Amaral, que fez a cabeça entrar pela madrugada, pensando com muito carinho em Caubói e Stelinha e num beijo que eles deram lá em casa, na Vila Madalena, há uns bons tempos. Aí vai o resultado...)
Escrito por Jubas às 17h23
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Meu filho é boleiro
Meu filho finta
Empurra um carrinho
Entre pés adultos, brinca
Meu filho é Garrincha
Meu filho corre
Reto à cozinha
Ao pote de bolinhas crocantes, chocolate, café
Meu filho é Pelé
Meu filho ri
Pirueta, cabeça no sofá
Folha seca, soca o ar
Meu filho é Didi
Meu filho se esconde
Conta até três e, num lapso,
Surge atrás do armário
Meu filho é Romário
Meu filho é arteiro
Some, de repente, do nada
E volta, preciso, um gol certeiro
Meu filho é Mineiro
Meu filho chuta
Com a veia explosiva de um Adílio
Mais de cem mil em delírio
Meu filho é Basílio
Meu filho é malvado
Chora, simula birra
Espalha os dedos na comida
Meu filho é Rivaldo
Meu filho é sem medo
Coração de pai, mãe, pátria
Meu filho é Diego
Meu filho é um destino
Falta. Cobrança, passe, elástico
Um Rivelino
Meu filho brinca como um galinho
Tira a comida da boca e sorri, dentucinho
Um Ronaldinho
Meu filho resmunga
Joga a comida no chão, esperneia, ruge
Dunga
Meu filho acha um flanco
Cava a falta. Bate. Gol. No canto.
Branco
Meu filho é poeta
Declina versos, lançamentos, passes
Plurais, pontuações, exclamações, sintaxes
Cerezzo, Falcão, Zico e Socrates
Meu filho é serelepe
Drible da vaca, tabelinha, um verdadeiro moleque
Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe
Às vezes, meu filho é muito levadinho
Provoca, dá pulinhos e sai de fininho
Almir Pernambuquinho
Meu filho e eu desenhamos
Somos Monet e Modigliani, Picasso e Pollock
E se riscamos giz:
Washington e Assis
Meu filho e eu formamos uma dupla “levada da breca”
Bebeto e Romário, Ronaldo e Viola
Muller e Careca
Meu filho imita avião
Alcança a bola, estica a mão
Num vôo calmo e perene
Rogério Ceni
Meu filho é mordaz
Tem uma memória que nunca se desfaz
Arthur Friedenreich
Meu filho passeia no parquinho
Vai em todos os brinquedos:
Da gangorra ao pedalinho
Meu filho é Robinho
Meu filho nem precisa de babá
Traça a régua, é direto até chegar lá
Meu filho é kaká
Meu filho apareceu
Num lance improvável
Um chute curvado
De Tostão ou Dirceu
Meu filho:
Astronauta; Ator, Jornalista, Advogado e Escritor;
Dentista e Médico;
Arquiteto, Engenheiro, Piloto de Formula 1 e Canhoteiro.
Meu filho nasceu ontem, e já é um time inteiro.
Escrito por Jubas às 17h22
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A Suécia campeã
A estréia foi contra a Argentina. Não aquela que tomou de 6 a 1 da Tchecoslováquia em 58, mas contra a de 78 – a que ganhou a Copa na raça e nas armas. O meu time (aí vai a escalação, sem ajuda do google): 1-Svensson; 3-Bergmark e 4-Axbom; 2-Boergenson, 5-Gustavsson e 6-Parling; 7-Harim, 8-Grenn, 9-Simonson, 10-Liedholm e 11-Skoglund.
Era a Copa de Todos os Tempos, terceira edição. Eu joguei com o Brasil e a Suécia de 58 e a Tchecoslováquia de 62. O Chico ficou com a Argentina-78, a Itália-38 e a poderosa Holanda-74.
Na estréia, como eu estava dizendo, empate: Suécia 0x0 Argentina. Não me orgulho muito desse empate, pois, no último contra-ataque da Argentina, deixei o cronômetro correr e quando o Chico, quer dizer, o Kempes foi chutar, num lance com o gol aberto, disparei, como um Galvão Bueno: “Acabou. O tempo acabou.” O Chico ficou sem falar comigo o resto do dia. E com razão. Seria o gol da vitória da Argentina, mas não deixei ele nem tentar o chute. Até hoje ele me cobra por isso.
O Chico já merecia ter ganho o primeiro jogo. A sua Itália-38 marcou de pênalti o 1x0 faltando um minuto para acabar. Mas, na saída de bola, atrasei para Didi que lançou Mané que cruzou para Vavá na área: 1x1. Inapelável. E acabou assim.
A vingança do Chico veio no jogo seguinte, quando a sua Argentina meteu 4x3 na minha Tchecoslováquia. Chegou a ser 4x1, mas, em dois lances impossíveis na segunda metade do segundo tempo, fiz dois golaços, acho que com Scherer e Masopust. E o final do jogo ganhou um nervosismo terrível: as palhetas tremiam e não conseguíamos acertar um único passe. Chegamos até a rir desse nervosismo em pleno campo de madeira. Não controlávamos o tremor na ponta dos dedos e era apenas um jogo.
Nos outros jogos, os meus times de 58 ganharam os seus jogos. A Holanda decepcionou, talvez, pela proximidade de um jogo do técnico Cruyff com um certo time de Telê Santana. Como eu, o Chico é tricolor doente e meio que torceu contra o seu próprio Cruyff.
Até que, no jogo final, bastava uma vitória do Brasil contra a Argentina para levantar o caneco. Saí logo com 2x0: Pelé e Vavá. E fiquei cozinhando o jogo, bradando que seria campeão. Esqueci duas coisas: 1-Era clássico – Brasil x Argentina; 2-Aquele time de 58 nunca parava de atacar, mesmo que estivesse com 2 gols à frente. O castigo veio com dois gols de Kempes e um de Bertoni. Foram três golaços, um atrás do outro, no segundo tempo. Ainda empatei com Didi – sempre ele nos momentos de crise. E, no último lance do jogo, a punição fatal. Errei um gol feito com Nilton Santos. O gol estava escancarado, mas o Nilton Santos nem chegou a encostar na bola. O 3x3 levou a Suécia, que havia batido os italianos por 1x0 e a laranja de Cruyff por 2x1 a levantar o caneco. O Chico, que hoje mora em Buenos Aires, ficou bastante satisfeito com a minha tristeza de não ter feito aquele Brasil campeão.
Leio hoje que Bergmark teve de trocar de posição com Parling para marcar Garrincha. E que, no meio do jogo, Parling acabou também sendo deslocado para marcá-lo. Saudades daqueles campeonatos.
Escrito por Jubas às 17h59
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Crônicas
DE COMO ACOSTA SALVOU A VIDA DE ARIANO SUASSUNA OU DE COMO O CORINTHIANS GANHARÁ SUA PRIMEIRA LIBERTADORES
Quarta-feira, 11/06. Estádio dos Aflitos. Sport x Corinthians. Quarenta e muitos minutos do segundo tempo. Acosta, dentro da área, recebe sozinho a bola. Naquele instante, ninguém, absolutamente ninguém, tem dúvida de que o gol do título corinthiano está feito. Feito. Não a fazer. É fato inquestionável. Inelutável. O Corinthians ganhou a Copa do Brasil de 2008 naquele preciso instante.
Porém, também naquele instante, Acosta lembra de Ariano Suassuna, enloquecido na arquibacada, e prestes a completar 81 anos. O gol do título seria fatal. Ariano não sobreviveria. Lembra de 2008, o ano dos times pequenos brilharem. Lembra do Centenário do Campeão dos Campeões. A primeira Libertadores tem de vir em 2010. E lembra da missão do Corinthians. Garantir a volta da Série A do Brasileirão para a primeira divisão.
Impávido ante a grandiosidade de seu destino, Acosta decide desfazer o gol feito. Uma encenação. Uma encenação cuja maestria jamais será esquecida. E jamais será igualada.
Acosta simula um lance ridículo, patético, imperdoável. Ele não chuta para o gol. Antes, finge tentar um drible em cima do goleiro. O arqueiro, sem perceber a generosidade do gesto de Acosta, faz o pênalti. Poria tudo a perder. Mas a determinação de Acosta não tem adversários à altura. Ágil, Acosta toca a mão na bola e garante ao juiz a marcação de uma falta inexistente. Brilhante. Faz a atuação de Marlon Brando nos quinze minutos finais de Apocalipse Now parecer uma peça de teatro de escola primária. Gênio. Gênio.
Escrito por Zecão às 18h26
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O novo time de botão...
Cada um com a sua peculiaridade idiota. A minha é buscar nações que podem se tornar times de botão no futuro. Funciona mais ou menos assim: Quando vejo que algum país declara a independência, umas das primeiras coisas que penso é como será o seu time de botão. Conseguirei comprá-lo em alguma loja? Chegará à semifinal de algum torneio botonístico importante? Virá com as cores e a bandeira do país, ou será meio falsificado?
Leio sobre a independência de Kosovo. Que há bombas, protestos, tiros, talvez, uma guerra. Que está morrendo gente lá e que a Sérvia e a Rússia não irão reconhecer. Mas, o que me chama a atenção é se terei a novata seleção na minha coleção de imaginárias pecinhas arredondadas. Penso até num jogo vermelho, sem bordas pretas, com aquela águia de duas cabeças no centro, a águia da bandeira da Albânia com a qual eles estão comemorando a independência. Águia ou seria um urubu? Se for águia será um jogo de botão meio nazistóide. Se for urubu será logo identificado com o Mengo. Poderá ser odiado ou adorado, dependendo do jogador-treinador que conduzir as peças.
Ou será um jogo azulado com as seis estrelas e o mapa kosovar em amarelo? Se for amarelo, iria “amarelar” literalmente. Se for azul, o que significam as seis estrelas? A superação das fronteiras da antiga Iugoslávia, hoje dividida em seis nações? Leio que Kosovo seria a sétima nação da ex-Iugoslávia. Iugoslávia, que já foi vice-campeão mundial de Botão. Perdeu para os tchecos na final, e sem a presença da Eslováquia. Eliminou o Brasil de Zagallo na semifinal. Perdia por 3 a 1, até que acertei um chute improvável da lateral do meio campo. Bola por cima do goleiro. Depois, Savicevic, o 10, fez outro golaço. 3 a 3. Os pênaltis e a obrigação de não favorecer o Brasil puseram tudo a perder. Brasil eliminado. Carnaval na Iugoslávia.
Estranho como começo a imaginar o futuro que teria a seleção de Kosovo nos campos de madeira. Clássicos com a seleção da Eslovênia, um dos jogos mais bonitos que adquiri: verde, preto e cinza, com desenhos indecifráveis e as letras NZL. Quando vi pela primeira vez, achei que era a Nova Zelândia. Afinal, NZL. É a seleção de mais difícil identificação. Mas, a beleza do uniforme faz milagres e a Eslovênia bateu Portugal de Felipão na última Eurocopa de Botão. 6 a 4, um jogo histórico. Tirou Portugal do próximo Mundial botonista, do qual a esquadra é a atual vice-campeã. E tiraria a Inglaterra. Estava 1 a 0 para os eslovenos até o começo do segundo tempo, quando Beckham acertou três cruzamentos e virou para 3 a 1. Kosovo versus Croácia seria outro grande jogo. A quadriculada Croácia eliminou as tradicionais Suécia e Hungria na última Eurocopa de Botão. E, para completar, Kosovo versus Sérvia, jogo para duas expulsões de cada lado. Seria como quando Líbano e Israel se enfrentaram pela primeira vez. O capitão libanês Hizbollah, camisa 10, foi expulso no primeiro minuto, o que não impediu sua equipe de marcar 4 a 0. Líbano foi à semifinal da Copa Afro-Asiática de Botão e acho que só perdeu por estar diante de outra equipe árabe, os Emirados.
Outro dia, fiz história. Comprei a seleção da Sérvia e Montenegro. Essa é única. Formada para apenas uma Copa, a da Alemanha. Não fossem os Fifa Soccers da vida, acredito que poderia vendê-la por uma baba num leilão futuro. Seria a raridade das raridades entre botonistas. Agora, vivo uma dúvida cruel. Devo usar o manto da Sérvia e Montenegro para abrigar apenas Montenegro? Afinal, uso o manto que era da Iugoslávia para abrigar a Sérvia. Os distintivos são parecidos – da Sérvia, da Iugoslávia e de Montenegro. Montenegro, onde nasceu Savicevic, o antigo 10 da Iugoslávia. Ocupava o lugar de Kaká no Milan. E a seleção de Montenegro jogaria com o artilheiro da Roma, o Vucinic. Kosovo versus Montenegro. Sérvios na torcida. Bombas em campo. Jogão!
E por que não Kosovo versus Brasil?! Seria uma barbada. Jogo para 8 a 1. Não fossem as zebras, como um Brasil e Líbano há uns dez anos. Ronaldo abriu o placar. Mas, Hizbollah estava demais. Líbano virou para 4 a 1. Suei frio. Mas, aconteceram uns pênaltis improváveis e o Brasil empatou. O resultado mínimo que precisava para avançar à próxima fase. Aí, tivemos Brasil versus Iugoslávia. Savicevic bem que tentou. Mas, Ronaldo, Rivaldo e Romário estavam naquele time. 3 a 1, fora o chocolate. Na final: Brasil e Bulgária. Stoichkov fez um. Ronado, dois. Final: 4 a 2. Cafu também fez gol e ainda levantou a taça.
Xô, Iugoslávia! Que venha o Kosovo!
Escrito por Jubas às 19h13
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Momentos bolônicos
Três bolonistas, três fãs e um primo. Um sábado, um tempo meio nublado, uma piscina e um jogo. Master. Lá pras tantas, um bolonista, antropólogo, escritor, DJ e produtor, o único nascido em Brasília, e há várias rodadas parado em "artes", se vê diante da singela pergunta: "Qual o primeiro nome do arquiteto Niemeyer que fez o projeto de Brasília?". Fácil, elementar. Mas não para o nosso glorioso bolonista. A indignação dos demais jogadores foi tamanha, que, excepcionalmente, foram concedidos 10 minutos para ser dada a resposta. Em vão. O bolonista ainda ensaiou um "João", mas desistiu. Vale o registro.
Escrito por Zecão às 16h39
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Genialidade
"O sujeito que não acredita em milagre é capaz de tudo. Basta ver-lhe a face espessa , o riso encharcado de saliva, o ríctus alvar e, em suma, toda uma inestancável estupidez a escorrer-lhe da figura abominável. É susceptível dos piores sentimentos. E conheci um que não respeitava nem as cunhadas! Quanto a mim, com satisfação o confesso: - acredito piamente em milagre. Ou por outra: - só acredito em milagre. A meu ver o fato normal, o fato lógico, o fato indiscutível merece apenas a nossa repulsa e o nosso descrédito. É preciso captar ou, melhor, extrair de cada acontecimento o que há, nele, de maravilhoso, de inverossímil e, numa palavra, de milagre. E não vejo como se possa viver e sobreviver sem milagre." (Nelson Rodrigues, Manchete Esportiva, 3/3/1956).
Escrito por Zecão às 17h09
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João.
João José Ferreira, o Joãozinho.
Já falei de sua imensa figura por aqui.
Falei da surpresa e do encantamento quando o ouvi, numa noite de Natal, entoar o hino da torcida brasileira na Copa de 38.
Falei de seu amor pelo mar. Ou mais: de seu compadrio com o mar. Falei que sua generosidade se espalha aos vagalhões.
Falei de sua torcida pelo Minas Gerais Futebol Clube. Sua formidável alegria quando Cruzeiro ou Galo venciam.
Pois bem, ainda há muito do que falar. Muito mesmo. Pedaços e mais pedaços de minha memória estão ligados aos seus abraços apertados.
E prometo fazê-lo. Prometo. Mas não hoje.
Hoje eu só quero que ele dê um abraço no Telê por mim. Bem apertado.
Vai em paz, vovô. Em paz.
Escrito por Demas às 13h59
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Manual de Sobrevivência I
Mulheres, desisti de entendê-las lá pelos 15, 16 anos. Ok, sou lento; os mais espertos nunca nem tentaram. Mas, como a vida não faz nenhum sentido sem elas, ao longo do tempo fui coletado algumas dicas para tentar não fazer muita besteira. A primeira que me vem à cabeça é fruto do meu primeiro namoro. Se uma mulher pergunta: “você não notou nada de diferente em mim”; não se deve hesitar: “claro, o cabelo”. As chances de acerto são de 95%. O problema é se a constatação deve ou não ser seguida de um elogio. Aí é mais complicado e as chances de acerto se reduzem drasticamente. Se ela gostou do novo corte, tudo bem, um elogio, ainda que tardio, passa. Mas se ela não gostou, bom, um elogio pode lhe colocar em apuros. Mas pelo menos você notou que ela mudou o cabelo, embora, na verdade, você não tenha notado diferença alguma.
Há situações mais complicadas, que envolvem inclusive risco de vida (sim, eu sou do tempo em que se dizia ‘risco de vida’ e não ‘risco de morte’). Você está dirigindo o carro em um lugar que você não conhece bem. Ela, “é na próxima à direita”. Você passa reto por alguns bons motivos. Primeiro, você é homem, é você quem tem noção de direção, e não ela. Segundo, você é homem, você é estúpido, você não quer que ninguém te diga qual o caminho correto. Você sabe qual é o caminho. Ou acha que sabe, porque você é homem; logo, estúpido. Mas o verdadeiro motivo é que você é homem, você não consegue prestar atenção direito no que ela está falando simplesmente porque você não consegue fazer duas coisas diferentes ao mesmo tempo: ou você escuta o que ela está dizendo e bate o carro, ou você finge que escutou e continua, sem bater o carro. É, mulheres são mais evoluídas, elas conseguem pensar e fazer várias coisas ao mesmo tempo, e bem; nós não. Ponto.
Mas, enfim, você seguiu reto, errou, obviamente, o caminho, e está perdido. Ela estoura: “você nunca me escuta, você nunca liga pro que eu falo, nem pro que eu estou sentindo; você não me ama.” É mais fácil comprovar a existência de Deus do que entender como o fato de você não ter entrado na porra da direita a alguns quilômetros atrás pode levá-la à conclusão de que você não a ama. Mas é assim mesmo. Evoluir é não fazer sentido.
Bom, é nesse momento, solitário leitor, que você jamais, repito: jamais, deve perguntar: “você está de TPM?”. Dificilmente, numa situação dessa, um homem consegue fazer a pergunta e sobreviver para contar aos outros. Os poucos que conseguem contam estórias aterradoras (sim, no meu tempo se diferenciava ‘história’ de ‘estória’).
O melhor a se fazer é respirar fundo, contar até dez, voltar calado pelo mesmo caminho que você fez, e entrar na estrada que ela indicou. Há quase 100% de chance de ela também estar errada. Assim, provavelmente vocês vão entrar numa rua sem saída que acaba num morro, quando na verdade a intenção original era ir para a praia. Não ouse comentar nada do tipo: “e aí, entrei no caminho que você indicou; agora a gente faz o quê?, alpinismo?”. Volte, pergunte para alguém onde fica a praia, chegue lá, relaxe. E reze para a TPM ser rápida. E, da próxima vez, entre à direita. Ou à esquerda.
Fê Amaral, feliz aniversário!
Beijo,
Daniel Zecão, ébrio.
Escrito por Zecão às 16h32
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“Água!”
Meu filho olha para o meu pai e finge que tosse. Meu pai olha de volta e, na tentativa de lhe dizer alguma coisa, dispara um assovio. O filho explode num grito-gargalhada e o pai sorri com os olhos. E eu fico ali no meio, entre duas gerações tão diferentes, mas com tanta coisa em comum. Uma geração ainda iletrada e outra que já leu sei lá eu quantas bibliotecas. Uma geração que não teve telefone em casa até os 15 anos de idade e a outra que brinca com um celular de plástico. Uma geração antiga que absorveu o moderno com seus palm-tops, lap-tops e websites e a outra geração moderna que absorveu o antigo com seus mordedores, mamadeiras e fraldas (ainda que, agora, descartáveis). Estou no meio do caminho dessas duas pontas da vida, algo como a síntese das Copas de 1954 e 2006. Entre Puskas e Cannavaro. Sou 1982 e compreendo ambos: o futebol-arte e o futebol-força. Sou a síntese num único lance: Zico tendo a camisa rasgada por Gentile. Nada gentil. Grosso. Sem trocadilhos. Peço ao pequeno Lucas e seus poucos mais de 400 dias neste mundo confuso e exagerado que coma a maldita papinha de frango com legumes. Ele se nega, fechando os lábios com toda a sua pequena força. Mas, os mais velhos vêm lhe fazer testes. E Lucas come baba de moça, iogurte Activia (aquele do teste garantido), pizza, carne de churrasco e até espuma de chopp. E depois ainda lhe perguntam por que ele não consegue fazer coco. “Por que será?”, respondo eu, com meu amigável cinismo. Até bolinhas de champanhe já foram parar na boca dele. É curioso como tudo fica mais divertido na boca de Lucas, com suas caretas de resposta e sua fala sempre precisa: “Água!” Sim, ele fala “água” desde o início da época da seca. Foi a sua primeira palavra, mas não sei se compreende a dimensão da sentença, pois diz “água” para o fogão, a parede, o piano, os livros. Tudo é água como se tudo pudesse ser consumido em sua sede de conhecer o mundo. O mundo que claramente não cabe no seu mundo. Imagino quantas Copas Lucas verá. O Mundial de 2082, quem sabe novamente na Espanha. E quem sabe sem um Paolo Rossi. Se bem que sem Rossi não teríamos aprendido a dor da derrota. Não teríamos chorado nem chutado bolas de raiva na parede da garagem para ver se desatava o nó na garganta. Rossi foi a primeira bomba na escola, o primeiro fora da namorada, a primeira derrota real e surpreendentemente impensável. E das derrotas é que nos armamos para os títulos. As Copas. O Mundo. Tão grande que mal cabe naqueles olhinhos curiosos, o dedo apontado para cima e voz espertíssima: “Água!”
Escrito por Jubas às 14h39
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A final do campeonato carioca
Nos nossos encontros, nunca me lembrava que ela era Botafogo. Era algo totalmente sem importância, mesmo com aquela polêmica semifinal entre os nossos times: o 2 a 0 Botafogo que virou 3 a 2 para o São Paulo e até hoje guarda suspeitas e mágoas alvinegras no Morumbi. Ela poderia ter dito que era Vasco, Flu, ou mesmo Bonsucesso. Se bem que me recordo até hoje que ela era Botafogo.
O importante é que ela era carioca. Tinha aquele sotaque charmosamente desleixado das praias de águas geladas e mascava chiclete mexendo a boca espertamente.
Eu subia a Praça do Pôr-do-Sol direto para o seu apartamento. Sabia que era errado matar aulas de inglês para passar as tardes no apartamento da Carioca. Mas, naquela altura dos fatos, sabia também que era o certo a fazer. Afinal, a Carioca me recebia com “roupas pornôs” – mini-saias roxas ou verde-limão que eram a moda na época. E trocávamos balas Soft.
Naquela época, havia duas formas de assistir Sessão da Tarde: 1- Sozinho, em casa, comendo bolachas recheadas (Você separa as extremidades da bolacha e, primeiro, come o recheio); 2- Trocando balas Soft com a namorada. Evoluir da primeira para a segunda era o grande barato, por mais que as bolachas fossem uma delícia (principalmente, o sabor coco). E tínhamos que ser muito espertos com a história das balas porque sempre havia uma mãe ou tia para pedir à gente para deixar a porta aberta. Vimos assim a Semana Jerry Lewis: um olho na porta, outro nas balas, e o filme dane-se! Era um mero pretexto.
Quando o filme acabava, ouvíamos o disco “ao vivo” com a caveira na capa. Gostávamos da faixa que dizia: “I´m wandering round and round/Nowhere to go...” Não entendia toda a letra porque cabulava as aulas de inglês. Também não entendia a letra de outro disco que a Carioca me mostrou, com a foto-chapada do velhinho na praia: “Standing on a beach with a gun in my hand…”
Adorava praias. No começo daquele ano, tinha namorado outra carioca, a Katita. A Katita era flamenguista e morava num condomínio bancário em Itanhaém. Eu ficava inventando desculpas para ir da casa da minha avó, na Praia Grande, a Itanhaém só para ver a Katita: olhos claros, ligeiramente dentucinha, pernas de quem sobe degraus na areia e cabelos claros com aquelas ondinhas de quem vive no mar. Ela era Flamengo, mas isso não me importava.
É claro que foi mesmo muito maluco namorar as duas cariocas no mesmo ano. Mais doido foi ficar com a Katita no dia 11, atrás do banheiro, e com a Aninha no dia 13, em plena fogueira à noite. A Aninha tinha casa na Vila Caiçara e me fazia andar uns 3 kms de bicicleta todos os dias só para ver se rolaria mais um beijo. Era uma tarefa difícil. A Aninha tinha 5 irmãos. Acho que comecei a pensar que ela era minha alma gêmea porque éramos vizinhos em duas cidades. Em São Paulo, via da janela do meu quarto a janela do quarto da Aninha. E, na Praia Grande, a diferença era de um bairro. 3 kms que eu percorria na maior velocidade com a minha Calói, passando por morrinhos de areia, canais de esgoto e 5 irmãos. Tudo por um beijo. Mas, a Aninha me deu um fora bem na frente da sorveteria da Vila Caiçara. Perdi até a vontade de gastar o troco que ganhei da avó com o meu sabor predileto: cereja com cobertura de chocolate. Dei o troco para um menino de rua e voltei 3 kms ouvindo aquele roqueiro escocês que, antes, era coveiro, no walkman: “I don´t waaanna/Talk about it/ How you brooke my heart...” e não entendi nada. Nada de balas Soft. Gotinhas de esgoto respingavam nas minhas canelas.
Não me lembro se a Aninha era Corinthians ou São Paulo. Acho que um dos seus 5 irmãos era são-paulino, mas, como tomei um fora, sempre me recordo dela como corintiana.
Talvez, tenha merecido este fora, algo como um 4 a 1 dentro de casa. Afinal, estava ficando com a Aninha e a Katita ao mesmo tempo. Estava unindo Corinthians e Flamengo, se bem que isso não tinha a menor importância. E, depois, ainda naquele ano, fiquei me dividindo entre a Carioca e a Garotinha Loira. É um ímpeto meio a Vinícius de Moraes. Achamos que ficar com as belas garotas é um modo de homenageá-las. Também achamos – o Vinícius acha, aquele safado! – que escolher só uma pode depreciar a outra, o que seria uma tremenda injustiça com a sua beleza. A Carioca ficou fula da vida com isso e tinha toda a razão. A Garotinha Loira me deu um fora ali mesmo, na porta da escola. Fiquei arrasado, destruído, desolado. Afinal, a Garotinha Loira era tricolor.
Escrito por Jubas às 16h41
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"Ses"
Às vezes, eu acordo no meio da noite e fica pensando o que teria acontecido se aquela maldita barreira não abrisse aos 47 minutos do segundo tempo. O 1 a 1 nos daria o título, mas o Muller, curiosamente de azul, falou alguma coisa para o atacante-batedor-de-falta. Aquilo foi algum segredo drástico, pois o goleiro-batedor-de-falta acabou tendo de buscar a bola no fundo do gol.
Desço as escadas, pois este pensamento me incomoda a ponto de tirar o sono e vou esfriar a cabeça no quintal. Olho para o céu, e nada de azul, nem de estrelas, nem de Cruzeiro, o do Sul. Vejo um estranho facho de nuvem clara num céu escuro e imagino o que teria acontecido se o Super-Homem não tivesse jogado o elevador da Torre Eifel no espaço. Aquela foi uma atitude essencial porque o elevador iria explodir Paris inteira. Mas, se o Super-Homem não tivesse jogado o elevador, com a bomba dentro, no espaço, a explosão subseqüente não teria libertado o General Zod, a maquiavélica Ursa e o grandalhão Non de sua eterna prisão de vidro. Uma vez libertos, os três depuseram o presidente americano em plena Casa Branca e ameaçaram a vida na Terra. Mas, se o general Zod, a bela Ursa e o estúpido Non não tivessem ameaçado a vida na Terra, Kal El não voltaria ao Pólo Norte para recuperar os seus poderes. Kal El não iria procurar pelo espírito de sua mãe, com aquele cabelo armado dos anos 80, para dizer que se arrependeu e que não poderia continuar como Clark Kent com três facínoras ameaçando a vida na Terra. E se eu não tivesse visto essa cena, aos oitos anos, talvez não seria jornalista, nem estivesse escrevendo este texto estúpido.
Saio do quintal e passo pela porta de vidro que dá acesso à sala. Na sala, uma cadeira com um paletó pendurado e num de seus bolsos, também pendurado, um bloquinho de anotações. Penso que, se não fosse a atividade deste bloquinho, ninguém saberia que a ministra quis aumentar o seu próprio salário. Aquela foi uma atitude drástica, pois iria aumentar o salário de todo um poder. E o poder vizinho, o Legislativo, também quis aumentar os seus salários, logo depois. Se ninguém divulgasse isso, talvez, ela não voltaria atrás e o seu poder, quem sabe, não derrubaria também o aumento nos salários do poder vizinho. Por outro lado, penso que grandes coisas fez este mísero bloquinho no universo?! Afinal, a informação poderia sair de outros estúpidos bloquinhos pendurados em milhares de ternos surrados conduzidos todos os dias por pares de sapatos mal engraxados que cruzam o salão verde. Outros ternos, outras estrelinhas no céu cobertas por fachos de nuvens brancas, insignificantes e significantes ao mesmo tempo.
Tonto de sono, subo as escadas e vejo Lois, dormindo na minha cama. A Lois de verdade se pendurou no elevador da Torre Eifel atrás de seu tão sonhado Pulitzer. Levou o bloquinho preso ao terno e tudo. A minha Lois descansa porque vai acordar ainda de madrugada também atrás de notícias. É a sua contribuição neste universo cheio de problemas e ternos com bloquinhos de anotações pendurados. Amanhã, ela certamente levará o seu.
Os cabelos pretos e lisos de Lois me fazem pensar o que teria acontecido se eu não fosse na festa da Deise. Foi uma atitude essencial, porque se eu não fosse na festa não teria dito a Lois que iria apurar o se telefone. E se não tivesse apurado o telefone da Lois, certamente não haveria o Lucas, dez meses hoje, dormindo no quarto ao lado.
Lucas dorme observado por outro super-herói: dentuço, amarelo, com olhos esbugalhados e calças quadradas. Está pendurado acima de seu berço, e não num terno surrado onde vive o eterno bloquinho de anotações. O bloquinho que usei para apurar o telefone da Lois e, depois, anotar as ultra-sonografias de Lucas.
Se Lucas não tivesse pesadelos às 4h de manhã, eu saberia o que é ser pai? E se a Deise não tivesse me chamado para a festa, ou se eu tivesse um importante jogo de futebol de botão naquela noite? E se eu tivesse ido almoçar ao invés de participar da convenção para chapa de oposição ao XI de Agosto? Ou se eu não tivesse batido de propósito no carro da Daniela Ignez, como seriam Marco Antonio e Leonel?
E se o editor tivesse me ouvido quando eu disse que a denúncia do prédio do TRT de São Paulo era grave?
E se Kal El voltasse a ser Kal El?
Se a Florida soubesse votar?
Se a rua Capri não caísse?
Se Pelé tivesse jogado 1974?
Se Baggio não tivesse desperdiçado aquele pênalti?
Se Muller não tivesse dito nada para o Geovanni?
...
Os “ses” são, na verdade, a verdade que aconteceu.
Escrito por Jubas às 19h51
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TOCO Y ME VOY
Para o Deco
Te la toco de primera Vos si querés la agarrás Cada jugada que sueno se hace realidad Yo te la mando a guardar Toda la vida es un baile y te pueden bailar
Aunque no quieras, lo verás En una cancha o en un bar...
Dando la vuelta manija me doy Subiendo al latido de esta vibración Cano, taquito, chilena e tablón El fuego sagrado de mi corazón...
Toco y me voy La camiseta es como um dios Toco y me voy No importa cuál sea el color...
Y si me pintan la cara Hoy no me voy a achicar Cuando me muerda la pena no voy a llorar Si ha terminado el festival... En un picado cualquiera Mi alma se echa a rodar Este es el juego que siento y no pienso parar
Yo pongo el cuerpo hasta el final En una cancha o en un bar
Dando la vuelta manija me doy Subiendo al latido desta vibración Túnel, jueguito y tomá para el gol El fuego sagrado de mi corazón
Toco y me voy La camiseta es como un dios Toco y me voy No importa cuál sea el color (Del cuadro que sigas toda tu vida)
Toco y me voy La camiseta es como un dios Toco y me voy No importa cuál sea el color (Banderas al viento en la bienvenida)
Canção da banda Bersuit, de um disco adquirido em Buenos Aires em fevereiro de 2007
Escrito por Ricardo às 12h13
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Ano novo: velhos amores.
As festas que fecham a conta dos anos sempre me deixam um tanto incomodado. As confraternizações, os amigos secretos, as dádivas, os votos, tudo me parece compulsório demais. Não há o frescor da botecada improvisada e despretensiosa. "Tá onde?", "Em casa", "Tumá uma?", "Agora", "Então liga pro Zé".
E, credo, há os reencontros. Como me constrangem os reencontros com velhos conhecidos, sejam primos de terceiro grau ou ex-colegas de segundo grau. "Casou?", "Ficou careca", ‘Virou PM?", "Padre? Não acredito".
E foi justamente um reencontro, desses de fim de ano, o fato mais marcante nesta virada. Ainda estou como suspenso, feérico.
Não sei bem quando a conheci. Acho até que não a conheci, por assim dizer. Da mesma forma que não conhecemos nossos irmãos: eles sempre estiveram lá. Pois ela sempre esteve lá. Sempre.
Busco uma memória de infância sem ela e não aparece nada. Ou estava com ela, ou ela era parte de minha paisagem, coadjuvante perene de minha meninice.
Acompanhou-me até os primeiros momentos da pré-adolescência, quando a abandonei, prisioneiro que fui da burrice que assola moleques dessa era. Por que eu a abandonei? Acho que foi por conta das garotas do colégio, de minha insegurança ou das mudanças hormonais. Não sei direito hoje, olhares voltados até duas décadas atrás. Sei que a abandonei e nunca mais a vi.
E me arrependi, como ainda hoje faço quando abandono alguém.
Pois a reencontrei no segundo dia deste novo ano.
Meu Deus, como estava linda. Crescida, madura, linda, linda. E como a amei novamente com o mesmo amor, pois sabemos nós, homens, que nossos amores nunca morrem: descansam ausentes até que algo renove a velha chama.
Estou neste momento resgatando com ela antigas memórias, velhas histórias, algumas vitórias e muitas derrotas. Que falta, que falta me fazia.
Não a abandonarei mais. Jamais. E convido todos os bolonistas a curtirem meu reencontro e a torná-lo seu também. A mesa está lá: tamanho oficial, sobre cavaletes. Travezinhas morumbi. Quadradinhas.
Escrito por Demas às 10h18
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